Os hospitais brasileiros ainda enfrentam um ciclo
financeiro pressionado pelo intervalo entre a prestação dos serviços e a
entrada efetiva dos recursos em caixa. Dados do Observatório Anahp 2026 mostram
que a margem EBITDA média dos hospitais associados ficou em aproximadamente 11%
em 2025, enquanto glosas e ciclos prolongados de recebimento continuam afetando
o fluxo de caixa das instituições. O prazo médio de recebimento supera 77 dias.
O
cenário contrasta com a recuperação financeira das fontes pagadoras. As operadoras
de planos médico-hospitalares alcançaram lucro líquido de R$ 10,9 bilhões no
primeiro semestre de 2026, segundo dados da Agência Nacional de Saúde
Suplementar (ANS). A sinistralidade agregada ficou em 81,9%, segundo menor
nível registrado desde 2020.
Na
prática, enquanto aguardam o recebimento pelos serviços prestados, os hospitais
precisam financiar continuamente equipes, medicamentos, equipamentos e toda a
estrutura necessária para manter a operação. Para a ADVISIA Investimentos,
braço de fusões e aquisições do Grupo ADVISIA com atuação na estruturação de
operações de M&A e soluções de capital, esse descasamento torna eficiência
operacional, geração de caixa e capacidade de negociação questões cada vez mais
estratégicas para os prestadores.
“Os
números mostram momentos financeiros diferentes dentro da mesma cadeia. As
operadoras conseguiram recuperar resultados e reduzir a sinistralidade,
enquanto os hospitais ainda convivem com margens mais estreitas e um ciclo
financeiro mais longo. Quando o serviço é prestado hoje, mas o recurso demora
mais de dois meses para efetivamente entrar no caixa, a necessidade de capital
de giro aumenta e a gestão financeira ganha ainda mais importância”, afirma
Laura Rodrigues, VP da ADVISIA Investimentos.
Prazo
de recebimento pressiona capital de giro dos hospitais
O
intervalo entre o atendimento e o pagamento cria uma necessidade permanente de
financiamento da operação hospitalar. Além do prazo de recebimento, glosas
podem postergar ou reduzir os valores inicialmente faturados, aumentando a
pressão sobre o fluxo de caixa.
Esse
cenário ganha relevância diante da própria estrutura de custos de um hospital.
Mesmo enquanto aguarda o pagamento das fontes pagadoras, a instituição precisa
manter sua operação assistencial funcionando, com despesas recorrentes
relacionadas a profissionais, medicamentos, equipamentos e infraestrutura.
“Não é
apenas uma discussão de rentabilidade. Existe uma questão importante de caixa.
Um hospital precisa manter equipes, equipamentos, medicamentos e toda a
estrutura funcionando independentemente do momento em que receberá pelo
atendimento. Quanto mais longo esse ciclo, maior a importância de planejamento
financeiro, eficiência operacional e acesso adequado a capital”, explica Laura.
Enquanto
isso, a recuperação das operadoras ganhou força após anos de maior pressão
sobre a saúde suplementar. A sinistralidade das operadoras médico-hospitalares
chegou a 89,2% em 2022. No primeiro semestre de 2026, além do lucro líquido de
R$ 10,9 bilhões, o resultado operacional agregado alcançou R$ 5,6 bilhões.
Fragmentação
adiciona um desafio à negociação
Além
da pressão sobre o caixa, a estrutura do mercado hospitalar cria diferenças
relevantes de escala entre os participantes da cadeia. Em 2024, o Brasil
contava com cerca de 6,5 mil hospitais gerais e especializados, aproximadamente
60% deles privados, segundo estudo da Moody’s Local baseado em dados do
Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES).
Os
cinco maiores operadores hospitalares privados concentravam conjuntamente entre
15% e 20% dos leitos privados, indicando um mercado com presença relevante de
hospitais independentes e regionais.
Essa
pulverização faz com que prestadores de diferentes portes cheguem às
negociações com as fontes pagadoras com estruturas financeiras e comerciais
bastante distintas. Para hospitais regionais, a relevância assistencial em
determinada localidade não necessariamente se traduz na mesma escala de
negociação de grandes redes.
“Um
hospital regional pode ser extremamente relevante para o atendimento de
determinada população, mas ainda ter uma escala de negociação muito diferente
da fonte pagadora com a qual se relaciona. Por isso, além de discutir
reajustes, o prestador precisa olhar para sua própria eficiência, gestão dos
contratos, capital de giro e capacidade de investimento”, afirma Laura.
Sustentabilidade
financeira também afeta capacidade de investimento
A
combinação entre margens mais estreitas, ciclos prolongados de recebimento e
necessidade constante de capital de giro também influencia a capacidade dos
hospitais de direcionar recursos para expansão, modernização de infraestrutura
e outros investimentos.
Para a
ADVISIA Investimentos, a melhora financeira das operadoras não deve ser interpretada
como uma oposição entre os dois lados da cadeia. A sustentabilidade da saúde
suplementar depende também da capacidade dos prestadores de manter a qualidade
assistencial e financiar suas operações e investimentos.
“Operadoras
precisam de uma rede de prestadores sustentável e hospitais precisam de
relações comerciais que permitam financiar suas operações. O desafio é
encontrar um equilíbrio em que eficiência e sustentabilidade financeira avancem
ao longo de toda a cadeia”, conclui Laura.

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