Sócio-fundador
da FM2S, Virgilio Marques dos Santos recomenda três regras simples para impedir
que material vazio circule entre colegas
O workslop é o material gerado por inteligência artificial que parece pronto mas não tem conteúdo útil, e o termo foi cunhado por pesquisadores de Stanford. Para Virgilio Marques dos Santos, sócio-fundador da FM2S, PhD pela Unicamp e gestor de carreiras, ele repete no escritório o defeito mais antigo da fábrica. Entram nessa conta relatórios de 20 páginas que não respondem à pergunta, e-mails impecáveis que nada dizem e apresentações que, lidas com atenção, obrigam o destinatário a fazer o trabalho que o remetente fingiu ter feito.
"Quem trabalha com Lean conhece esse problema desde os anos 1950 pelo nome de retrabalho. A peça defeituosa que o posto anterior deixou passar não desaparece. Ela segue pela linha, e o custo do conserto cresce a cada estação que atravessa", afirma Santos. "O workslop é esse defeito em versão digital: informação ruim, polida pela máquina e empurrada para o colega do lado".
O especialista aponta a velocidade como a principal diferença em relação ao chão de fábrica. "O torno antigo produzia uma peça ruim por vez. A inteligência artificial produz relatório ruim em escala industrial, com acabamento de relatório bom. No defeito, o acabamento é agravante, porque atrasa a detecção", explica.
O custo já foi medido. Em pesquisa publicada na Harvard Business Review, a BetterUp Labs e o Stanford Social Media Lab mostraram que 4 em cada 10 profissionais americanos haviam recebido workslop no mês anterior e que cada caso consome quase duas horas de quem recebe, o que soma mais de US$ 9 milhões por ano em produtividade perdida numa empresa de 10 mil funcionários. O estudo também identificou um dano nas relações: cerca de metade de quem recebe workslop passa a ver o remetente como menos criativo, capaz e confiável. "A ferramenta que prometia fazer qualquer um parecer mais competente, usada sem critério, produz o efeito inverso. Ela corrói a reputação de quem a usa mal e a confiança dentro da equipe", avalia.
Para reverter o quadro, Santos recorre a uma prática da indústria japonesa com mais de um século. É o jidoka, um dos pilares do Sistema Toyota de Produção, que nasceu num tear de 1896 capaz de parar sozinho quando o fio arrebentava, para não tecer metros de pano defeituoso. "O princípio cabe numa frase: ninguém passa defeito adiante. Detectou, parou e resolveu na origem, porque o defeito que viaja custa 10, 100 vezes mais do que o interceptado onde nasceu", resume.
No escritório, ele traduz o princípio em três regras que qualquer equipe pode combinar de imediato:
1- Quem gera com IA responde pelo que gerou. "O nome que assina o documento é o controle de qualidade dele. Culpar a ferramenta tem o mesmo valor que o operador culpar o torno."
2- Nenhum material segue adiante sem leitura de quem envia. "O remetente precisa ler com a mesma atenção que espera do destinatário. Quem não gastou 10 minutos lendo não pode cobrar que o colega gaste duas horas decifrando."
3- A equipe tem o direito de devolver. Assim como o operador aciona o andon, o sinal que para a linha de produção, quem recebe um documento vazio deve poder devolvê-lo na hora, sem constrangimento, com a pergunta: "o que exatamente você quer que eu faça com isto?"
Santos considera a terceira regra a mais difícil de implementar, por depender da cultura da empresa. "Empresa em que devolver trabalho ruim soa como indelicadeza vira, muito rápido, empresa em que todo mundo finge que leu o que ninguém escreveu", alerta.
Para o especialista, o tema tem peso especial no Brasil, país que há décadas não consegue elevar a produtividade da hora trabalhada. "A inteligência artificial é a alavanca que esperávamos. Mas alavanca amplifica o que encontra: método vira método mais rápido, e desleixo vira desleixo em escala. O país que adotar a ferramenta sem adotar o critério vai automatizar a própria enrolação", pondera.
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