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sábado, 4 de julho de 2026

Dormir até mais tarde no fim de semana não resolve o problema, alerta especialista

Variações de apenas uma hora nos horários de sono já podem aumentar o risco de hipertensão e apneia; regularidade pode ser tão importante quanto a quantidade de horas dormidas

 

Dormir algumas horas a mais no sábado e no domingo para compensar as noites mal dormidas durante a semana parece uma solução simples e inofensiva. No entanto, evidências científicas recentes mostram que a prática, conhecida como "jet lag social", pode trazer consequências para a saúde e contribuir para problemas como hipertensão arterial, apneia do sono e alterações metabólicas. 

O fenômeno ocorre quando a pessoa mantém um horário para dormir e acordar durante os dias de trabalho, mas muda completamente a rotina nos períodos de folga. Embora seja uma prática comum, especialmente entre adultos com jornadas intensas de estudo e trabalho, ela pode desregular o relógio biológico do organismo. 

Segundo o médico Carlos Filipe Moraes Coimbra, docente de Semiologia e Temas Integradores do curso de Medicina do Centro Universitário Cesuca, o sono precisa ser analisado não apenas pela quantidade de horas dormidas, mas também pela regularidade dos horários. 

"Muitas pessoas acreditam que o mais importante é atingir um determinado número de horas de sono. Mas hoje sabemos que manter horários consistentes para dormir e acordar pode ser tão importante quanto a duração do sono. O organismo funciona melhor quando consegue reconhecer uma rotina e sincronizar seus processos biológicos com ela", explica. 

A preocupação ganhou força após estudos recentes apontarem que variações de apenas uma hora nos horários habituais de sono já podem estar associadas a um aumento do risco de hipertensão arterial e apneia obstrutiva do sono, condição caracterizada por interrupções repetidas da respiração durante a noite. 

Do ponto de vista clínico, a relação não surpreende os especialistas. Isso porque o corpo humano possui um sistema interno de regulação conhecido como ritmo circadiano, responsável por coordenar diversas funções fisiológicas ao longo do dia, incluindo pressão arterial, metabolismo, temperatura corporal e produção hormonal. 

"Quando os horários de dormir e acordar mudam constantemente, o organismo perde referências importantes para regular processos essenciais. É como se o relógio biológico precisasse se reajustar repetidamente, gerando um estado de desorganização que afeta diferentes sistemas do corpo", afirma Coimbra.

 

O mito da compensação do sono - Um dos comportamentos mais comuns entre adultos é tentar recuperar o sono perdido ao longo da semana dormindo mais aos fins de semana. Embora essa estratégia possa reduzir temporariamente a sensação de cansaço, ela não elimina completamente os impactos da privação crônica de sono. 

De acordo com o docente, o chamado sono de recuperação pode trazer benefícios imediatos, como melhora do humor, redução da fadiga e maior disposição. No entanto, ele não é capaz de neutralizar todos os efeitos negativos causados por uma rotina irregular. 

"Dormir mais no fim de semana pode proporcionar uma sensação de recuperação no curto prazo, mas não corrige totalmente as alterações metabólicas e cardiovasculares associadas à privação de sono. Além disso, mudanças frequentes nos horários acabam reforçando a desregulação do relógio biológico", destaca.

 

Impactos que vão além do cansaço - Os efeitos do sono irregular não se limitam à sonolência diurna. Pesquisas indicam que a desregulação do ritmo circadiano pode favorecer o desenvolvimento de doenças cardiovasculares, diabetes, obesidade e outros problemas metabólicos. 

Segundo Coimbra, o organismo depende de padrões previsíveis para controlar adequadamente funções como a pressão arterial. 

"Normalmente, a pressão arterial diminui durante o período de sono e volta a subir pela manhã. Quando a rotina é irregular, o corpo tem mais dificuldade para reconhecer esses ciclos, o que pode contribuir para alterações na regulação cardiovascular e aumentar o risco de hipertensão ao longo do tempo." 

Outro fator preocupante é a associação entre sono irregular e apneia obstrutiva do sono. A condição afeta milhões de pessoas e pode provocar ronco intenso, despertares frequentes, sonolência excessiva durante o dia e aumento do risco cardiovascular.

 

O celular também entra na conta - Além da correria cotidiana, o uso excessivo de telas tem contribuído para o crescimento dos distúrbios relacionados ao sono. A exposição à luz emitida por celulares, computadores e tablets durante a noite pode atrasar a produção de melatonina, hormônio responsável por sinalizar ao organismo que é hora de dormir. 

Somam-se a isso fatores emocionais, excesso de informações, redes sociais e o hábito de permanecer conectado até momentos antes de dormir. 

"O sono ainda é frequentemente tratado como algo secundário, que pode ser sacrificado em nome da produtividade, do trabalho ou do entretenimento. Precisamos mudar essa percepção. Dormir não é perda de tempo. É um processo biológico fundamental para a saúde do cérebro, do coração e de todo o organismo", ressalta o médico.

 

Quando procurar ajuda - Os especialistas recomendam atenção para sinais como cansaço persistente, dificuldade de concentração, alterações de humor, dores de cabeça frequentes, ronco intenso e sonolência excessiva durante o dia. 

Caso os sintomas persistam mesmo após ajustes na rotina, a orientação é buscar avaliação médica para investigar possíveis distúrbios do sono. 

"A boa notícia é que muitos problemas relacionados ao sono têm tratamento. Quanto mais cedo forem identificados, maiores são as chances de prevenir complicações futuras e melhorar a qualidade de vida", conclui Coimbra.

 

Cinco atitudes para melhorar a regularidade do sono 

Manter horários semelhantes para dormir e acordar, inclusive nos fins de semana 

Evitar o uso de celulares, computadores e tablets próximo ao horário de dormir 

Utilizar a cama apenas para dormir, evitando trabalho ou uso prolongado de telas 

Praticar atividade física regularmente 

Procurar avaliação médica em casos de ronco intenso, sonolência excessiva ou cansaço persistente

  

Centro Universitário Cesuca
www.cesuca.edu.br


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