Caso da atriz trouxe atenção para as mutações BRCA;
especialista reforçam que avaliação individualizada pode indicar diferentes
estratégias de acompanhamento e redução de risco
O
caso de Angelina Jolie mudou a forma como muitas pessoas passaram a falar sobre
prevenção do câncer de mama. Em 2013, a atriz revelou ter realizado uma
mastectomia bilateral preventiva após descobrir uma mutação no gene BRCA1 e ter
histórico familiar da doença. Mais de uma década depois, o episódio continua
sendo uma referência para discutir um tema que ganha espaço durante o Outubro
Rosa: como identificar e acompanhar pessoas que apresentam risco elevado por
fatores genéticos.
A
estimativa mais recente do Instituto Nacional de Câncer (INCA) aponta que o
Brasil terá 78.610 novos casos de câncer de mama feminina por ano no triênio
2026-2028, o equivalente a um risco estimado de 71,57 casos
para cada 100 mil mulheres. Sem considerar os tumores de pele não melanoma, a
doença é o câncer mais incidente entre as mulheres brasileiras.
Embora
a maior parte dos casos não esteja relacionada a uma alteração genética
hereditária conhecida, algumas mutações podem elevar significativamente o
risco. Segundo o National Cancer Institute (NCI), mais de 60% das mulheres que
herdam uma alteração prejudicial nos genes BRCA1 ou BRCA2 desenvolverão câncer
de mama ao longo da vida, enquanto o risco na população feminina geral é de
aproximadamente 13%.
É
nesse contexto que a história de Angelina Jolie ganhou repercussão. A decisão
da atriz não deve ser interpretada como uma recomendação geral para mulheres
com histórico familiar de câncer. A identificação de uma mutação ou de um
histórico familiar importante exige avaliação individual, que pode envolver
aconselhamento genético, testes específicos, acompanhamento mais frequente e,
em determinados casos, medidas preventivas.
"Ter
uma predisposição genética não significa que a pessoa necessariamente
desenvolverá câncer, mas muda a forma como esse risco precisa ser acompanhado.
O primeiro passo é entender o histórico familiar e, quando houver indicação,
realizar uma avaliação genética adequada. A partir daí, é possível discutir
estratégias de rastreamento e prevenção individualizadas", explica Dr.
Adriano Meira Oliveira, médico mastologista CRM-SC 20363 e RQE 18678, parceiro
da PinkMed.
Entre
as possibilidades para pessoas consideradas de alto risco estão protocolos de
rastreamento mais intensivos. A American College of Obstetricians and
Gynecologists (ACOG) indica que mulheres com mutações BRCA podem realizar
acompanhamento clínico periódico e, dependendo da idade, ressonância magnética
e mamografia anual.
Em
situações específicas, também pode ser considerada a cirurgia redutora de
risco. De acordo com o NCI, a mastectomia bilateral redutora de risco pode
diminuir em pelo menos 95% o risco de câncer de mama em mulheres com variantes
patogênicas nos genes BRCA1 ou BRCA2. A decisão, porém, envolve benefícios,
limitações e possíveis impactos físicos e emocionais e deve ser tomada
individualmente com uma equipe médica.
"Quando
existe uma alteração genética associada a um risco elevado, prevenção não
significa necessariamente cirurgia. Existem diferentes estratégias e a escolha
depende da mutação identificada, do histórico pessoal e familiar, da idade e dos
planos de vida de cada paciente. Por isso, o acompanhamento especializado é
fundamental para que a decisão seja baseada em risco real e não apenas em
medo", afirma Dr. Adriano Meira Oliveira.
Durante
o Outubro Rosa, a discussão sobre genética ajuda a ampliar o debate para além
do diagnóstico precoce. Conhecer o histórico familiar, reconhecer padrões de
câncer de mama e ovário na família e buscar orientação médica quando há sinais de
possível predisposição podem contribuir para identificar mulheres que precisam
de uma estratégia de acompanhamento diferente da população de risco habitual.
O
caso de Angelina Jolie ajudou a popularizar essa conversa, mas a principal
mensagem para pacientes com histórico familiar ou suspeita de predisposição
genética é que não existe uma única conduta preventiva.
A avaliação individual é o que permite definir quando investigar, como
acompanhar e quais medidas podem fazer sentido em cada caso.
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