Condição muitas vezes passa despercebida porque pacientes mantêm rotina intensa, alta performance e vida social aparentemente estável
Nem toda ansiedade paralisa. Em alguns casos, ela se esconde atrás
de agendas lotadas, produtividade constante e uma rotina que, à primeira vista,
parece funcionar perfeitamente. É o que tem sido chamado de “ansiedade
funcional”, um quadro cada vez mais observado entre jovens adultos que
conseguem manter compromissos profissionais, estudos e vida social, mas
convivem diariamente com sintomas intensos de ansiedade, autocobrança e
exaustão emocional.
Ansiedade funcional não é um problema classificado nos manuais
diagnósticos e o próprio nome carrega uma certa contradição, já que por
definição os transtornos ansiosos implicam em comprometimento funcional,
segundo os critérios diagnósticos. O termo se refere a quando, apesar da
ansiedade, a pessoa continua dando conta das tarefas, como se isso fosse sinal
de saúde. Mas continuar funcionando bem “por fora” não significa estar bem “por
dentro”: essa mesma pessoa costuma viver em estado de alerta constante, com
medo de falhar e uma sensação permanente de insuficiência. O problema é que
justamente essa aparente funcionalidade pode atrasar a busca por ajuda.
Dormir mal com frequência, não conseguir desacelerar, sentir culpa
ao descansar e viver em tensão constante são sinais de alerta mesmo quando a
rotina parece sob controle.
“Existe uma ideia equivocada de que, se a pessoa continua
entregando resultados, então ela está bem. Mas muitos pacientes vivem em estado
constante de alerta, tensos, com sensação de insuficiência, medo constante de
falhar e dificuldade real de descansar”, explica o psiquiatra da São Leopoldo
Mandic, Dr. Celso Garcia Junior. “Não atingir uma performance elevada não é
doença. O que adoece é o contrário: a exigência constante de manter esse
desempenho, sem pausa, vai acumulando estresse ao longo do tempo, e é esse
estresse crônico que abre caminho para o sofrimento psíquico”.
Entre os principais sinais estão pensamentos acelerados,
irritabilidade, insônia, dificuldade de relaxar, necessidade excessiva de
controle, culpa ao descansar e sensação permanente de estar “devendo alguma
coisa”. Em muitos casos, a ansiedade funcional também aparece associada ao
perfeccionismo e à pressão pelo alto desempenho, especialmente em uma geração
acostumada a competir, se comparar e estar disponível o tempo todo.
O risco é que, sem a atenção adequada, o quadro evolua para
quadros ansiosos mais graves, aí sim, com impacto profundo na saúde física,
emocional e no bem-estar psicossocial.
Outro desafio é que pessoas com ansiedade funcional costumam
demorar mais para reconhecer o próprio sofrimento. Como conseguem cumprir
tarefas e manter uma imagem de estabilidade, muitas só procuram ajuda quando o
corpo começa a dar sinais mais intensos de esgotamento.
O especialista reforça que dormir mal com frequência, não
conseguir desacelerar, sentir culpa ao descansar e viver em estado constante de
tensão são sinais de alerta importantes mesmo quando a rotina parece sob
controle.
“Conseguir entregar resultados não elimina o
sofrimento. Muitas vezes ela apenas mascara um adoecimento que já está
acontecendo”, conclui.
São Leopoldo Mandic
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