A inteligência artificial já faz parte do presente
e terá um papel central no futuro do trabalho. Sua capacidade de organizar
informações, explorar alternativas e acelerar análises oferece recursos
extraordinários aos profissionais. Aproveitar esse potencial faz sentido. O
desafio é garantir que o pensamento crítico continue no centro do trabalho,
orientando o uso da tecnologia e as decisões tomadas com seu apoio.
Em poucos segundos, ferramentas de IA generativa
ajudam a redigir comunicados, resumir documentos, estruturar apresentações e
examinar problemas sob diferentes perspectivas. Essa agilidade pode liberar
tempo para atividades que exigem atenção, experiência e conhecimento do
negócio. Para transformar velocidade em qualidade, porém, é preciso compreender
o que foi produzido e avaliar se a resposta atende à situação concreta.
Esse cuidado se torna especialmente relevante
quando recebemos uma análise clara, convincente e bem organizada. A qualidade
da apresentação pode facilitar sua aceitação, mesmo quando faltam informações
ou alguma premissa merece ser revista. Uma resposta pode parecer completa sem
considerar tudo o que importa para aquela decisão.
Uma pesquisa apresentada na conferência CHI 2025,
por pesquisadores da Carnegie Mellon University e da Microsoft Research, ouviu
319 profissionais e reuniu 936 exemplos de uso de IA no trabalho. Maior
confiança na ferramenta esteve associada a menor exercício de pensamento
crítico relatado pelos participantes; maior confiança na própria capacidade
esteve associada a mais pensamento crítico. Por se basear em autorrelatos, o
estudo não demonstra que a IA cause perda de capacidade intelectual. Seus
resultados ajudam a discutir como avaliamos as respostas que recebemos.¹
Existe uma diferença entre receber uma boa análise
e desenvolver a capacidade de produzir uma boa análise. Um profissional pode
recorrer à IA para comparar soluções, identificar riscos e construir uma
recomendação. Esse apoio ganha valor quando ele examina as alternativas,
verifica as informações relevantes e consegue explicar por que a conclusão faz
sentido. Se apenas reproduz o resultado, perde uma oportunidade de exercitar o
próprio julgamento.
No ambiente empresarial, esse julgamento é
indispensável. Decisões envolvem informações incompletas, relações entre
pessoas, limitações operacionais e particularidades que nem sempre estão
disponíveis para a ferramenta. Uma proposta tecnicamente coerente pode ser
inadequada ao momento da organização. Cabe ao profissional reconhecer essas
condições e assumir a responsabilidade pela escolha.
Por isso, saber formular bons comandos é apenas
parte da competência necessária. Também precisamos perguntar: quais premissas
sustentam esta resposta? As fontes são confiáveis? Que informações estão
ausentes? Existe outra interpretação possível? O cuidado deve acompanhar a
importância da tarefa: uma sugestão de redação e uma decisão estratégica exigem
níveis diferentes de verificação.
Para as áreas de treinamento e desenvolvimento,
isso representa uma oportunidade. A formação em IA deve combinar domínio das
ferramentas com conhecimento do negócio, avaliação de evidências e prática de
tomada de decisão. Exercícios em que os profissionais comparam uma resposta
gerada pela tecnologia com sua própria análise, identificam limitações e
justificam suas escolhas podem ajudar a desenvolver essa combinação.
A própria IA pode apoiar esse aprendizado. Podemos
pedir que apresente objeções a uma proposta, explore cenários alternativos ou
aponte questões que merecem investigação. Usada dessa maneira, ela amplia as
possibilidades de reflexão. O tempo economizado na execução pode ser
reinvestido na compreensão do problema e na avaliação das soluções.
Acredito que o maior valor da inteligência artificial está nessa parceria: a tecnologia oferece agilidade e recursos; as pessoas dão direção ao trabalho, interpretam o contexto e respondem pelas decisões. Quanto mais incorporamos a IA à rotina, mais precisamos preservar o hábito de questionar, compreender e julgar. Saber obter boas respostas é valioso. Saber avaliá-las continua sendo essencial.
Ricardo Hilgenberg - consultor e especialista em aprendizagem e desenvolvimento corporativo, com experiência internacional e foco na integração entre tecnologia, capacitação de equipes e necessidades do negócio.
¹ Lee, H.-P. et al. (2025). The Impact of Generative AI on Critical Thinking: Self-Reported Reductions in Cognitive Effort and Confidence Effects From a Survey of Knowledge Workers. CHI 2025. https://doi.org/10.1145/3706598.3713778
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