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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Cerca de 28% da Geração Z descrevem seu home office como um “caos organizado”; fenômeno tem raízes na infância, aponta especialista

Segundo o estudo “Messy Desks”, realizado pela Brother, a nova geração enfrenta dificuldades para manter a organização, tanto no espaço físico quanto nas tarefas do dia a dia.

 

Diante dos modelos híbridos de trabalho, manter o home office organizado continua sendo um dos desafios da Geração Z. Segundo o estudo “Messy Desks”, realizado pela Brother, cerca de 28% dos integrantes da Gen Z descrevem seu espaço de trabalho em casa como um “caos organizado”.

Amontoando caixas, equipamento de ginástica e móveis antigos dentro dos quartos, a pesquisa revela que um quarto da Geração Z afirma estar ‘cercado por tralha’. No entanto, essa dificuldade para manter a organização – não só do espaço físico, mas das tarefas cotidianas, pode refletir uma dificuldade que vem desde a infância.

Embora esse “desleixo” seja associado à falta de interesse ou responsabilidades, a psicopedagoga e educadora parental Carla Costa explica que é necessário uma investigação à fundo, desde a infância. “Uma criança, por exemplo, pode saber o que precisa fazer e, ainda assim, ter dificuldade para iniciar, organizar-se e concluir aquela tarefa. Muitas vezes, isso é interpretado como preguiça, desinteresse ou falta de responsabilidade, quando estamos diante de uma habilidade que ainda precisa ser (e que não foi) desenvolvida”, explica.

No cotidiano, esses comportamentos chamam a atenção de famílias e educadores, como a necessidade constante de lembretes, esquecimento de instruções, a perda de materiais, a dificuldade para cumprir combinados, começar várias atividades sem terminá-las ou organizar uma sequência de tarefas. Tudo isso, segundo Carla, pode gerar efeitos lá na frente. Entre adolescentes, essas dificuldades podem aparecer na rotina de estudos, com trabalhos deixados para a última hora, dificuldade para estabelecer prioridades, esquecimento de prazos e sensação de sobrecarga diante de várias demandas.

Esses comportamentos, no entanto, não significam necessariamente a existência de um transtorno ou diagnóstico. As funções executivas continuam se desenvolvendo ao longo da infância e da adolescência, podendo refletir nas dinâmicas do mercado de trabalho. Segundo Carla, o principal ponto de atenção deve ser a frequência e o impacto dessas dificuldades na aprendizagem, na convivência familiar, nas relações sociais e na autonomia.

“É preciso um olhar cuidadoso, mas não podemos transformar todo comportamento em sintoma. Crianças estão aprendendo a esperar, planejar, organizar, controlar impulsos e lidar com mudanças. O que precisamos observar é se aquela dificuldade é persistente e se está causando prejuízo na vida cotidiana. Antes de perguntar ‘por que ele não faz?’, muitas vezes precisamos perguntar: ‘o que ele ainda precisa desenvolver para conseguir fazer sozinho?’”, afirma.

Para a profissional, família e escola têm papel fundamental nesse desenvolvimento. Em vez de apenas cobrar pela organização, os adultos podem ensinar estratégias compatíveis com cada faixa etária, como dividir uma atividade em etapas, utilizar agenda, estabelecer prioridades, organizar materiais e planejar o tempo; ajudando a construir “insights” que serão úteis lá na frente. Na infância, o suporte tende a ser maior e, progressivamente, deve ser reduzido para que a criança assuma responsabilidades de acordo com seu desenvolvimento.

Atividades simples da rotina também podem funcionar como oportunidades para exercitar essas habilidades. Guardar os próprios materiais, organizar a mochila, a mesa, participar da construção dos horários, esperar a vez em uma brincadeira, cumprir pequenas responsabilidades e aprender a lidar com mudanças são experiências que ajudam crianças e adolescentes a praticar organização, controle de impulsos, flexibilidade e autonomia.

“Quando fazemos tudo pela criança, podemos reduzir oportunidades importantes para que ela exerça a própria autonomia. Isso não significa deixar de acolher ou exigir que ela faça sozinha aquilo que ainda não consegue. Significa oferecer o suporte necessário e, aos poucos, retirar esse suporte para que ela possa assumir responsabilidades compatíveis com seu desenvolvimento. As funções executivas não são apenas ferramentas para melhorar as notas: são habilidades que preparam a criança e o adolescente para lidar com as demandas da vida profissional”, conclui.

 

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