Marcos Gouvêa de
Souza, fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem
O Brasil vive simultaneamente o menor desemprego da
série histórica e um varejo com crescimento real negativo. Essa conta não
fecha. E foi isso, mais do que qualquer hype tecnológico, que a NRF 2026
permitiu a quem quis e se propôs a olhar e repensar nossa realidade, comparada
com um cenário mais global.
E isso nada tem a ver com mais IA no varejo.
Definitivamente, não.
Tem a ver com uma reflexão mais profunda e
necessária sobre nosso momento e nossas perspectivas, depois de tudo o que foi
visto, discutido, promovido e debatido, envolvendo os diferentes canais,
segmentos, categorias, modelos de negócio e de gestão do varejo, do consumo e
dos serviços.
É um chamamento às lideranças do comércio e do
varejo, setores que são os maiores empregadores privados do País e estão
pressionados como poucas vezes em sua história, com desempenho real de vendas
negativo em 2025 em relação ao ano anterior e a perspectiva de que esse cenário
se repita neste ano.
Os fatos demonstram com clareza que algo não fecha
nessa equação envolvendo o Brasil real, aquele que reúne 97% da população que
não se beneficia da ciranda financeira do País, que tem 9,2% de taxa real de
juros, a segunda maior do mundo, inferior apenas à da Rússia.
Temos hoje perto de 78 milhões de pessoas com um
nível sem precedentes de endividamento, segundo dados do Serasa, com
crescimento de 22% pelos mesmos critérios, na comparação com 2019. E parte
delas paga juros nominais de mais de 400% ao ano quando parcela no cartão de
crédito.
Sem contar que a parcela de cerca de 50 milhões de
brasileiros dependentes do Bolsa Família e os 92 milhões socorridos por algum
programa assistencial.
A equação não fecha
Pelas estatísticas oficiais, o Brasil registra o
menor nível de desemprego desde que o índice começou a ser calculado, em 2012,
ao atingir 5,1% em dezembro, considerando apenas as pessoas que estão
procurando emprego pelos critérios da Pnad Contínua. Ao mesmo tempo,
beneficiários do programa Bolsa Família não podem ser contratados formalmente,
sob pena de perder o benefício, com raríssimas exceções, que começam agora a
ser consideradas.
O resultado é uma consistente falta de gente,
especialmente nos segmentos de menor poder aquisitivo para o trabalho formal,
ao mesmo tempo que aumenta a informalidade, contribuindo para a redução
estatística do desemprego.
Ao mesmo tempo, temos um recorde no indicador de
massa salarial, com evolução em termos reais, que atingiu R$ 367,6 bilhões em
dezembro, um aumento de 6,4% sobre o mesmo período do ano anterior.
Há perspectiva de continuidade desse crescimento.
Porém, o varejo do Brasil, pelos dados oficiais, deve fechar 2025 com evolução
real negativa de desempenho e vendas, quando deflacionadas pela inflação média
ponderada das diversas categorias de produtos.
Esses dados já estão configurados por outros
institutos, entidades, associações e indicadores setoriais ou gerais, com
exceção apenas de poucas categorias, segmentos e no canal e-commerce. Na média
geral, a evolução real será negativa.
Contribuem para essa situação o mencionado
endividamento, as taxas de juros, a menor confiança do consumidor e o desvio de
renda para as bets, que sugam parte importante da renda para o jogo travestido
de entretenimento.
A perspectiva é de mais do mesmo.
Para 2026, o cenário já está contratado: estímulos,
mais benefícios, muita comunicação diversionista, reajustes e correções de
salários no setor público e tudo o que for necessário para viabilizar um
cenário de ilusão, com vistas à próxima eleição.
Já é sabido que haverá redução do desemprego, nos
critérios em que é apurado, e aumento da massa salarial, estimulada pelo
autoemprego, pela informalidade e pelos salários no setor público. E o
endividamento da população vai aumentar ainda mais, com reflexos na
inadimplência.
Na prática, cria-se renda no curto prazo, mas se
destrói capacidade de consumo sustentável nos médio e longo prazos. São
estímulos que adiam os problemas e aprofundam distorções.
A perspectiva já está definida, com a possibilidade
de novo desempenho real negativo do varejo para 2026, com concentração das
vendas em segmentos e setores ligados a valor, pressionando a rentabilidade, e
com as mesmas exceções nos canais digitais e em algumas poucas categorias
ligadas à saúde e aos cuidados pessoais.
No topo da pirâmide vive-se outro mundo.
De outro lado, entre aqueles que se beneficiam da
remuneração das aplicações financeiras, vive-se uma realidade absolutamente
diversa.
As estatísticas mostram crescimento superior a 20%
em diversos setores ligados ao luxo e em tudo o que envolve os segmentos de
alta renda.
O Brasil afluente está diametralmente distante do
Brasil real. O paradoxo é que o Brasil afluente tem consciência da distorção e
da perspectiva de agravamento, mas, diante dos ganhos e benesses de curto
prazo, se deixa envolver por essa realidade distorcida.
Trata-se do mesmo comportamento dos que só miram o
resultado da próxima eleição como sua maior ambição. Nunca o Brasil foi tão
desigual, não apenas em renda e acesso, mas também na percepção da realidade.
Não basta discutir. É preciso agir!
Após todas as reflexões precipitadas pelos
comparativos e análises da realidade internacional, amplamente discutidas no
contexto de pós-NRF, e diante de uma visão crítica sobre a evidente distorção
que vivemos em nosso ambiente, é importante ter consciência da ilusão vivida.
Mas não basta ter consciência da distorção. É
preciso mobilizar, discutir, propor e agir para tentar corrigir. Trata-se de
uma questão que deveria transcender segmentações, categorias, canais e modelos
de negócio, especialmente no comércio, varejo e serviços pessoais, sem qualquer
viés político-partidário. O tema é a nação.
Agir significa ter a coragem de pautar o tema em
cada possível oportunidade, em cada encontro ou reflexão estratégica, e
mobilizar-se para interferir na construção do futuro, pelo caminho da
legalidade, quando, nas próximas eleições, forem definidas as opções.
Os danos da inércia e da complacência podem ser ainda maiores do que já está sinalizado.
Marcos Gouvêa de Souza - fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem
https://gouveaecosystem.com
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