A discussão sobre o futuro dos benefícios
de saúde costuma começar pelo aumento dos custos. Novos tratamentos e uma
demanda crescente por cuidado vêm pressionando empresas globalmente. Mas olhar
apenas para quanto custa oferecer um plano deixa escapar uma questão
importante: o papel que esse benefício desempenha não é o mesmo em todos os
países. O Brasil é um caso particularmente interessante.
O país combina um sistema público universal
com uma saúde suplementar fortemente ligada ao emprego. Segundo a Agência
Nacional de Saúde Suplementar (ANS), os planos de assistência médica somavam
52,9 milhões de vínculos em março de 2026. Desse total, 38,7 milhões estavam em
planos coletivos empresariais, cerca de 73%.
Essa configuração dá ao benefício
empresarial uma relevância particular na jornada de saúde e fica ainda mais
evidente quando o Brasil é comparado a outros mercados. A Organização para a
Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) considera incomum a configuração
do seguro privado de saúde brasileiro. Embora o SUS esteja disponível a toda a
população, quem possui plano privado tende a concentrar nele o uso dos serviços
de saúde.
Em países como Reino Unido, Irlanda, Nova
Zelândia, Itália e Portugal, a dinâmica é diferente. Segundo a OCDE, pessoas
com seguro privado continuam recorrendo de forma geral aos sistemas públicos e
utilizam a cobertura privada em situações específicas, como para obter acesso
mais rápido a determinados diagnósticos ou especialistas. No Reino Unido,
estimativas preliminares do Office for National Statistics (ONS) indicam que o
seguro voluntário respondeu por 2,8% dos gastos totais com saúde em 2025,
enquanto o financiamento governamental representou 81,3%.
Não há um modelo que possa ser simplesmente
transportado de um país para outro. Sistemas de saúde refletem escolhas
econômicas, regulatórias e sociais. A comparação, porém, ajuda a dimensionar o
papel assumido pelas empresas brasileiras.
Essa configuração também muda a forma como
o benefício precisa ser administrado. Quando a cobertura oferecida pelo
empregador ocupa um espaço relevante na jornada de saúde, decisões sobre
desenho do plano, rede de atendimento e acesso ao cuidado ganham maior
importância. Conhecer apenas o custo agregado da carteira não basta. É preciso
entender onde as despesas estão concentradas, quais grupos demandam maior
atenção e como condições crônicas estão sendo acompanhadas.
Prevenção e uso de dados ganham valor nesse
contexto. Um plano abrangente no papel também pode perder valor para o
profissional se o acesso ao cuidado for difícil ou fragmentado. A qualidade do
benefício depende de como a cobertura funciona quando o trabalhador
efetivamente precisa utilizá-la.
A comparação internacional não oferece uma
fórmula pronta, mas ajuda a enxergar uma característica brasileira que muitas
vezes passa despercebida. Por aqui, administrar saúde corporativa significa
gerir um benefício que ocupa um espaço particularmente relevante na vida dos
profissionais. Compreender essa dimensão é fundamental para responder às
necessidades da população coberta e preservar a sustentabilidade dos programas
no longo prazo.
Mark Ramsook -Diretor Global de Serviços da Howden Employee Benefits
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