Especialistas explicam por que idade, histórico de saúde, fatores de risco e sintomas ajudam a definir quais acompanhamentos devem fazer parte da rotina
Completar 50 ou 60 anos não significa que, de uma
hora para outra, seja necessário incluir uma lista de novos especialistas na
agenda. Ainda assim, o avanço da idade traz mudanças no organismo e aumenta a
importância de acompanhar aspectos da saúde que podem evoluir mesmo sem
sintomas.
Cardiologista, geriatra, oftalmologista, urologista: afinal, quais
médicos devem fazer parte dessa rotina? A resposta depende menos de uma idade
exata e mais do histórico de saúde, antecedentes familiares, fatores de risco,
sintomas e necessidades de cada pessoa. Nesse processo, o clínico geral pode
ser um dos pontos de partida, acompanhando a saúde de maneira ampla e
identificando quando é necessário recorrer a outras especialidades.
“Não existe uma lista de especialistas que toda pessoa
obrigatoriamente precise procurar ao completar 50 anos. Na consulta clínica,
conseguimos avaliar o paciente de forma global, considerando histórico pessoal
e familiar, medicamentos em uso, hábitos de vida, exames anteriores e eventuais
sintomas. A partir disso, podemos identificar quais acompanhamentos específicos
fazem sentido para aquela pessoa e em qual momento”, explica Dr. Vitor
Mazoco, clínico geral da MedSênior.
E o geriatra? É preciso esperar chegar à terceira idade?
Embora seja frequentemente associado às idades mais avançadas, o
geriatra não atua apenas quando já existem limitações ou múltiplas doenças. A
especialidade acompanha o processo de envelhecimento de maneira abrangente e
pode avaliar questões relacionadas à funcionalidade, cognição, mobilidade,
alimentação, sono, uso de medicamentos e manutenção da autonomia.
Não existe uma idade única para iniciar esse acompanhamento. A
necessidade varia conforme o perfil de saúde e pode surgir, por exemplo, quando
diferentes condições e tratamentos precisam ser avaliados de forma integrada. O
geriatra também não necessariamente substitui outros especialistas: o
acompanhamento ginecológico, por exemplo, continua tendo papel específico na
saúde da mulher, enquanto o geriatra mantém um olhar global sobre o
envelhecimento.
“O mais importante é evitar um cuidado fragmentado, em que cada
doença é vista isoladamente. À medida que diferentes especialistas passam a
participar do acompanhamento, é importante que exista uma visão integrada,
inclusive para avaliar medicamentos, exames e recomendações em conjunto”,
destaca o clínico.
Coração: idade importa, mas os fatores de risco também
A saúde cardiovascular não depende apenas da idade. Segundo a
Sociedade Brasileira de Cardiologia, condições de saúde, hábitos de vida e
histórico familiar estão entre os fatores que podem aumentar o risco de doenças
cardiovasculares.
Por isso, os 50 anos não funcionam como um marco obrigatório para
a primeira consulta com o cardiologista. Pessoas com fatores de risco, doenças
preexistentes ou sintomas podem precisar de avaliação especializada antes, enquanto
aquelas sem essas condições devem seguir o acompanhamento indicado de acordo
com seu perfil de saúde.
“A idade é apenas uma das informações que consideramos na avaliação
cardiovascular. Pressão alta, diabetes, colesterol elevado, tabagismo, excesso
de peso, sedentarismo e histórico familiar podem modificar o risco de cada
pessoa e indicar a necessidade de um acompanhamento mais próximo. O objetivo é
olhar para esse conjunto e não apenas para a data de nascimento”, explica o
cardiologista da MedSênior, Dr. Augusto Neno..
Além da prevenção, alguns sintomas também merecem atenção. Dor ou
desconforto no peito, falta de ar desproporcional ao esforço, palpitações,
tonturas e desmaios são exemplos de manifestações que devem ser avaliadas e não
atribuídas automaticamente ao envelhecimento.
“É comum a pessoa reduzir o ritmo e pensar que determinado cansaço
ou falta de disposição é simplesmente consequência da idade. Nem sempre é.
Mudanças na tolerância ao esforço e sintomas que surgiram recentemente precisam
ser investigados, principalmente quando existem outros fatores de risco
cardiovascular”, acrescenta o médico.
Olhos: por que o acompanhamento ganha importância com a
idade?
A saúde dos olhos é outro aspecto que merece atenção durante o
envelhecimento. Alterações visuais podem acontecer gradualmente e, justamente
por isso, nem sempre são percebidas de imediato.
Um dos exemplos é a catarata, caracterizada pela perda de transparência
do cristalino, a lente natural do olho. Dados reunidos pelo Conselho Brasileiro
de Oftalmologia (CBO), na publicação As Condições de Saúde Ocular no Brasil
2023, ajudam a dimensionar a relação com o envelhecimento: a catarata está
presente em quase metade das pessoas entre 65 e 74 anos e atinge mais de sete
em cada dez após os 75. Entre pessoas com menos de 65 anos, a proporção
estimada é de 17,6%.
“A catarata costuma evoluir progressivamente. A pessoa pode
começar a perceber a visão mais embaçada, maior sensibilidade à luz,
dificuldade para enxergar à noite ou a sensação de que precisa trocar os óculos
com mais frequência. Como algumas mudanças acontecem aos poucos, o
acompanhamento oftalmológico ajuda a identificar alterações antes que elas
tenham um impacto maior na rotina”, explica o oftalmologista da MedSênior,
Dr. Fabiano Cade.
O acompanhamento dos olhos, porém, não se resume à catarata. A
avaliação oftalmológica também permite observar outras alterações que podem se
tornar mais frequentes ou relevantes com o avanço da idade, considerando ainda
fatores individuais, como diabetes, histórico familiar e doenças oculares
preexistentes.
“Enxergar bem tem relação direta com independência e segurança.
Uma dificuldade visual pode interferir na leitura, na direção, na locomoção e
até aumentar a insegurança para realizar atividades cotidianas. Por isso, não
devemos esperar uma perda importante da visão para procurar avaliação”,
acrescenta o oftalmologista.
E os demais especialistas?
Urologista, ginecologista e coloproctologista também podem fazer
parte dos cuidados ao longo do envelhecimento, mas o momento e a frequência das
consultas não devem ser definidos apenas pela idade.
No caso dos homens, a decisão sobre o rastreamento do câncer de
próstata deve ser individualizada e discutida com o profissional de saúde, considerando
benefícios, possíveis riscos e fatores pessoais. O mesmo princípio vale para o
rastreamento do câncer colorretal, que pode envolver diferentes métodos e deve
considerar idade, histórico familiar e condições clínicas.
Para as mulheres, o avanço da idade também não significa abandonar
o acompanhamento ginecológico. Climatério, menopausa, saúde sexual e cuidados
ginecológicos e mamários continuam fazendo parte da atenção à saúde nessa fase
da vida.
Em vez de acumular consultas e exames por conta própria, a
recomendação é organizar o cuidado de acordo com as necessidades individuais e
manter os profissionais que acompanham o paciente informados sobre
diagnósticos, tratamentos e medicamentos prescritos por outras especialidades.
“Depois dos 50, o cuidado não precisa necessariamente envolver mais médicos, mas deve ser cada vez mais individualizado e integrado. O acompanhamento adequado é aquele que identifica riscos, antecipa problemas quando possível e direciona o paciente ao especialista certo quando existe indicação, sem transformar o envelhecimento em uma sequência de exames e consultas desnecessárias”, conclui o clínico geral.
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