Segundo o estudo “Messy Desks”, realizado pela Brother, a nova geração enfrenta dificuldades para manter a organização, tanto no espaço físico quanto nas tarefas do dia a dia.
Diante dos modelos híbridos de
trabalho, manter o home office organizado continua sendo um dos desafios
da Geração Z. Segundo o estudo “Messy Desks”, realizado
pela Brother, cerca de 28% dos integrantes da Gen Z descrevem seu espaço de
trabalho em casa como um “caos organizado”.
Amontoando caixas, equipamento de
ginástica e móveis antigos dentro dos quartos, a pesquisa revela que um
quarto da Geração Z afirma estar ‘cercado por tralha’. No entanto, essa
dificuldade para manter a organização – não só do espaço físico, mas das
tarefas cotidianas, pode refletir uma dificuldade que vem desde a infância.
Embora esse “desleixo” seja associado à
falta de interesse ou responsabilidades, a psicopedagoga e educadora
parental Carla Costa explica que é necessário uma investigação à fundo,
desde a infância. “Uma criança, por exemplo, pode saber o que precisa fazer
e, ainda assim, ter dificuldade para iniciar, organizar-se e concluir aquela
tarefa. Muitas vezes, isso é interpretado como preguiça, desinteresse ou falta
de responsabilidade, quando estamos diante de uma habilidade que ainda precisa
ser (e que não foi) desenvolvida”, explica.
No cotidiano, esses comportamentos
chamam a atenção de famílias e educadores, como a necessidade constante de
lembretes, esquecimento de instruções, a perda de materiais, a dificuldade para
cumprir combinados, começar várias atividades sem terminá-las ou organizar uma
sequência de tarefas. Tudo isso, segundo Carla, pode gerar efeitos lá
na frente. Entre adolescentes, essas dificuldades podem aparecer na rotina
de estudos, com trabalhos deixados para a última hora, dificuldade para
estabelecer prioridades, esquecimento de prazos e sensação de sobrecarga diante
de várias demandas.
Esses comportamentos, no entanto, não
significam necessariamente a existência de um transtorno ou diagnóstico. As
funções executivas continuam se desenvolvendo ao longo da infância e da
adolescência, podendo refletir nas dinâmicas do mercado de trabalho. Segundo Carla,
o principal ponto de atenção deve ser a frequência e o impacto dessas
dificuldades na aprendizagem, na convivência familiar, nas relações sociais e
na autonomia.
“É preciso um olhar cuidadoso, mas não
podemos transformar todo comportamento em sintoma. Crianças estão aprendendo a
esperar, planejar, organizar, controlar impulsos e lidar com mudanças. O que
precisamos observar é se aquela dificuldade é persistente e se está causando
prejuízo na vida cotidiana. Antes de perguntar ‘por que ele não faz?’, muitas
vezes precisamos perguntar: ‘o que ele ainda precisa desenvolver para conseguir
fazer sozinho?’”, afirma.
Para a profissional, família e escola
têm papel fundamental nesse desenvolvimento. Em vez de apenas cobrar pela
organização, os adultos podem ensinar estratégias compatíveis com cada faixa
etária, como dividir uma atividade em etapas, utilizar agenda, estabelecer
prioridades, organizar materiais e planejar o tempo; ajudando a construir
“insights” que serão úteis lá na frente. Na infância, o suporte tende a ser
maior e, progressivamente, deve ser reduzido para que a criança assuma
responsabilidades de acordo com seu desenvolvimento.
Atividades simples da rotina também
podem funcionar como oportunidades para exercitar essas habilidades. Guardar os
próprios materiais, organizar a mochila, a mesa, participar da construção dos
horários, esperar a vez em uma brincadeira, cumprir pequenas
responsabilidades e aprender a lidar com mudanças são experiências que
ajudam crianças e adolescentes a praticar organização, controle de impulsos,
flexibilidade e autonomia.
“Quando fazemos tudo pela criança,
podemos reduzir oportunidades importantes para que ela exerça a própria
autonomia. Isso não significa deixar de acolher ou exigir que ela faça sozinha
aquilo que ainda não consegue. Significa oferecer o suporte necessário e, aos
poucos, retirar esse suporte para que ela possa assumir responsabilidades
compatíveis com seu desenvolvimento. As funções executivas não são apenas
ferramentas para melhorar as notas: são habilidades que preparam a criança e o
adolescente para lidar com as demandas da vida profissional”, conclui.

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