A Odontologia nunca teve tanta tecnologia à disposição. Implantes, scanners intraorais, planejamento digital, novos materiais e procedimentos capazes de reconstruir ou transformar sorrisos fazem parte de uma realidade que, há poucas décadas, parecia distante. Somos capazes de substituir dentes, reproduzir estruturas com precisão e planejar tratamentos com recursos cada vez mais sofisticados.
Diante de tantos avanços, uma pergunta permanece incômoda: por que ainda perdemos dentes em 2026?
Cárie e doença periodontal continuam entre os principais problemas de saúde bucal. São doenças multifatoriais, influenciadas por diferentes condições individuais e sociais, mas o controle do biofilme e os hábitos cotidianos têm papel fundamental na prevenção. E boa parte desse cuidado começa com recursos que estão longe de ser sofisticados: escova de dentes, dentifrício fluoretado e higiene interdental.
Talvez um dos grandes desafios da Odontologia contemporânea esteja justamente nesse paradoxo. Saber que é preciso escovar os dentes não significa, necessariamente, transformar conhecimento em hábito. No trabalho cotidiano com saúde pública, aprendemos que promover saúde vai muito além de transmitir informação. É preciso orientar, ensinar, repetir, acompanhar e criar condições para que o autocuidado seja incorporado à rotina, especialmente desde a infância.
Há uma contradição que merece reflexão. As pessoas se interessam pelas tecnologias capazes de transformar ou substituir dentes, mas nem sempre dedicam a mesma atenção aos hábitos simples que podem preservá-los. Uma nova técnica estética, um implante ou um procedimento restaurador desperta curiosidade. Uma orientação sobre higiene bucal, muitas vezes, passa despercebida.
Os números ajudam a dimensionar o tamanho do desafio. Segundo os dados do SB Brasil, o índice ceo-d aos 5 anos passou de 2,43, em 2010, para 2,14, em 2023. Houve melhora, mas a cárie continua presente já nos primeiros anos de vida. Em 2023, 53,17% das crianças de 5 anos estavam livres de cárie. Isso significa, por outro lado, que quase metade ainda apresentava experiência da doença nessa idade.
Esses números não são apenas estatísticas. Eles representam crianças que começam a vida convivendo com uma doença que pode ser prevenida e controlada. E ajudam a mostrar que o debate sobre saúde bucal não pode se limitar ao consultório ou ao tratamento de quem já apresenta sintomas.
É justamente
nesse ponto que a saúde pública assume papel fundamental. Se queremos que uma
geração chegue à vida adulta e envelheça preservando seus dentes, não podemos
esperar a dor aparecer, o dente precisar de tratamento ou a situação chegar ao
ponto em que a única discussão possível seja como substituí-lo.
A prevenção precisa começar muito antes.
Um exemplo é a fluoretação das águas de abastecimento público, reconhecida como estratégia coletiva de prevenção da cárie. O fluoreto também está presente nos dentifrícios, que integram o cuidado diário e constituem uma das ferramentas mais simples e acessíveis de proteção contra a doença.
Outro espaço fundamental são as escolas. Por meio do Programa Saúde na Escola, o Sistema Único de Saúde consegue levar ações de promoção da saúde bucal a crianças e adolescentes, trabalhando orientação, prevenção e construção de hábitos em uma fase decisiva da vida.
Essa é uma das grandes diferenças quando pensamos em saúde pública: não é preciso atuar somente sobre quem já procura atendimento. É possível alcançar populações inteiras antes que a doença se instale ou se agrave. A lógica ultrapassa as paredes do consultório e leva a Odontologia para escolas, famílias e comunidades.
Também precisamos abandonar a ideia de que perder dentes é uma consequência inevitável do envelhecimento. Envelhecer não significa necessariamente perder dentes. A Odontologia contemporânea dispõe de conhecimento e recursos para prevenir e controlar doenças, preservar estruturas dentárias e manter a saúde bucal por muitos anos.
Isso não significa minimizar a importância da tecnologia. Ao contrário. Implantes, materiais restauradores, ferramentas digitais e novas técnicas representam conquistas importantes e ampliam as possibilidades de tratamento e reabilitação. Mas tecnologia não deveria ser sinônimo de substituição. O verdadeiro progresso também está em reduzir a necessidade de chegar a esse ponto.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja apenas qual será a próxima tecnologia capaz de substituir um dente perdido.
Precisamos perguntar o que ainda falta fazer para que esse dente não seja perdido.
Se queremos reduzir a cárie e, no futuro, a necessidade de restaurações, tratamentos mais complexos e extrações, precisamos investir não apenas no que fazemos depois que a doença aparece, mas principalmente no que fazemos antes dela começar.
Isso passa pela casa, pela família, pela escola, pelo acesso ao flúor, pela educação em saúde e por políticas públicas de prevenção capazes de alcançar milhões de brasileiros. Passa também pela valorização dos profissionais que atuam na atenção básica e pela capacidade de transformar conhecimento científico em práticas simples, contínuas e incorporadas ao cotidiano.
Em uma época em que somos capazes de fazer tanto depois que um dente é perdido, talvez um dos maiores avanços da Odontologia seja justamente evitar que ele precise ser perdido.
O
futuro da Odontologia não está apenas em saber substituir dentes. Está,
principalmente, em conseguir preservá-los.
Karina Carrascoza - professora, especialista em concursos de Odontologia e sócia da OdontoQuiz, referência nacional em preparação para concursos de Odontologia. Mestre em Farmacologia, Anestesiologia e Terapêutica (UNICAMP).Doutora em Saúde da Criança e do Adolescente (UNICAMP). Especialista em Endodontia (APCD). Especialista em Gestão Pública em Saúde (UNICAMP). Servidora Pública: 6 convocações em concursos públicos de odontologia.
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