Especialista da FEBRASGO explica o que considerar na escolha do método contraceptivo26 de setembro – Dia Mundial da Contracepção
Trombose, ganho de
peso, câncer e infertilidade estão entre os principais receios relacionados aos
anticoncepcionais hormonais. Com a grande quantidade de relatos e informações
sobre o tema que circulam nas redes sociais, também aumentaram as dúvidas entre
as mulheres sobre os efeitos desses métodos no organismo. Mas, afinal, onde
termina o risco real e começa a desinformação?
No Dia Mundial da
Contracepção, a Dra. Ilza
Maria Urbano Monteiro, presidente da Comissão Nacional Especializada em
Anticoncepção da FEBRASGO, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, chama
atenção para a importância de uma escolha contraceptiva baseada em informação,
acompanhamento médico e nas características de cada mulher. “O medo vem
principalmente do desconhecido e da desinformação. Muitas vezes, a informação
que mais chega é que o anticoncepcional causa trombose, aumenta o peso ou está
associado ao câncer. Esses mitos são muito difíceis de derrubar. Métodos
contraceptivos hormonais são considerados seguros e podem trazer benefícios que
muitas vezes são esquecidos”, explica.
Porém, a trombose
é um dos principais exemplos do medo sem informação. Alguns anticoncepcionais,
os chamados combinados, reúnem estrogênio e progestagênio, versões de hormônios
produzidos pelo organismo que, juntos, ajudam a evitar a ovulação e a gravidez.
O estrogênio, porém, pode aumentar a tendência à formação de coágulos no sangue
e, por isso, esses métodos estão associados a um maior risco de
tromboembolismo. Ainda assim, trata-se de um evento raro e cada paciente deve
ser avaliada individualmente.
Segundo a especialista, entre mulheres que não usam hormônios, cerca de 3 a 4 em cada 10 mil podem apresentar trombose ao longo de um ano. Entre usuárias de anticoncepcionais hormonais combinados, o número pode chegar a 16 casos em 10 mil mulheres por ano. Já na gravidez, o risco é maior e pode chegar a 25 a 30 casos em cada 10 mil mulheres por ano. No primeiro mês após o parto, a chance de trombose aumenta ainda mais. “Mas quando colocamos na balança o risco de tomar a pílula e o risco da gravidez, percebemos que o risco de trombose associado à pílula é imensamente menor”, afirma a médica. Vale ressaltar que o risco de trombose associado aos contraceptivos que contêm estrogênio natural é bem menor, e que existem contraceptivos hormonais orais sem estrogênio, que não aumentam o risco desse evento adverso.
O risco também
varia conforme o método. DIUs hormonais e implantes contraceptivos não contêm
estrogênio e, por isso, não apresentam o mesmo aumento do risco de
tromboembolismo associado aos métodos combinados. Já em relação ao câncer de
mama, alguns estudos, de acordo com a médica, apontaram para um pequeno aumento
do risco com o uso de contraceptivos hormonais, mas não foram suficientes para
estabelecer uma relação causal. O fato de uma mulher usar anticoncepcional não
significa que ela terá câncer de mama, ressalta.
Ao mesmo tempo, a
discussão sobre contracepção não deve se limitar aos possíveis riscos. Os
métodos hormonais também podem reduzir sangramento uterino e cólicas menstruais
e estão associados à redução do risco de câncer de ovário e de endométrio. Há
ainda evidências de redução do risco de câncer colorretal em mulheres que
usaram contraceptivos hormonais.
Além de conhecer
os riscos, a mulher precisa saber o que esperar do método contraceptivo e ter
espaço para falar sobre como seu corpo reage a ele durante a consulta. Nem todo
efeito adverso significa um problema grave, mas toda queixa merece ser
considerada pelo especialista. Alterações no padrão de sangramento estão entre
as principais causas de insatisfação no início do uso de métodos que contêm
apenas progestagênio, como alguns tipos de pílula, o implante e o
anticoncepcional injetável trimestral, uma injeção aplicada a cada três meses
que libera o hormônio gradualmente no organismo.
Nos primeiros meses
de uso, esses métodos podem provocar sangramentos irregulares, em geral em
pequena quantidade, por mais dias. Em muitas mulheres, esse padrão melhora com
o tempo. Embora possa ser incômodo, a alteração não significa que o método
esteja fazendo mal à saúde. Com o passar do tempo, esse transtorno se resolve
espontaneamente e a redução do sangramento pode ser um grande benefício,
principalmente para mulheres que apresentam fluxo menstrual intenso, cólicas
importantes ou anemia.
O ganho de
peso é outra questão que aparece com frequência entre as
preocupações das pacientes. Por outro lado, segundo a ginecologista, os estudos
não mostram aumento de peso associado à maioria dos métodos hormonais quando
comparados ao DIU de cobre. Uma exceção é o anticoncepcional injetável
trimestral, que pode provocar ganho de peso importante em parte das mulheres.
“É preciso encorajar a paciente a falar sobre seus incômodos, como o ganho de
peso, a perda de libido e as mudanças de humor”, afirma.
Para quem tem
dificuldade de manter uma rotina de medicação, métodos de longa duração, como
DIUs e implante contraceptivo, podem ser alternativas. A pílula, por exemplo,
precisa ser tomada todos os dias, de preferência no mesmo horário, para ser
eficaz. O aconselhamento contraceptivo, portanto, não deve se resumir à
indicação de um método. A conversa precisa considerar o histórico de saúde, a
rotina, as expectativas e as preferências da mulher, além dos benefícios,
possíveis efeitos e riscos. “O mais importante é que a mulher tenha informação
para sua escolha e seja acompanhada durante o uso”, conclui a médica.
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