No Dia Mundial do Chocolate, especialistas
esclarecem por que o alimento ganhou fama de "companheiro da TPM" e
explicam que sua relação com a saúde da mulher é mais complexa do que o senso
comum sugere
Comemora-se
em 7 de julho, o Dia Mundial do Chocolate. E, no imaginário popular, poucas
associações são tão conhecidas quanto a de mulheres que recorrem ao chocolate
durante a TPM, especialmente. A imagem, repetida por décadas em campanhas
publicitárias, filmes e redes sociais, consolidou a ideia de que o alimento
seria uma necessidade biológica feminina nesse período.
A literatura
científica, porém, mostra um cenário mais complexo. Embora muitas mulheres
relatem aumento do desejo por chocolate antes da menstruação, os estudos
indicam que fatores culturais, emocionais e comportamentais têm papel tão
importante quanto as alterações hormonais.
Uma pesquisa
publicada na revista científica Appetite comparou mulheres dos Estados Unidos e
da Espanha e encontrou diferenças marcantes na frequência do desejo por
chocolate durante o período pré-menstrual. Enquanto entre as norte-americanas
essa associação foi amplamente relatada, entre as espanholas ela apareceu em
proporção muito menor. Os pesquisadores concluíram que a cultura exerce
influência significativa sobre esse comportamento, enfraquecendo a hipótese de
que exista um mecanismo fisiológico universal responsável pelo chamado
"desejo de chocolate na TPM".
Para a
médica ginecologista Roberta Brando, especialista em estética íntima e terapia
hormonal feminina, esse é um dos principais equívocos quando o assunto é saúde
feminina. "Existe uma tendência de atribuir qualquer mudança de humor ou
de apetite exclusivamente aos hormônios. O ciclo menstrual realmente provoca
alterações hormonais capazes de influenciar o funcionamento do organismo, mas a
resposta de cada mulher é individual. Aspectos emocionais, hábitos alimentares,
qualidade do sono, nível de estresse e até fatores culturais participam dessa
equação”, ela defende.
A TPM representa
um conjunto de sintomas físicos, emocionais e comportamentais que podem surgir
nos dias que antecedem a menstruação. Irritabilidade, ansiedade, maior
sensibilidade emocional, retenção de líquidos, fadiga e alterações do apetite
figuram entre as manifestações mais frequentes. Ainda assim, a intensidade
varia amplamente entre as mulheres e, em alguns casos, os sintomas sequer
aparecem.
Embora seja
comum ouvir que o chocolate melhora o humor por estimular a produção de
serotonina, a ciência mostra que esse efeito costuma ser mais discreto do que
se imagina. O alimento reúne compostos bioativos, como flavonoides, teobromina
e pequenas quantidades de cafeína, além de proporcionar prazer sensorial,
fatores que podem contribuir para uma sensação temporária de bem-estar. Isso,
entretanto, não significa que ele trate a TPM ou corrija alterações hormonais.
"A
alimentação pode ser uma aliada importante para reduzir alguns desconfortos do
ciclo menstrual, mas nenhum alimento, isoladamente, funciona como tratamento. O
chocolate pode fazer parte de uma dieta equilibrada, principalmente quando
possui maior concentração de cacau, porém ele não substitui acompanhamento
médico nem mudanças no estilo de vida quando a mulher apresenta sintomas
intensos", completa Roberta.
Outro mito
frequentemente repetido é o de que mulheres precisam consumir chocolate porque
estariam com deficiência de magnésio durante a TPM. Essa hipótese chegou a ser
discutida por pesquisadores nas últimas décadas, mas não encontrou confirmação
consistente. Estudos clínicos que avaliaram possíveis relações entre
progesterona, tensão emocional e desejo por chocolate também não conseguiram
demonstrar que alterações hormonais específicas sejam as responsáveis diretas
pela compulsão alimentar nesse período.
A médica
explica que o aumento do apetite observado na fase lútea, período entre a
ovulação e a menstruação, faz parte de uma adaptação fisiológica do organismo.
"É esperado que algumas mulheres apresentem maior fome nessa fase do
ciclo. Isso não significa perda de controle ou fraqueza emocional. O importante
é compreender esses sinais do corpo e buscar estratégias alimentares que
promovam saciedade, sem transformar o chocolate em um alimento proibido ou em
uma solução para todos os sintomas”, aconselha.
Ao final,
Roberta indica que está liberado comemorar o o No Dia Mundial do Chocolate, mas
a principal mensagem da ciência é que não existe motivo para demonizar o
alimento nem para atribuir a ele poderes terapêuticos. “O chocolate pode
integrar uma alimentação equilibrada e, para muitas mulheres, representar um
momento de prazer. Transformá-lo, porém, em símbolo obrigatório da TPM ou da
saúde feminina significa perpetuar um mito que a própria literatura científica
vem desmontando há anos”, finaliza.
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