Práticas abusivas continuam sendo confundidas com um modelo de gestão exigente
Com a inclusão dos riscos psicossociais na atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), as empresas passaram a ser cobradas não apenas pela prevenção de acidentes físicos, mas também pela identificação e redução de fatores que favorecem o sofrimento emocional, como ambientes hostis, pressão excessiva, violência psicológica e culturas organizacionais baseadas no medo.
Para o psiquiatra
corporativo Dr. Daniel Sócrates, doutor pela Universidade Federal de São Paulo
(UNIFESP) e especialista em saúde mental relacionada ao trabalho, o
assédio começa quando a cobrança passa a utilizar humilhação, intimidação, constrangimento, ameaças ou exposição como ferramenta de gestão. “O medo nunca pode ser um instrumento de liderança", afirma o especialista que alerta para o problema vai muito além dos episódios explícitos de agressão verbal.
"Muitas
formas de assédio são silenciosas. Ignorar sistematicamente um profissional,
excluí-lo de reuniões importantes, desqualificar constantemente suas ideias,
ridicularizá-lo diante da equipe ou retirar sua autonomia de maneira repetitiva
também provocam sofrimento psicológico e podem comprometer seriamente sua saúde
mental."
O assédio nem sempre grita
Na prática clínica, Daniel Sócrates observa que muitos pacientes chegam ao consultório acreditando que estão apenas "cansados" ou "estressados", quando, na realidade, vivem há meses — ou anos — submetidos a um ambiente de violência psicológica.
Entre os sinais
mais frequentes estão:
- ansiedade
constante antes de ir ao trabalho;
- insônia;
- sensação
permanente de incompetência;
- medo
de cometer erros;
- queda
de autoestima;
- crises
de choro;
- irritabilidade;
- dificuldade
de concentração;
- sintomas físicos, como dores de cabeça, alterações gastrointestinais e tensão muscular
"Quando a pessoa começa a duvidar da própria capacidade, perde a confiança nas próprias decisões e vive em estado permanente de alerta, muitas vezes estamos diante de um ambiente psicologicamente adoecido, e não de uma fragilidade individual."
O psiquiatra destaca que, em muitos casos, o problema não está apenas na postura de um gestor, mas na própria cultura organizacional. Empresas que estimulam competição excessiva, metas inalcançáveis, disponibilidade permanente, comparação pública entre funcionários e valorização do medo como estratégia de desempenho acabam criando um ambiente propício para o surgimento do assédio moral institucional.
"Quando
humilhar, expor ou pressionar continuamente passa a ser considerado uma forma
aceitável de obter resultados, o problema deixa de ser individual e passa a
fazer parte da cultura da organização."
Outro ponto frequentemente observado é a reprodução de modelos antigos de liderança.
"Muitos
gestores não percebem que estão assediando porque repetem exatamente o modelo
sob o qual foram formados. Eles acreditam que 'sempre foi assim'. Mas práticas
que antes eram naturalizadas hoje são reconhecidas como fatores importantes de
adoecimento."
Metas impossíveis também adoecem
Segundo Dr. Daniel, existe uma diferença importante entre metas desafiadoras e objetivos construídos para serem inalcançáveis.
"Desafios estimulam crescimento. Já metas impossíveis produzem uma sensação permanente de fracasso, aumentam a autocobrança e favorecem ansiedade, exaustão emocional e burnout. O trabalhador passa a acreditar que nunca será suficiente, independentemente do quanto se dedique."
O especialista também chama atenção para situações em que profissionais recebem orientações contraditórias, são responsabilizados por problemas que não controlam ou nunca conseguem atender às expectativas da liderança.
"Quando
qualquer decisão parece errada e toda entrega é motivo de crítica, instala-se
um ambiente de insegurança psicológica extremamente nocivo."
Alta performance não depende do medo
Embora muitas empresas ainda associem pressão intensa à produtividade, as evidências mostram o contrário. "A inovação, a colaboração e a alta performance sustentáveis acontecem em ambientes onde existe segurança psicológica. Pessoas que trabalham sob medo gastam energia tentando se proteger. Pessoas que trabalham com confiança conseguem concentrar seus esforços em criar, resolver problemas e gerar resultados."
Para o psiquiatra,
reconhecer o assédio moral deixou de ser apenas uma obrigação legal e tornou-se
uma estratégia de saúde pública e de gestão.
"O custo do assédio não aparece apenas nos processos trabalhistas. Ele está no aumento dos afastamentos, do presenteísmo, do turnover, da perda de talentos e do adoecimento coletivo. Cuidar da saúde mental nas organizações deixou de ser uma ação de bem-estar; hoje é uma necessidade para proteger pessoas e garantir a sustentabilidade das empresas."
Dr. Daniel Sócrates - Médico psiquiatra, doutor pela UNIFESP, com mais de duas décadas de atuação clínica. Dedica-se ao cuidado de profissionais que enfrentam altos níveis de exigência e responsabilidade, com abordagem focada em performance sustentável, saúde mental e qualidade de vida.
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