Levantamento mostra que 65% dos profissionais associam rotinas sem automação ao aumento de estresse, sobrecarga e tarefas repetitivas; setor de licitações ilustra o peso da pressão por monitoramento constante
A
discussão sobre o impacto da tecnologia na saúde mental dos trabalhadores
ganhou um novo capítulo: longe de apenas substituir tarefas, a automação tem se
consolidado como uma ferramenta útil para reduzir a ansiedade, a pressão diária
e o esgotamento profissional em setores hiperoperacionais.
Um dos
exemplos mais claros desse cenário ocorre no setor de compras públicas e
licitações: um mercado que movimentou R$135,39 bilhões em contratos somente
pelo Governo Federal em 2025, marcado por prazos rígidos, alta responsabilidade
e monitoramento ininterrupto.
“Já teria
infartado antes dos 40.” A frase foi a resposta de um profissional de
licitações quando perguntado sobre como seria sua rotina caso não tivesse
acesso à tecnologia que utiliza atualmente. Embora hiperbólica, ela chama atenção
para um aspecto que se repete em diversas áreas da economia: a sobrecarga
invisível de quem precisa lidar com rotinas manuais e repetitivas.
Um
levantamento feito pela Effecti com 528 clientes ajuda a dimensionar essa
rotina e ilustra como a transformação digital impacta diretamente o bem-estar
das equipes. Entre os participantes, 343, ou 65%, disseram que, sem a
plataforma utilizada atualmente, teriam mais trabalho, gastariam mais tempo nas
atividades ou precisariam voltar a executar processos manualmente.
Uma rotina
de monitoramento constante
Para esses
profissionais, trabalhar manualmente não significa apenas levar mais tempo para
concluir uma tarefa. As respostas mencionam a necessidade de acessar diferentes
portais, acompanhar movimentações, organizar oportunidades em planilhas,
cadastrar informações e conferir documentos ao longo do dia.
Um dos
participantes disse que teria de fazer “tudo manual, abrindo vários portais”.
Outro descreveu uma rotina “muito mais operacional, repetitiva e suscetível a
erros”, na qual horas seriam consumidas pelo monitoramento de editais e pela
conferência de documentos. Segundo ele, o espaço para atividades estratégicas
seria “praticamente inexistente”.
A
dificuldade de acompanhar tantas informações apareceu em 204 respostas, ou
38,6% da amostra. Nesse grupo, os participantes mencionaram problemas
relacionados à centralização, busca, monitoramento ou acompanhamento de
oportunidades caso não contassem com os recursos tecnológicos atuais.
“Durante
muito tempo, trabalhar com licitações significou estar permanentemente atento a
vários portais, prazos e movimentações ao mesmo tempo. Quando parte desse
acompanhamento deixa de depender exclusivamente de uma pessoa, muda não só a
produtividade da operação, mas a própria rotina de quem está na ponta”, afirma
Alan Conti, CEO da Effecti.
O limite
de quantas disputas cabem em uma rotina
As
respostas também mostram que o impacto do trabalho manual poderia chegar ao
número de licitações das quais uma empresa consegue participar.
Em 79
relatos, equivalentes a 15% da base, os participantes disseram que teriam de
reduzir a quantidade de processos acompanhados, perderiam oportunidades ou não
conseguiriam sustentar o volume atual.
“Faria bem
menos processos por ter uma equipe mais limitada”, afirmou um deles. Outros
disseram que seria difícil ou inviável participar do mesmo número de disputas
caso o acompanhamento dependesse principalmente da execução manual.
“Existe um
limite para quanto volume uma pessoa consegue absorver sem que isso se
transforme em mais horas de trabalho, mais pressão e maior risco de alguma
informação passar despercebida. A automação muda essa equação porque permite
ampliar a operação sem exigir que a carga manual cresça na mesma proporção”,
diz Conti.
O peso de
não deixar nada passar
Além do
volume de trabalho, 33 participantes, ou 6,2% da base, mencionaram
espontaneamente outro fator: o risco de cometer erros, perder prazos, deixar
movimentações sem acompanhamento ou sofrer uma desclassificação.
“Eu
dependeria da checagem constante de portais, do controle de prazos em planilhas
e de procedimentos menos integrados”, relatou um dos participantes. Segundo
ele, esse modelo aumentaria o risco de perder oportunidades importantes ou
cometer falhas durante o processo.
O
percentual é menor do que o observado nas respostas sobre trabalho manual e
monitoramento, mas acrescenta um componente à pressão da atividade. Em uma
licitação, não basta realizar várias tarefas ao mesmo tempo. Parte delas
precisa ser executada dentro de horários, prazos e regras determinados, o que
torna a atenção um recurso central para quem trabalha na área.
A
combinação de volume e responsabilidade aparece de diferentes maneiras ao longo
do levantamento: mais tarefas manuais, necessidade de acompanhar vários
ambientes, menos capacidade para assumir novos processos e receio de que alguma
informação seja perdida no caminho.
“Tecnologia
não deveria servir para fazer uma pessoa trabalhar mais rápido durante mais
horas. O ganho mais relevante acontece quando tarefas repetitivas e de
monitoramento deixam de ocupar o profissional o tempo inteiro. Isso devolve
espaço para análise, decisão e, principalmente, para uma rotina de trabalho
mais sustentável”, conclui Conti.
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