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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Pessoas produtivas também adoecem: o crescimento da chamada “ansiedade funcional” entre jovens adultos

 Condição muitas vezes passa despercebida porque pacientes mantêm rotina intensa, alta performance e vida social aparentemente estável

 

Nem toda ansiedade paralisa. Em alguns casos, ela se esconde atrás de agendas lotadas, produtividade constante e uma rotina que, à primeira vista, parece funcionar perfeitamente. É o que tem sido chamado de “ansiedade funcional”, um quadro cada vez mais observado entre jovens adultos que conseguem manter compromissos profissionais, estudos e vida social, mas convivem diariamente com sintomas intensos de ansiedade, autocobrança e exaustão emocional. 

Ansiedade funcional não é um problema classificado nos manuais diagnósticos e o próprio nome carrega uma certa contradição, já que por definição os transtornos ansiosos implicam em comprometimento funcional, segundo os critérios diagnósticos. O termo se refere a quando, apesar da ansiedade, a pessoa continua dando conta das tarefas, como se isso fosse sinal de saúde. Mas continuar funcionando bem “por fora” não significa estar bem “por dentro”: essa mesma pessoa costuma viver em estado de alerta constante, com medo de falhar e uma sensação permanente de insuficiência. O problema é que justamente essa aparente funcionalidade pode atrasar a busca por ajuda. 

Dormir mal com frequência, não conseguir desacelerar, sentir culpa ao descansar e viver em tensão constante são sinais de alerta mesmo quando a rotina parece sob controle. 

“Existe uma ideia equivocada de que, se a pessoa continua entregando resultados, então ela está bem. Mas muitos pacientes vivem em estado constante de alerta, tensos, com sensação de insuficiência, medo constante de falhar e dificuldade real de descansar”, explica o psiquiatra da São Leopoldo Mandic, Dr. Celso Garcia Junior. “Não atingir uma performance elevada não é doença. O que adoece é o contrário: a exigência constante de manter esse desempenho, sem pausa, vai acumulando estresse ao longo do tempo, e é esse estresse crônico que abre caminho para o sofrimento psíquico”. 

Entre os principais sinais estão pensamentos acelerados, irritabilidade, insônia, dificuldade de relaxar, necessidade excessiva de controle, culpa ao descansar e sensação permanente de estar “devendo alguma coisa”. Em muitos casos, a ansiedade funcional também aparece associada ao perfeccionismo e à pressão pelo alto desempenho, especialmente em uma geração acostumada a competir, se comparar e estar disponível o tempo todo. 

O risco é que, sem a atenção adequada, o quadro evolua para quadros ansiosos mais graves, aí sim, com impacto profundo na saúde física, emocional e no bem-estar psicossocial. 

Outro desafio é que pessoas com ansiedade funcional costumam demorar mais para reconhecer o próprio sofrimento. Como conseguem cumprir tarefas e manter uma imagem de estabilidade, muitas só procuram ajuda quando o corpo começa a dar sinais mais intensos de esgotamento. 

O especialista reforça que dormir mal com frequência, não conseguir desacelerar, sentir culpa ao descansar e viver em estado constante de tensão são sinais de alerta importantes mesmo quando a rotina parece sob controle. 

“Conseguir entregar resultados não elimina o sofrimento. Muitas vezes ela apenas mascara um adoecimento que já está acontecendo”, conclui.


 

São Leopoldo Mandic

 

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