Professor do Senac São Paulo explica por que o diferencial dos candidatos está menos em acumular referências e mais em conectar diferentes áreas do conhecimento para interpretar temas da atualidade
A poucos meses do Exame Nacional do Ensino Médio
(Enem), muitos estudantes intensificam a rotina de estudos para revisar
conteúdos e resolver simulados. Mas, para João Gabriel Ferraz Vasconcellos, professor
da Área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas do Ensino Médio Técnico no
Senac Lapa Scipião, um dos maiores diferenciais para conquistar um bom
desempenho na prova está fora das apostilas. Mais do que memorizar conceitos ou
decorar citações, desenvolver repertório sociocultural significa aprender a
interpretar acontecimentos da atualidade e estabelecer conexões entre
diferentes áreas do conhecimento, habilidade valorizada tanto na redação quanto
nas questões interdisciplinares do exame.
Essa construção pode começar em espaços que já fazem parte da
rotina dos estudantes. Filmes, séries, documentários, podcasts, livros,
reportagens e até conteúdos produzidos para as redes sociais podem ampliar a
capacidade de análise crítica, desde que consumidos de forma consciente. O
ponto central, segundo o professor, não é a quantidade de informações
acessadas, mas a capacidade de compreender o contexto, identificar diferentes
perspectivas sobre um mesmo tema e verificar a credibilidade das fontes.
"O repertório sociocultural permite que o estudante construa
análises mais sofisticadas e se afaste do senso comum. O Enem valoriza quem
consegue mobilizar conhecimentos de diferentes áreas para defender seus
argumentos. Isso demonstra que ele não apenas memorizou informações, mas
compreendeu como elas dialogam entre si e com os desafios da sociedade",
explica João Gabriel Ferraz Vasconcellos.
Na prática, acompanhar assuntos que ocupam o debate público pode
ser um bom ponto de partida para esse exercício. Mudanças climáticas,
desigualdade social, violência de gênero, inteligência artificial, saúde
mental, transformações no mundo do trabalho, geopolítica, crises migratórias e
direitos humanos são temas recorrentes no noticiário e que dialogam com as
competências cobradas no Enem. Para aprofundar essas discussões, o docente
recomenda recorrer a diferentes linguagens. Obras como Quarto de Despejo,
de Carolina Maria de Jesus, a pintura Retirantes, de Candido Portinari,
produções audiovisuais como Round 6, Black Mirror e O Dilema
das Redes, além de podcasts como Xadrez Verbal, Café da Manhã,
Fio da Meada e Tempo Quente, ajudam a ampliar o olhar sobre
questões sociais, políticas e econômicas.
Para o professor, entretanto, nenhuma dessas referências faz
diferença isoladamente. "O repertório não está na citação de um livro, de
um filme ou de uma série. Ele está na capacidade de relacionar diferentes
linguagens para compreender um problema e construir uma argumentação
consistente. É essa habilidade de fazer conexões que transforma o consumo de
informação em conhecimento e pode fazer a diferença no desempenho do estudante
no Enem", conclui.
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