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| Nas simulações computacionais, o uso do silêncio neuronal como biomarcador para intervenções anticonvulsivas promoveu redução de até 93% na duração das crises Shutterstock |
Estudo comprova que logo antes de uma convulsão há uma pausa prolongada na atividade neuronal. Cientistas propõem intervir com estímulo elétrico nesse exato momento para conter a crise em pacientes resistentes aos medicamentos
Uma equipe internacional de
pesquisadores descobriu que o cérebro apresenta uma pausa prolongada na
atividade neuronal logo antes de uma crise epiléptica. Além de comprovar que
essa “calmaria” funciona como um marcador confiável para prever a ocorrência de
convulsões, o estudo sugere que é possível intervir nesse exato momento,
reduzindo significativamente a duração das crises epilépticas.
A descoberta, divulgada na revista Scientific Reports,
traz novas perspectivas para o tratamento da epilepsia, uma doença neurológica
caracterizada por descargas elétricas anormais e excessivamente sincronizadas
no cérebro, que causam convulsões e podem comprometer funções físicas e
cognitivas. O distúrbio afeta cerca de 52 milhões de pessoas no mundo.
“Esse silenciamento dos
neurônios já havia sido observado em outros estudos, mas pudemos confirmá-lo
tanto em pacientes quanto em modelos computacionais. A partir disso,
conseguimos entender como a dinâmica lenta dos canais de potássio [estruturas
na membrana celular que funcionam como freios para a excitabilidade elétrica do
neurônio] está ligada à sincronização neuronal exacerbada e descrever a
atividade elétrica dos neurônios antes e durante as crises. Com isso, foi
possível explicar como o padrão neural se forma e propor sua utilização como
biomarcador confiável para prever convulsões”, explica Fernando da Silva Borges,
pesquisador colaborador da Universidade Federal do ABC (UFABC) e coautor do
artigo.
Nas simulações computacionais,
o uso do silêncio neuronal como biomarcador para intervenções anticonvulsivas
(como a aplicação do estímulo elétrico) promoveu uma redução de até 93% na
duração das crises, delineando um caminho promissor para terapias de
neuromodulação personalizadas no futuro.
O trabalho envolveu
pesquisadores da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), da Universidade
de São Paulo (USP), da UFABC e da Universidade Estadual de Nova York (Estados
Unidos), com apoio da FAPESP, do
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e dos
Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos.
Nova
abordagem terapêutica
Embora existam mais de 30
medicamentos já aprovados para o tratamento da epilepsia, dados da literatura
científica indicam que entre 30% e 40% dos pacientes não respondem à terapia
farmacológica (epilepsia refratária). Nesses casos, uma das alternativas tem
sido uma técnica conhecida como estimulação cerebral, que consiste em modular
os impulsos elétricos dos neurônios por meio de eletrodos implantados na cabeça
ou em vias nervosas responsáveis por levar os sinais e impulsos elétricos do
corpo em direção ao cérebro e à medula espinhal central (os chamados nervos
aferentes).
Com a descoberta do
silenciamento neuronal que precede a crise convulsiva, os pesquisadores
pretendem unir um tipo de dispositivo e um tratamento já existentes em uma
mesma estratégia e, com isso, prever e intervir antes que a tempestade neuronal
aconteça.
“O silêncio neuronal antecede
de 40 a 160 milissegundos uma crise epiléptica. É um tempo curto, mas suficiente
para interferir de forma automatizada, disparando um estímulo elétrico antes do
início da crise”, explica Borges à Agência FAPESP.
Segundo o pesquisador, já
existem no mercado dispositivos – como o estimulador do nervo vago ou sistemas
de feedback (que “leem” a atividade cerebral em tempo real para disparar
o estímulo) – que monitoram continuamente outros sinais da crise convulsiva.
“No entanto, atualmente, esses equipamentos só conseguem detectar a crise
epiléptica quando ela já começou. Nossa ideia é utilizar esse tipo de
dispositivo para detectar o novo biomarcador e aliar isso ao tratamento de
neuromodulação, que manda sinais para um nervo que estimula o cérebro antes de
a crise ocorrer”, diz.
Por meio de um procedimento
pouco invasivo – a aplicação de uma pequena corrente elétrica –, o equipamento
“acordaria” os neurônios antes da crise. Essa rápida ativação evita que o fluxo
de potássio nas células caia a níveis críticos, impedindo a formação da
tempestade elétrica. O estímulo é altamente focado: ele afeta apenas 1% dos
neurônios responsáveis por excitar a atividade cerebral, o que já se mostrou
suficiente para encurtar drasticamente a duração das convulsões.
“O dispositivo interviria,
portanto, de forma preventiva e automatizada, utilizando a eletricidade para
interromper o processo biológico que leva à crise antes mesmo de ela acontecer.
Isso é um grande ganho, pois sabemos que as convulsões podem desencadear
diversos tipos de sequelas. Evitar que elas ocorram é extremamente positivo
para a saúde e a qualidade de vida dessas pessoas”, afirma Borges.
O artigo Neuronal silence as
a predictive biomarker and target for epileptic seizures suppression pode
ser lido em: nature.com/articles/s41598-026-44063-w.
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/silencio-dos-neuronios-pode-ajudar-a-prever-e-evitar-crises-epilepticas/59227

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