Formação online é voltada principalmente aos mais de 400 mil Agentes Comunitários de Saúde e Agentes de Combate às Endemias que atuam nas 5.570 cidades brasileiras, mas é gratuita e aberta a qualquer interessado; iniciativa também prevê ações presenciais em cinco estados
Mais de 400 mil Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e
Agentes de Combate às Endemias (ACE) atuam diariamente nos 5.570
municípios brasileiros, mantendo contato direto com famílias e
comunidades. É para fortalecer essa atuação diante das dúvidas, receios e
informações falsas sobre vacinas que o Projeto CASA dos Agentes disponibiliza
gratuitamente o curso online Hesitação Vacinal e Comunicação. Embora
ACS e ACE sejam o público prioritário, a formação é aberta a
qualquer pessoa interessada e busca ampliar a capacidade de
reconhecer os diferentes motivos que levam alguém a adiar ou recusar uma vacina
e de estabelecer um diálogo qualificado sobre o tema. O lançamento do curso,
disponível em https://acasadosagentes.org.br/cursos/hesitacao-vacinal-e-comunicacao/
se dá em alusão ao Dia Nacional da Vacinação, celebrado em 17 de outubro.
A necessidade de preparar quem está na linha de
frente aparece também em dados científicos. Estudo
publicado em 2025 na revista Epidemiologia e Serviços de Saúde,
do SUS, avaliou 349 trabalhadores de 73 unidades de atenção
primária de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul e identificou
hesitação vacinal em 32,7% dos participantes. Entre os
profissionais hesitantes, 64,9% disseram que esse comportamento surgiu
somente depois do início da pandemia de covid-19.
Os números revelam ainda uma aparente contradição.
Quase todos os profissionais entrevistados, 99,7%,
afirmaram acreditar que as vacinas protegem adultos e crianças contra doenças
graves. Ao mesmo tempo, cerca de um terço apresentou algum grau de hesitação. O
estudo encontrou menor hesitação entre médicos e enfermeiros e maior frequência
entre agentes comunitários, profissionais que mantêm contato próximo e contínuo
com a população.
É nesse ponto que o curso pretende atuar.
Disponível na plataforma A CASA – Comunidade de práticas, conexão, formação
e informação do Agente Comunitário de Saúde e Agente de Combate às Endemias,
a formação trabalha não apenas informações sobre vacinação, mas estratégias
para lidar com situações concretas encontradas nos territórios.
De acordo com Thiago Trapé, presidente do Instituto
de Pesquisa e Apoio ao Desenvolvimento Social (IPADS), um dos responsáveis pelo
projeto, a proximidade dos agentes com as famílias torna essa preparação
especialmente importante. “O agente comunitário e o agente de combate às
endemias conhecem o território, entram nas casas, conversam com as famílias e
muitas vezes são uma das principais referências do SUS para aquela população. O
Projeto CASA, que conta com apoio da Fundação Johnson&Johnson, busca
fortalecer esses profissionais para que se sintam mais preparados para ouvir
uma dúvida, compreender de onde ela vem e estabelecer uma conversa qualificada
sobre vacinação”, afirma.
Da dúvida à orientação
Hesitação vacinal não significa necessariamente ser
contrário às vacinas. O conceito inclui situações de dúvida, atraso ou recusa e
pode variar conforme a vacina, o momento e o contexto. Uma pessoa pode temer
eventos adversos, ter recebido uma informação falsa, considerar determinada
doença pouco perigosa ou encontrar dificuldades concretas para chegar ao
serviço de saúde.
Essas diferenças são importantes porque exigem
abordagens distintas. A hesitação pode estar relacionada à confiança na segurança
e na eficácia das vacinas e nas instituições responsáveis por recomendá-las; à
conveniência, que inclui as condições de acesso; à percepção do risco
representado pelas doenças; ao contexto social e cultural; e à maneira como
informações verdadeiras ou falsas chegam à população.
A Organização Mundial da Saúde já tratava o
fenômeno como um problema relevante antes da pandemia e, em 2019, incluiu a
hesitação vacinal entre dez ameaças à saúde global. A pandemia de Covid-19
intensificou a circulação de informações sobre saúde e tornou ainda mais
evidente a necessidade de profissionais preparados para responder às dúvidas da
população.
No estudo realizado em Campo Grande, 86% dos
trabalhadores disseram ter recebido informações negativas sobre vacinas.
Entre os que tiveram contato com esse tipo de conteúdo, 95,3% se vacinaram
mesmo assim. Em 64% dos casos, a exposição às informações negativas ocorreu
exclusivamente depois do início da pandemia. Outro dado reforça a dimensão do
problema dentro dos próprios serviços: 67,3% dos entrevistados conheciam outros
trabalhadores de saúde hesitantes em receber vacinas oferecidas pelo SUS,
enquanto 64,5% conheciam profissionais hesitantes em recomendar a vacinação.
Comunicação como parte da
formação
O curso do Projeto CASA foi estruturado para levar
essas questões a situações encontradas no cotidiano. Com duração aproximada de
duas horas, reúne cinco lições e um questionário, além de conteúdo
complementar. Entre os temas estão comunicação durante a visita domiciliar, quatro
passos para conversar sobre vacinação, exemplos de frases para abordar pessoas
com hesitação vacinal e perguntas e respostas para apoiar os profissionais.
A escolha desse enfoque também encontra respaldo nos resultados da pesquisa com trabalhadores da atenção primária. Embora 75,9% tenham afirmado se sentir preparados para orientar os pacientes, a principal fragilidade apontada foi oferecer informações específicas sobre as vacinas, mencionada por 62,9% dos participantes. Outros 40% indicaram dificuldades relacionadas às informações sobre os esquemas de vacinação. A falta de treinamento foi citada por 58,9% como uma barreira para orientar a população.
O estudo também encontrou associação entre
orientação institucional e menor hesitação. Trabalhadores que receberam
orientação da instituição para se vacinar apresentaram menor ocorrência de
hesitação, assim como aqueles que reconheciam que esse comportamento poderia
prejudicar a cobertura vacinal no território.
A proposta do curso, portanto, é trabalhar a comunicação
como parte da resposta à hesitação. Em vez de oferecer uma única resposta para
todas as situações, a formação aborda a escuta das preocupações, a
identificação dos motivos da dúvida e o compartilhamento de informações seguras
em linguagem clara e respeitosa. “Não se trata de entregar ao agente um
conjunto de respostas prontas. Queremos oferecer conhecimento e ferramentas
para uma conversa que acontece no mundo real, com pessoas que têm histórias,
dúvidas e experiências diferentes. O CASA foi pensado como um espaço de
conexão, aprendizado, aprimoramento e troca, com uma estrutura construída para
oferecer acolhimento e apoio aos profissionais que estão diariamente nos
territórios”, diz Trapé.
Coberturas ainda abaixo das
metas
O desafio da hesitação ocorre em um cenário no qual
diferentes vacinas ainda apresentam coberturas abaixo das metas estabelecidas.
Dados do Ministério da Saúde atualizados em 30 de setembro de 2026 mostram,
entre crianças menores de 1 ano, cobertura de 87,62% para poliomielite
e 87,12% para pentavalente, ambas com meta de 95%. A
pneumocócica conjugada aparece com 90,16%, a meningocócica conjugada
com 89% e a febre amarela com 77,65%.
A diferença também aparece nas doses posteriores.
Aos 12 meses, a cobertura indicada é de 92,76% para a primeira dose da tríplice viral,
mas cai para 77,12% na segunda dose. A varicela aparece com 78,89%.
Aos 4 anos, os percentuais apresentados são de 80,04% para o segundo reforço
da DTP, 77,61% para a segunda dose contra varicela
e 74,73% para o reforço contra febre amarela.
As coberturas insuficientes não podem ser
atribuídas a uma única causa. A disponibilidade de vacinas, a organização dos
serviços, os horários de atendimento, a facilidade de acesso, a percepção de
risco e a confiança da população podem influenciar a decisão de se vacinar. A
hesitação é uma dessas dimensões e exige compreender o motivo que está levando
determinada pessoa ou família a adiar ou recusar a imunização.
Ações em cinco estados
Além da formação online, o Projeto CASA prevê
atividades presenciais no Rio Grande do Norte, Bahia, Paraíba, Pernambuco e
Rio de Janeiro. A proposta é levar a discussão aos territórios
e permitir que experiências encontradas pelos profissionais sejam incorporadas
ao processo de formação. A atuação presencial parte do princípio de que as
razões para a hesitação não se manifestam da mesma maneira em todas as
comunidades. Em determinado local, a dificuldade pode estar mais relacionada ao
acesso ao serviço; em outro, à circulação de informações falsas ou ao receio de
eventos adversos. Conhecer essas particularidades permite qualificar a
abordagem dos profissionais.
O projeto reúne o Instituto de Pesquisa e Apoio
ao Desenvolvimento Social (IPADS) e a Confederação
Nacional dos Agentes Comunitários de Saúde e de Combate às Endemias (CONACS).
O IPADS atua no desenvolvimento e na avaliação de políticas, programas e
projetos sociais, enquanto a CONACS, criada em 1996, representa nacionalmente
ACS e ACE e reúne entidades das duas categorias.
Ao colocar a comunicação sobre vacinação entre os
temas de formação de profissionais presentes em todos os municípios
brasileiros, o Projeto CASA busca aproveitar uma característica própria da
atuação de ACS e ACE: a possibilidade de identificar dúvidas e barreiras no
local onde elas surgem, durante o acompanhamento cotidiano das famílias.
O curso Hesitação Vacinal e Comunicação é gratuito, não é restrito a ACS e ACE e está disponível na plataforma A Casa dos Agentes
Sobre A CASA – Construída em 2022 para abrigar os profissionais que atuam como Agente Comunitário de Saúde (ACS) e Agentes de Combate às Endemias (ACE), protagonistas da promoção da atenção primária à saúde no país. A CASA é uma realização do IPADS em parceria com o CONASEMS, CONACS e a Fundação Johnson & Johnson. É uma comunidade de práticas, conexão, formação e informação com o objetivo de fortalecer a vigilância ativa, apoiar o diagnóstico precoce e aprimorar a orientação às famílias.
Sobre o IPADS - O Instituto de Pesquisa e Apoio ao Desenvolvimento Social é uma organização sem fins lucrativos, que atua na perspectiva de contribuir com o desenvolvimento social e com a melhoria da qualidade de vida da população, apoiando a formulação, implantação e avaliação de políticas, programas e projetos. O trabalho do Instituto é caracterizado pela interdisciplinaridade, principalmente pela atuação conjunta de seus associados que buscam uma abordagem integral das necessidades do cidadão.


Nenhum comentário:
Postar um comentário