Da escolha da primeira obra às estratégias para melhorar a concentração, saiba como aproveitar ao máximo a experiência de ouvir livros
Os audiolivros podem representar uma alternativa para
incorporar a literatura à rotina. Ao transformar o conteúdo escrito em uma
experiência de escuta, o formato permite acompanhar obras literárias em
diferentes momentos do dia, inclusive durante algumas atividades cotidianas.
Além de dispensar o transporte de um livro físico, especialmente no caso de
obras mais volumosas, o audiolivro pode ser uma opção discreta para momentos
como deslocamentos em transporte público. Para quem ainda não tem o hábito de
ler, pode ser uma forma de começar; para leitores experientes, um incentivo
para diversificar os momentos dedicados aos livros e ampliar o contato com
diferentes conteúdos.
Embora estejam associados principalmente às plataformas digitais,
os audiolivros não são uma novidade. Antes da popularização dos smartphones e
dos serviços de streaming, obras narradas já eram comercializadas em fitas
cassete, CDs e outros suportes físicos. A diferença é que a tecnologia ampliou
significativamente o acesso e a variedade de títulos disponíveis. No mercado
editorial brasileiro, o formato vem ganhando espaço: segundo dados da Pesquisa
Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, dos cerca de 15 mil títulos
digitais lançados em 2024, 21% estavam relacionados a audiolivros, ante 17% no
ano anterior.
O crescimento do formato acontece em um momento em que o país
enfrenta um desafio justamente na formação e na manutenção de leitores. A 6ª
edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil mostrou que a proporção de
brasileiros considerados leitores caiu de 52% em 2019 para 47% em 2024. Nesse
cenário, os audiolivros podem funcionar como mais uma porta de entrada para a
leitura e como uma alternativa para ampliar o contato com os livros.
Para aproveitar todo o potencial do formato, no entanto, é preciso
entender como ouvi-lo de maneira mais confortável e produtiva. Para ajudar
nessa tarefa, professores reúnem, a seguir, dicas que vão desde a escolha do
primeiro título até estratégias para melhorar a concentração, a compreensão e a
retenção do conteúdo.
1. Comece por um livro que desperte interesse
A primeira experiência com um audiolivro pode influenciar a
disposição para continuar utilizando o formato. Por isso, em vez de escolher
uma obra apenas porque ela é famosa, vale começar por um assunto, autor ou
gênero que já desperte curiosidade. O interesse pelo conteúdo ajuda a manter a
atenção e torna mais fácil perceber as características próprias da leitura em
áudio.
Outra estratégia para quem está se adaptando ao formato é escolher
uma obra que já tenha sido lida no formato impresso. Como a história, os
personagens e a estrutura do livro já são conhecidos, o leitor pode se
concentrar mais na experiência de acompanhar a narrativa por meio da voz e do
ritmo da narração.
Aline Souza, bibliotecária do Brazilian
International School, de São Paulo (SP),
explica que a identificação com a obra pode ser especialmente importante
durante o período de adaptação ao formato.
“Quem está começando pode escolher um livro que realmente tenha
vontade de conhecer. Outra possibilidade é revisitar em áudio uma obra que já
leu no papel. Como o conteúdo não é totalmente novo, fica mais fácil se
concentrar na experiência de ouvir e perceber como o formato funciona para cada
pessoa. Depois, com o hábito consolidado, é possível experimentar gêneros e conteúdos
diferentes.”
2. Escolha um narrador que combine com você
No audiolivro, a voz faz parte da experiência. Ritmo, entonação,
pausas e interpretação podem influenciar a maneira como a história é percebida.
Por isso, além de observar título, autor e gênero, o leitor pode ouvir uma
amostra da narração antes de começar a obra e verificar se aquela voz é
agradável e adequada ao seu perfil.
A escolha do narrador também pode ser um atrativo. Há obras
narradas pelos próprios autores, enquanto outras contam com atores, dubladores
ou personalidades conhecidas. A interpretação pode acrescentar ritmo, emoção e
diferentes nuances à experiência, especialmente em obras de ficção e
autobiográficas.
“A voz do narrador passa a fazer parte da experiência de leitura.
Algumas pessoas preferem uma narração mais neutra, enquanto outras gostam de
interpretações mais marcadas. Quando o próprio autor narra sua obra, pode
trazer uma interpretação muito particular para aquilo que escreveu. Já atores e
profissionais da voz podem explorar diferentes personagens, ritmos e emoções”,
acrescenta Aline.
3. Crie uma rotina de escuta
Assim como acontece com a leitura convencional, a
regularidade pode ajudar a transformar o audiolivro em hábito para aumentar o
repertório cultural dos alunos. Uma possibilidade é associar a escuta a
momentos específicos do dia, como o trajeto até o trabalho ou a escola, uma
caminhada ou um período reservado para descanso. A ideia é criar uma rotina
sustentável, sem transformar a quantidade de horas ou de livros concluídos em
uma obrigação.
O formato também pode facilitar a inclusão dos
livros em momentos nos quais transportar uma obra física não seria conveniente.
Em deslocamentos, por exemplo, basta utilizar um celular ou outro dispositivo
compatível com o conteúdo, sem ocupar espaço na bolsa ou na mochila com um
livro impresso.
Janaína Arruda, professora de Língua Portuguesa
da Escola Bilíngue Aubrick, de São Paulo (SP), afirma que não é
necessário ouvir durante horas para criar o hábito. “É mais interessante
estabelecer uma rotina que possa ser mantida, mesmo que sejam 15 ou 20 minutos
por dia. Quando a escuta passa a fazer parte de um momento recorrente da
rotina, fica mais fácil incorporá-la naturalmente ao cotidiano”. O importante é
encontrar situações em que seja possível prestar atenção ao conteúdo sem que
ele se torne apenas um som de fundo. “Mas é sempre importante lembrar que a
leitura é uma habilidade importantíssima e insubstituível, pois ativa a neuroplasticidade
do cérebro, além de estimular a ortografia, a gramática e a pontuação. Dessa
forma, recorrer aos audiobooks deve ser um recurso a mais, quando o tempo é um
problema, mas não substituir a leitura”.
4. Encontre a velocidade adequada
Segundo a educadora da Aubrick, alguns ouvintes
dizem que se adaptam bem a velocidades superiores à reprodução normal, enquanto
outros preferem um ritmo mais lento. É claro que o parâmetro deve ser a
compreensão, no entanto, é preciso saber que a escuta em ritmo acelerado
demanda maior esforço do cérebro para que ele processe a informação em menor
tempo e isso pode prejudicar a retenção do conteúdo.
Assim, opte, na maioria das vezes, pela
velocidade normal, mas caso haja necessidade de variação pense que conceitos
novos, descrições importantes ou passagens mais densas podem exigir um ritmo
menor ou até que o ouvinte volte na passagem. “Se o leitor percebe que chegou
ao fim de um capítulo sem conseguir recuperar as principais informações, é um
sinal de que pode estar ouvindo rápido demais.”, aponta Janaína.
5. Escolha atividades que não disputam sua atenção
Uma das vantagens dos audiolivros é ouvi-los enquanto se realiza
outra atividade. No entanto, isso não significa que qualquer tarefa seja
compatível com a leitura em áudio. Caminhar, organizar a casa ou fazer uma
atividade repetitiva tende a exigir menos atenção cognitiva do que estudar,
trabalhar ou realizar uma tarefa que envolva decisões constantes.
Jacqueline Cappellano, coordenadora da Escola Internacional de Alphaville – EIA, de Barueri (SP), explica que o segredo está em
identificar quando a atividade paralela pode competir com a compreensão. “O
audiolivro permite aproveitar momentos em que o corpo está ocupado, mas a
atenção não está totalmente comprometida. Quando a atividade exige raciocínio,
leitura, tomada de decisões ou acompanhamento de muitas informações, ela pode
disputar recursos com o conteúdo que está sendo ouvido. Nesses casos, é melhor
priorizar a escuta.”
6. Alterne áudio e texto quando necessário
Ouvir e ler não precisam ser experiências excludentes. Para obras
mais complexas, conteúdos de estudo ou livros que apresentam muitos conceitos,
nomes e informações, alternar entre o audiolivro e a versão impressa ou digital
pode ser uma estratégia útil. O leitor pode acompanhar o texto em determinados
trechos e utilizar o áudio em outros momentos, de acordo com a finalidade da
leitura.
Essa combinação também pode ser interessante para quem está
aprendendo outro idioma. Ouvir uma obra na língua original, acompanhando o
texto simultaneamente, permite entrar em contato com pronúncia, entonação,
ritmo e vocabulário dentro de um contexto mais amplo. Para quem ainda está nos
primeiros níveis de aprendizagem, versões bilíngues ou a combinação entre áudio
e texto podem facilitar o acompanhamento.
“Os dois formatos, áudio e texto, podem se complementar. O leitor
pode usar o áudio para acompanhar a narrativa e recorrer ao texto quando
precisar consultar uma informação, voltar a um trecho específico ou compreender
melhor um conceito. O mesmo princípio pode ser aplicado ao aprendizado de idiomas,
porque ouvir e acompanhar a palavra escrita ajuda a estabelecer relações entre
pronúncia, vocabulário e contexto”, diz Jacqueline.
7. Pause, relembre e ouça novamente trechos importantes
Para leitores que já estão habituados ao formato, o passo seguinte
é tornar a escuta mais ativa. Em vez de simplesmente deixar o audiolivro tocar,
é possível fazer pequenas pausas ao final de capítulos ou de trechos
importantes e tentar recuperar mentalmente o que foi ouvido. Quando uma
informação não estiver clara, voltar alguns segundos ou minutos também pode ser
mais eficiente do que seguir adiante sem compreendê-la.
Rafaela Marques, coordenadora bilíngue do Colégio
Progresso Bilíngue, de Campinas (SP),
destaca que a repetição da escuta não deve ser vista como sinal de dificuldade.
“Perder a atenção por alguns instantes é algo que pode acontecer durante
qualquer experiência de leitura. No audiolivro, o leitor tem a possibilidade de
voltar e ouvir novamente. Fazer uma pausa para recuperar as principais ideias
de um trecho também ajuda a verificar se o conteúdo realmente foi
compreendido.”
8. Faça anotações e transforme a escuta em leitura ativa
Para quem utiliza audiolivros com objetivos de estudo ou
aprofundamento, ouvir pode ser apenas a primeira etapa. Anotar ideias,
registrar dúvidas, marcar trechos relevantes ou escrever um pequeno resumo ao
final de cada capítulo são formas de transformar a escuta em uma atividade mais
participativa. O objetivo não é registrar tudo, mas selecionar aquilo que
merece ser retomado.
“A anotação ajuda o leitor a sair de uma posição apenas receptiva.
Ao selecionar uma ideia importante, formular uma dúvida ou resumir o que acabou
de ouvir, ele precisa reorganizar aquela informação com as próprias palavras.
Esse processo favorece a compreensão e ajuda a construir uma relação mais ativa
com o conteúdo”, finaliza Rafaela.
Jacqueline Cappellano - pedagoga, pós-graduada em Bilinguismo e Psicopedagogia coordenadora da Educação Infantil da Escola Internacional de Alphaville. É uma grande entusiasta da Educação Bilíngue e fascinada pelo universo da educação infantil. Enxerga no intercâmbio entre ideias e culturas, um caminho para a paz entre os povos.
Janaina Arruda da Silva - formada em Bacharelado e Licenciatura em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), com Mestrado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). É professora de Língua Portuguesa, Literatura e Redação, com experiência na Educação Básica e no Ensino Superior na Escola Bilíngue Aubrick.
Rafaela Marques - licenciada em Letras e Pedagogia pela Universidade Estadual de Campinas, possui certificação Cambridge de Inglês e cursos de extensão pelo Instituto Singularidades na área da Educação Bilíngue. Atuou como professora na Educação Infantil e no Ensino Fundamental Anos Iniciais no Colégio Progresso Cambuí e como coordenadora da You in School. Atualmente, exerce o cargo de Coordenadora do Bilíngue - Ensino Fundamental Anos Iniciais e Head of Multilingualism do Colégio Progresso Bilíngue Cambuí.
International Schools Partnership – ISP
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