O
Brasil voltou a discutir mudanças na jornada de trabalho e o fim de escalas
como a 6x1. É um debate legítimo. Afinal, toda sociedade precisa refletir sobre
qualidade de vida, produtividade e equilíbrio entre trabalho e descanso. O
problema é que, em muitos momentos, essa discussão tem sido conduzida como se a
economia funcionasse por decreto e todos os setores pudessem simplesmente se
ajustar por mágica. No mundo real, a realidade não é assim, quando a regra
nasce desconectada da operação real, o impacto não fica restrito ao caixa das
empresas. Ele chega rapidamente à vida das pessoas: ao emprego formal, à renda
do mês e à estabilidade de famílias inteiras.
No
setor de eventos, essa desconexão é particularmente evidente. Eventos não
seguem o ritmo tradicional de expediente de segunda a sexta. Trata-se de uma
operação baseada em picos de atividade, janelas curtas e datas que simplesmente
não podem ser adiadas. Uma feira, um congresso, um festival, uma formatura ou
um casamento dependem de montagem e desmontagem em horários definidos pelos
espaços, muitas vezes exigindo viradas noturnas e trabalho em fins de semana ou
feriados. Além disso, há uma cadeia extensa de serviços envolvidos, como
cenografia, locação de estruturas, audiovisual, credenciamento, recepção,
segurança, limpeza, alimentação e logística, que precisa funcionar de forma
sincronizada para que o evento aconteça.
Quando
se propõe reduzir a carga horária semanal e encerrar determinadas escalas sem
uma transição adequada e sem uma engenharia normativa que preserve a
viabilidade de setores intensivos em mão de obra, o efeito tende a ser
previsível. O custo por hora efetivamente trabalhada aumenta, as escalas ficam
mais difíceis de organizar e a produtividade operacional diminui. Em um setor
que depende de cronograma rígido e execução coordenada, esse desequilíbrio rapidamente
se transforma em aumento de custos. A consequência aparece na ponta: reajustes,
renegociações ou até cancelamentos de projetos. Eventos menores, menos
contratos e, inevitavelmente, menos vagas de trabalho.
É
nesse ponto que o debate público precisa abandonar soluções simplistas. Não
existe mudança estrutural sem custo. No setor de eventos, formado
majoritariamente por pequenas e médias empresas prestadoras de serviços, uma
elevação abrupta de custos e de rigidez operacional dificilmente será absorvida
apenas por meio da redução de margens. Na prática, o ajuste ocorre de outra
forma: corte de equipes, aumento da terceirização fragmentada, substituição de
vínculos formais por arranjos mais precários e, em alguns casos, migração para
a informalidade.
O
aspecto mais preocupante dessa dinâmica é que a precarização não atinge um CNPJ
abstrato. Ela atinge pessoas reais. Afeta diretamente a renda de profissionais
que trabalham em montagem, audiovisual, limpeza, segurança, buffet, recepção e
credenciamento, trabalhadores que sustentam suas famílias com base em uma
rotina exigente, mas formal, previsível e contínua. Quando uma política pública
empurra o mercado para o improviso, o resultado tende a ser menos carteira assinada,
mais rotatividade e maior insegurança para milhares de famílias.
O
setor de eventos ainda enfrenta um desafio adicional que raramente aparece nas
discussões em Brasília: a sobreposição de exigências regulatórias para operar
em domingos e feriados, justamente os períodos em que grande parte das
atividades ocorre. Se novas regras passam a impor mais restrições ou custos
para trabalhar exatamente nos dias em que a demanda existe, somando-se a uma
redução abrupta da jornada semanal, cria-se um ambiente de custo elevado e
insegurança jurídica. E previsibilidade é um elemento essencial para o setor.
Sem previsibilidade não há contrato; sem contrato, não há emprego.
A
Associação Brasileira de Eventos, ABRAFESTA, não defende imobilismo. O setor
entende que a melhoria das condições de trabalho deve ser uma prioridade
permanente. No entanto, transformar esse objetivo em política pública exige
responsabilidade e visão de longo prazo. Se o propósito é melhorar a vida do
trabalhador, o caminho não pode ser a criação de regras que, na prática,
reduzam o emprego formal e ampliem a informalidade.
O
debate sobre jornada precisa considerar a diversidade da economia brasileira.
Setores com operação contínua, atividades baseadas em projetos e serviços que
dependem de datas específicas exigem soluções regulatórias diferentes. É
fundamental que qualquer mudança seja construída com diálogo, transição gradual
e segurança jurídica. Além disso, a valorização da negociação coletiva pode
oferecer instrumentos mais adequados para equilibrar proteção ao trabalhador e
viabilidade operacional.
O
Brasil precisa de políticas que ampliem oportunidades e fortaleçam o trabalho
formal, não de medidas que gerem efeitos colaterais indesejados. Ajustes na
legislação trabalhista devem sempre buscar o equilíbrio entre competitividade,
geração de emprego e qualidade de vida. Quando esse equilíbrio é perdido, quem
paga a conta não é apenas o empresário. É a família do trabalhador.
Ricardo Dias - presidente da Associação Brasileira de Eventos
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