Há
poucos contextos no mundo em que um gesto silencioso pode ser observado, ao
mesmo tempo, por bilhões de pessoas. A Copa do Mundo de 2026 é um deles. Com
jogos distribuídos entre Canadá, México e Estados Unidos, a FIFA projeta que
mais de 6 bilhões de pessoas acompanhem o torneio de alguma forma, enquanto
cerca de 5 milhões devem passar pelos estádios ao longo das 104 partidas. É,
possivelmente, o maior evento de atenção simultânea do planeta. E, ali, nem
tudo se comunica pela fala.
A
cobrança de pênalti evidencia isso com precisão. O goleiro amplia sua presença,
ocupa o espaço e tenta desestabilizar. O cobrador ajusta o ritmo, altera o
passo, sustenta ou disfarça o olhar. Nenhuma palavra é dita, mas há uma
negociação em curso. É um duelo psicológico transmitido em tempo real,
amplificado por uma audiência global inédita. O corpo argumenta antes da
decisão.
Esse
jogo de sinais se estende além do gramado. O vestiário é um espaço em que a
comunicação pode redefinir rumos, uma vez que, em poucos minutos, líderes
reorganizam emoções, alinham estratégias e tentam restaurar a confiança em
equipes formadas por diferentes idiomas, culturas e repertórios. Nesse
contexto, a Copa funciona como um laboratório de comunicação intercultural sob
pressão máxima.
Não é
apenas o que se diz, mas como se expressa. Um gesto de incentivo, um silêncio
no momento certo e um olhar que sustenta após uma falha são elementos simples
que constroem coesão com uma eficácia que discursos elaborados raramente
alcançam.
Nas
coletivas de imprensa, a dinâmica muda. A fala volta ao centro, mas muitas
vezes como mecanismo de contenção. Há quem responda sem responder, quem recorra
a fórmulas prontas e quem use o sorriso para deslocar o foco. É uma oratória
defensiva, em que cada palavra é medida não só pelo que revela, mas pelo que
preserva.
E
então vem o gol. A comemoração dificilmente é aleatória. Gestos, trajetos e
olhares em direção às câmeras constroem narrativas instantâneas. Do outro lado,
o erro exige gestão imediata da própria imagem. Ainda em campo, o jogador
precisa reorganizar sua história diante de milhões, ou melhor, bilhões. Não há
edição, não há ensaio, mas exposição.
Talvez
por isso o estilo de jogo de cada seleção revele também uma forma de expressão.
O futebol brasileiro, por exemplo, historicamente se destaca por uma retórica
corporal intensa, com dribles que rompem padrões e movimentos que criam sentido
no improviso.
Observar
a Copa por essa lente amplia o campo de leitura. O jogo deixa de ser apenas
disputa e passa a ser também expressão. Ali, vemos como construímos presença,
administramos percepções e nos comunicamos quando falar não é possível ou
quando pode custar caro.
Fabiana Bertotti - especialista em oratória, referência na capacitação de líderes. Direcionou sua carreira para a formação de comunicadores, com especialização em Cinema e Audiovisual pela PUC-PR e cursos de escrita no Brasil e na Inglaterra. São mais de 20 anos de experiência em palco, mais de 12 livros publicados e atuação em palestras e conferências no Brasil e no exterior.
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