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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Hospitais levam mais de 77 dias para receber enquanto operadoras lucram R$ 10,9 bi

 Margem EBITDA média dos hospitais ficou próxima de 11%, enquanto glosas e demora nos pagamentos aumentam pressão sobre capital de giro 


Os hospitais brasileiros ainda enfrentam um ciclo financeiro pressionado pelo intervalo entre a prestação dos serviços e a entrada efetiva dos recursos em caixa. Dados do Observatório Anahp 2026 mostram que a margem EBITDA média dos hospitais associados ficou em aproximadamente 11% em 2025, enquanto glosas e ciclos prolongados de recebimento continuam afetando o fluxo de caixa das instituições. O prazo médio de recebimento supera 77 dias. 

O cenário contrasta com a recuperação financeira das fontes pagadoras. As operadoras de planos médico-hospitalares alcançaram lucro líquido de R$ 10,9 bilhões no primeiro semestre de 2026, segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). A sinistralidade agregada ficou em 81,9%, segundo menor nível registrado desde 2020. 

Na prática, enquanto aguardam o recebimento pelos serviços prestados, os hospitais precisam financiar continuamente equipes, medicamentos, equipamentos e toda a estrutura necessária para manter a operação. Para a ADVISIA Investimentos, braço de fusões e aquisições do Grupo ADVISIA com atuação na estruturação de operações de M&A e soluções de capital, esse descasamento torna eficiência operacional, geração de caixa e capacidade de negociação questões cada vez mais estratégicas para os prestadores. 

“Os números mostram momentos financeiros diferentes dentro da mesma cadeia. As operadoras conseguiram recuperar resultados e reduzir a sinistralidade, enquanto os hospitais ainda convivem com margens mais estreitas e um ciclo financeiro mais longo. Quando o serviço é prestado hoje, mas o recurso demora mais de dois meses para efetivamente entrar no caixa, a necessidade de capital de giro aumenta e a gestão financeira ganha ainda mais importância”, afirma Laura Rodrigues, VP da ADVISIA Investimentos.
 

Prazo de recebimento pressiona capital de giro dos hospitais 

O intervalo entre o atendimento e o pagamento cria uma necessidade permanente de financiamento da operação hospitalar. Além do prazo de recebimento, glosas podem postergar ou reduzir os valores inicialmente faturados, aumentando a pressão sobre o fluxo de caixa. 

Esse cenário ganha relevância diante da própria estrutura de custos de um hospital. Mesmo enquanto aguarda o pagamento das fontes pagadoras, a instituição precisa manter sua operação assistencial funcionando, com despesas recorrentes relacionadas a profissionais, medicamentos, equipamentos e infraestrutura. 

“Não é apenas uma discussão de rentabilidade. Existe uma questão importante de caixa. Um hospital precisa manter equipes, equipamentos, medicamentos e toda a estrutura funcionando independentemente do momento em que receberá pelo atendimento. Quanto mais longo esse ciclo, maior a importância de planejamento financeiro, eficiência operacional e acesso adequado a capital”, explica Laura. 

Enquanto isso, a recuperação das operadoras ganhou força após anos de maior pressão sobre a saúde suplementar. A sinistralidade das operadoras médico-hospitalares chegou a 89,2% em 2022. No primeiro semestre de 2026, além do lucro líquido de R$ 10,9 bilhões, o resultado operacional agregado alcançou R$ 5,6 bilhões.
 

Fragmentação adiciona um desafio à negociação 

Além da pressão sobre o caixa, a estrutura do mercado hospitalar cria diferenças relevantes de escala entre os participantes da cadeia. Em 2024, o Brasil contava com cerca de 6,5 mil hospitais gerais e especializados, aproximadamente 60% deles privados, segundo estudo da Moody’s Local baseado em dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES). 

Os cinco maiores operadores hospitalares privados concentravam conjuntamente entre 15% e 20% dos leitos privados, indicando um mercado com presença relevante de hospitais independentes e regionais. 

Essa pulverização faz com que prestadores de diferentes portes cheguem às negociações com as fontes pagadoras com estruturas financeiras e comerciais bastante distintas. Para hospitais regionais, a relevância assistencial em determinada localidade não necessariamente se traduz na mesma escala de negociação de grandes redes. 

“Um hospital regional pode ser extremamente relevante para o atendimento de determinada população, mas ainda ter uma escala de negociação muito diferente da fonte pagadora com a qual se relaciona. Por isso, além de discutir reajustes, o prestador precisa olhar para sua própria eficiência, gestão dos contratos, capital de giro e capacidade de investimento”, afirma Laura.
 

Sustentabilidade financeira também afeta capacidade de investimento 

A combinação entre margens mais estreitas, ciclos prolongados de recebimento e necessidade constante de capital de giro também influencia a capacidade dos hospitais de direcionar recursos para expansão, modernização de infraestrutura e outros investimentos. 

Para a ADVISIA Investimentos, a melhora financeira das operadoras não deve ser interpretada como uma oposição entre os dois lados da cadeia. A sustentabilidade da saúde suplementar depende também da capacidade dos prestadores de manter a qualidade assistencial e financiar suas operações e investimentos. 

“Operadoras precisam de uma rede de prestadores sustentável e hospitais precisam de relações comerciais que permitam financiar suas operações. O desafio é encontrar um equilíbrio em que eficiência e sustentabilidade financeira avancem ao longo de toda a cadeia”, conclui Laura.

 

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