O mundo vive uma intensa corrida por produtividade,
impulsionada pelos avanços tecnológicos, ascensão da IA, automação em massa,
análise de dados e pela inovação contínua. Não faltam exemplos de empresas
e países que conquistaram ganhos de eficiência, redução de custos, tomadas
de decisões mais assertivas e ampliação da sua competitividade ao incorporarem
essas transformações com estratégia. Dentre eles, infelizmente, o Brasil
ainda avança em um ritmo muito inferior ao necessário para acompanhar essa nova
dinâmica global.
Um estudo recente do think tank,
o Conference Board, mostrou que a produtividade da economia nacional
recuou 18,5% desde 1980, retornando a níveis semelhantes aos registrados em
1958. Ao
mesmo tempo, nossa participação no PIB mundial caiu de 2,8% para
2,1%, ocupando, hoje, a 52ª posição no ranking global do Índice
Global de Inovação (IGI), elaborado pela Organização Mundial da Propriedade
Intelectual (WIPO / OMPI).
Em um mercado de constantes evoluções em que a
tecnologia vem redefinindo negociações entre as mais diversas organizações,
insistir em modelos pouco eficientes significa abrir espaço para que outras
economias avancem mais rapidamente. Nosso país tem um amplo potencial para
estar dentre as maiores potências, mas deixa de ocupar este espaço por fatores
preocupantes que ainda parecem não ter sido amplamente compreendidos pelo
empresariado – dos quais cinco se destacam:
#1 Resistência à inovação
como estratégia de negócios: a inovação ainda é
tratada por muitas empresas como um projeto pontual, e não como um componente
estratégico para seu crescimento. Dessa forma, ao invés de
estruturarem processos contínuos de transformação, com
metas e indicadores de desempenho, se limitam a
iniciativas isoladas, que pouco impactam sua competitividade. O cenário da
Indústria 4.0 ilustra bem essa realidade: embora já exista há 14 anos
e seja amplamente falado ao redor do mundo, sua adoção no Brasil
ainda está em estágio inicial. Uma pesquisa da Confederação Nacional da
Indústria (CNI), como prova disso, mostra que apesar de 69%
das indústrias já utilizarem algum tipo de tecnologia digital, a maioria
ainda está dando os primeiros passos de maturidade, com baixa
integração entre sistemas, pouca utilização estratégica dos dados e reduzido
aproveitamento do potencial dessas ferramentas.
#2 Decisões baseadas em
intuição, e não em dados: em um mercado cada
vez mais dinâmico, tomar decisões com base na experiência ou "achismos”
não é suficiente para sustentar a vantagem competitiva. Ainda assim, muitas
empresas brasileiras enfrentam dificuldades para consolidar uma cultura
orientada por dados, seja pela baixa integração entre sistemas, pela qualidade
das informações disponíveis ou pela falta de profissionais preparados para
transformá-las em inteligência de negócios, o que resulta na perda de
agilidade, maior exposição a riscos e decisões menos assertivas.
#3 Gargalos de eficiência: há,
ainda, uma grande resistência em muitas empresas de investirem mais tempo
e recursos em sua governança, acreditando que mapear fluxos, definir
responsabilidades, estabelecer indicadores e padronizar atividades significa
aumentar a burocracia e reduzir a agilidade operacional. Mas, na
prática, o que ocorre é justamente o contrário. Processos
bem estruturados eliminam retrabalho, reduzem desperdícios, aumentam a
previsibilidade e permitem que as equipes direcionem esforços para atividades
de maior valor estratégico. As normas ISO são excelentes exemplos de
sucesso nesse sentido, tendo na China um dos maiores cases de sucesso com
empresas que vêm expandindo seus resultados através dessas metodologias e,
consequentemente, favorecendo a melhora do PIB nacional.
#4 Uso da IA sem capacitação: em muitas organizações, essa ferramenta vem sendo utilizada como
substituta do pensamento crítico, e não como um instrumento para
potencializá-lo. É cada vez mais comum, por exemplo, ver profissionais tratando
respostas de plataformas como o ChatGPT como verdades absolutas, sem validação,
contexto ou senso analítico. Essa falta de gestão do conhecimento evidencia,
inclusive, uma lacuna de capacitação que vai além da tecnologia: o Brasil
continua distante das principais economias em inovação e produção de
conhecimento, ocupando apenas a 50ª posição entre 133 países no Índice Global
de Inovação de 2025.
#5 Infraestrutura
insuficiente: nenhum esforço de inovação ou
transformação digital será suficiente se continuarmos enfrentando
gargalos históricos de infraestrutura. O Brasil possui dimensões continentais e
enorme potencial logístico, mas ainda convive com uma matriz de transporte
excessivamente dependente das rodovias, estradas em condições precárias,
ferrovias insuficientes e um sistema portuário que não acompanha o volume e a
complexidade do comércio internacional. O resultado é o aumento dos custos
operacionais, atrasos na cadeia de suprimentos e perda de competitividade
frente a economias que investiram de forma consistente em infraestrutura.
Ao enxergarmos tamanho crescimento de potências
internacionais, é normal cobrarmos mais iniciativas de inovação das empresas,
do governo e da sociedade. Contudo, talvez a pergunta mais importante a se
fazer seja: quais mudanças estamos dispostos a promover dentro das nossas
próprias organizações?
Seguimos exportando cacau para importar chocolate,
vendendo café para comprar cápsulas de alto valor agregado, e sustentando boa
parte da economia na comercialização de commodities, enquanto importamos
tecnologia, conhecimento e produtos manufaturados. Temos à disposição uma
série de metodologias de gestão capazes de fortalecer
nossa governança, impulsionar a transformação digital
e elevar a inteligência no uso estratégico dos dados.
O conhecimento está disponível, as tecnologias
também. O que falta é compreender que competitividade exige mudança de mentalidade.
Afinal, insistir nas mesmas práticas e esperar resultados diferentes não nos
levará ao protagonismo que o potencial brasileiro permite alcançar.
Alexandre Pierro - doutorando em energia e mestre em
gestão e engenharia da inovação, engenheiro mecânico, bacharel em física e
especialista de gestão da PALAS, consultoria pioneira na implementação da ISO
de inovação na América Latina.
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