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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Fim da escala 6x1 exige que empresas repensem a gestão

 

A discussão sobre o fim da escala 6x1 costuma ser resumida a uma pergunta: quanto vai custar para as empresas trabalhar menos horas? A questão, porém, é mais complexa. O principal desafio não será apenas absorver uma eventual elevação da folha de pagamento, mas reorganizar o trabalho para que uma jornada menor não resulte automaticamente em perda de produtividade ou de capacidade operacional.

 

Esse é um problema para o qual boa parte das empresas ainda não está preparada.

 

Pesquisa da Carreira Muller com 486 companhias mostra que 90,13% esperam ser impactadas pela PEC 221/2019. Mais de 72% têm atualmente funcionários submetidos à escala 6x1 e 72,83% consideram que o impacto da mudança será alto ou muito alto. O aumento dos custos trabalhistas aparece como principal preocupação, citado por 82,96% das empresas. Logo depois vem a necessidade de adequação de escalas e turnos, apontada por 77,63%.

 

Os números mostram que não estamos diante apenas de uma questão de folha de pagamento. Estamos diante de uma possível mudança na arquitetura das operações.

 

É relativamente simples calcular o custo adicional de algumas horas. Muito mais difícil é responder como uma fábrica, um centro de distribuição, uma operação de atendimento ou uma empresa que funciona 24 horas por dia manterá a mesma cobertura com uma jornada menor. 

 

Em alguns casos, será necessário contratar mais pessoas. Em outros, será possível reorganizar turnos, rever processos, utilizar tecnologia ou aumentar a produtividade. A resposta dependerá do modelo de cada negócio.

 

Por isso, uma empresa não deveria começar esse processo perguntando quantas pessoas terá de contratar. Deveria perguntar quanto trabalho precisa ser realizado, quantas pessoas são necessárias em cada horário e quanto da capacidade atual é efetivamente produtiva.

 

Existem operações com processos desenhados há anos, jornadas sobrepostas, horas extras recorrentes e estruturas de turnos que foram sendo adaptadas sem uma revisão completa. Uma eventual redução da jornada pode tornar visíveis ineficiências que hoje ficam diluídas no funcionamento cotidiano.

 

O problema é que muitas companhias ainda estão esperando a definição legislativa para começar a olhar para essas questões. É compreensível não implementar mudanças antes de conhecer a regra definitiva. Mas existe uma diferença importante entre implementar e se preparar.

 

Uma empresa pode não alterar sua jornada hoje e, ainda assim, começar a construir cenários. Pode simular diferentes escalas, calcular impactos na folha, identificar funções críticas, avaliar a necessidade de novas posições e medir o potencial de produtividade de processos que poderiam ser automatizados ou redesenhados.

 

Os dados da pesquisa mostram por que essa preparação é necessária. Apenas 3,42% das empresas se consideram totalmente preparadas para uma eventual mudança. Metade está no nível intermediário de preparação e 25,11% se colocam nos dois níveis mais baixos. Além disso, 43,84% ainda não definiram quando começariam a implementar mudanças.

 

O desafio pode ser ainda maior para pequenas e médias empresas. Muitas não possuem estruturas de recursos humanos, planejamento ou inteligência de dados capazes de analisar rapidamente jornada, custos, legislação, produtividade e dimensionamento de equipes. Temos recebido contatos de empresas de diferentes regiões do país justamente porque elas precisam acelerar esse diagnóstico.

 

Nesse cenário, contratar mais pessoas pode ser parte da solução, mas não necessariamente deve ser o primeiro movimento. Antes disso, será preciso entender onde estão os gargalos e onde existe espaço para ganho de eficiência.

 

A discussão sobre produtividade ganhará importância se a jornada efetivamente diminuir. Empresas que hoje conseguem compensar processos ineficientes com mais horas de trabalho poderão precisar encontrar outras formas de produzir o mesmo resultado. Automação, tecnologia, redesenho de processos e melhor distribuição das equipes tendem a ganhar espaço nessa equação.

 

Ainda há, contudo, uma distância entre reconhecer essa necessidade e agir. Quase 48% das empresas pesquisadas não planejam nenhuma ação estrutural para compensar uma eventual redução das horas trabalhadas. Entre as que estudam mudanças, cerca de um terço considera redesenhar processos e percentual semelhante avalia automação e aumento de produtividade.

 

O RH terá papel central nesse processo, mas não poderá conduzi-lo isoladamente. Em 56,62% das empresas pesquisadas, a área lidera as discussões sobre a adequação à possível nova jornada. A partir daí, será necessário integrar RH, operações, finanças, tecnologia e liderança empresarial. Também será importante antecipar o diálogo com sindicatos, já que mais da metade das empresas ainda não iniciou negociações, embora esteja avaliando o tema.

 

Começar a se preparar não significa assumir que a PEC será aprovada exatamente como está. O processo legislativo ainda pode alterar o texto e o cronograma. Significa reconhecer que mudanças de grande alcance não deveriam pegar as empresas no improviso.

 

O debate sobre o fim da escala 6x1 não deveria ser reduzido, portanto, a uma disputa entre custo empresarial e redução da jornada. Existe uma terceira variável nessa equação: produtividade.

 

Se a jornada mudar, será preciso repensar a forma como o trabalho é organizado. Algumas empresas precisarão contratar. Outras poderão reorganizar turnos. Algumas terão espaço para automatizar processos. Outras precisarão rever contratos, estruturas e formas de gestão. Não haverá uma solução única. Haverá, sim, uma necessidade comum de planejamento.

 

A eventual mudança da jornada não será apenas uma alteração no calendário de trabalho. Para muitas empresas, poderá significar uma revisão do próprio modelo de operação. E quanto antes esse diagnóstico começar, maior será o tempo disponível para encontrar uma equação que preserve a capacidade de entregar resultados em uma nova realidade de trabalho. 

 


Marco Schanoski - CEO da Carreira Muller

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