Recentemente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou novas diretrizes para cuidados com a obesidade infantil. A entidade recomenda que crianças com menos de 10 anos não devem tomar medicamentos contra o excesso de peso, injeções como as canetas emagrecedoras e nem ser submetidas a cirurgias bariátricas. Para essa faixa etária, a recomendação é alimentação saudável, atividade física e acompanhamento comportamental. O tema ganha os holofotes no momento que, de acordo com dados do Unicef, a obesidade supera o baixo peso como o problema mais comum de nutrição entre crianças em idade escolar e adolescentes em todo o mundo.
Embora o avanço da medicina tenha trazido recursos adicionais para o tratamento da obesidade, quando falamos de criança, o assunto se torna mais complexo. Antes de se debater a adoção de exercícios ou intervenções medicamentosas, é preciso tratar o núcleo onde essa criança se insere, assim como a causa da obesidade. Primeiramente, é contraditório exigir hábitos saudáveis de um menor quando o exemplo cotidiano caminha na direção oposta. A influência do comportamento parental fala mais alto.
Se os responsáveis não compreendem o processo nutricional, se consomem alimentos altamente calóricos e prazerosos à vista da criança ou não assumem o controle rigoroso da rotina até que haja maturidade emocional suficiente por parte do jovem, qualquer tentativa de emagrecimento isolada tende ao fracasso. Parece óbvio, mas passa despercebida por muitas famílias: a mudança precisa começar pelos adultos.
Mas, o exemplo de casa não é o único fator determinante. Há, ainda, barreiras estruturais significativas para que a inserção da criança em programas de exercício físico. Ainda nos dias de hoje, o modelo tradicional de atividades esportivas infantis, muitas vezes coletivas, misturadas e altamente competitivas, pode gerar um efeito reverso e traumático.
Para crianças obesas, o obstáculo é ainda maior. Elas costumam ser imediatistas e lidam mal com a frustração constante de não acompanharem o ritmo dos colegas magros. Se forem submetidas a ambientes onde são avaliadas, medidas ou julgadas o tempo todo, a tendência é o desenvolvimento de vergonha, baixa autoestima e a desistência precoce de uma vida ativa.
Para
que a atividade física seja eficiente, estimulante e prazerosa, os espaços e as
metodologias de práticas de atividade física precisam ser igualmente seguros,
estimulantes e divertidos. É preciso, também, quebrar tabus: nem toda criança
obesa gosta de correr ou praticar esportes convencionais. Atividades
alternativas, como o treinamento de força adaptado ou modalidades focadas no
que a criança realmente aprecia são caminhos mais assertivos para resgatar o
prazer pelo movimento sem ferir o emocional infantil. Descobrir e aflorar
gostos traz resultados mais duradouros do que incentivar repetições de
movimentos que aquela criança não se sente bem em fazer.
Agora, quanto ao uso de terapias farmacológicas, não se pode descartá-las definitivamente. Se de um lado, não é correto generalizar seu uso, renunciar ao suporte individualizado do medicamento pode representar um erro a depender do caso. Em cenários extremos, onde uma criança de pouca idade apresenta um quadro severo de sobrepeso a ponto de comprometer a mobilidade e impedir qualquer adesão inicial a programas de exercício, o suporte medicamentoso pode atuar como um recurso de transição. Sob estrita supervisão médica, pode funcionar como um ponto de partida para estabilizar o peso, devolvendo à criança condições mínimas para, posteriormente, ingressar com segurança em uma rotina de hábitos ativos.
Já crianças com sobrepeso moderado podem ser direcionadas diretamente a programas de reeducação comportamental e física, desde que o ambiente seja acolhedor e livre de pressões punitivas, tendo os pais ou os adultos de casa como bons exemplos, pessoas inspiradoras.
A
obesidade infantil é um tema que preocupa e que deve despertar em todos um
olhar efetivamente atento. Novas diretrizes são bem-vindas e cada avanço rumo
ao enfrentamento merece ser destacado. Agora, o verdadeiro combate exige
desconstruir a culpa simplista e encarar o problema de forma sistêmica: com
responsabilização e engajamento da família, remodelação dos espaços de atividade
física para proteger a saúde mental dos pequenos e avaliação com cautela e
critério médico para cada intervenção clínica necessária.
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