Especialista chama atenção para um
aspecto ainda pouco discutido: o impacto de uma morte por suicídio sobre
familiares e pessoas próximas e a importância do cuidado no período de luto
Quando se fala em Setembro Amarelo, a discussão
costuma se concentrar na prevenção do suicídio, na identificação de sinais de
sofrimento e na importância de buscar ajuda. Há, porém, uma parte dessa
conversa que ainda recebe pouca atenção: o que acontece com quem fica depois de
uma morte por suicídio.
Familiares e pessoas próximas podem atravessar um luto
particularmente complexo. Além da saudade, sentimentos como culpa, raiva,
vergonha e impotência podem aparecer acompanhados de perguntas difíceis: “Eu
poderia ter percebido?” “Havia algo que eu poderia ter feito?”
Para a médica Cristiana Altino, olhar para essas
pessoas também precisa fazer parte da prevenção. “Quem fica também precisa ser
cuidado. Uma morte por suicídio pode afetar profundamente as pessoas próximas.
Em alguns casos, esse impacto exige atenção e acompanhamento para que elas
consigam atravessar o luto sem carregar sozinhas sentimentos como culpa e
responsabilidade.”
Esse cuidado pode assumir diferentes formas: acolhimento durante o
luto, acompanhamento psicológico, atenção especial a crianças e adolescentes e
um olhar mais próximo para pessoas que já apresentavam sofrimento emocional ou
histórico de depressão, autolesão ou tentativa de suicídio.
Cristiana também alerta para outra expectativa que costuma pesar
sobre quem perdeu alguém: a ideia de que existe uma forma correta de viver o
luto. “Não existe um roteiro. Podemos chorar e trabalhar, sentir falta e voltar
a rir. Sentir prazer novamente não significa esquecer quem morreu. O vínculo
não desaparece necessariamente; ele encontra outro lugar enquanto a pessoa
reorganiza a própria vida”.
Há ainda outro cuidado importante: impedir que a forma da morte apague toda a história de quem morreu. “Ninguém é apenas a maneira como morreu. O suicídio faz parte da história daquela pessoa, mas não pode ocupar o lugar da história inteira. É importante lembrar quem ela foi, as relações que construiu, o que viveu, o que ensinou e as memórias que deixou”.
Essa mudança de olhar ajuda a deslocar o luto da pergunta permanente sobre o último momento para a compreensão de uma vida inteira. Por isso, ampliar a conversa sobre prevenção ao suicídio também significa olhar para quem permanece. Acolher sem julgamento, reduzir a culpa, criar espaço para falar sobre a perda e perceber quando alguém precisa de ajuda são formas de cuidado que não deveriam se limitar ao mês de setembro.
Cristiana Altino - Médica e especialista em Medicina Nuclear, Cristiana Altino possui 51 anos de experiência na área, com atuação em Medicina Nuclear e terapias teranósticas. É ex-presidente e atual membro do Conselho da Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear (SBMN). Ao longo de sua trajetória, construiu uma carreira dedicada à medicina e ao cuidado em saúde, além de abordar em seus trabalhos temas relacionados ao luto, ao suicídio e aos processos psicológicos envolvidos na experiência da perda.
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