A discussão sobre
o fim da escala 6x1 costuma ser resumida a uma pergunta: quanto vai custar para
as empresas trabalhar menos horas? A questão, porém, é mais complexa. O
principal desafio não será apenas absorver uma eventual elevação da folha de
pagamento, mas reorganizar o trabalho para que uma jornada menor não resulte
automaticamente em perda de produtividade ou de capacidade operacional.
Esse é um problema
para o qual boa parte das empresas ainda não está preparada.
Pesquisa da
Carreira Muller com 486 companhias mostra que 90,13% esperam ser impactadas
pela PEC 221/2019. Mais de 72% têm atualmente funcionários submetidos à escala
6x1 e 72,83% consideram que o impacto da mudança será alto ou muito alto. O
aumento dos custos trabalhistas aparece como principal preocupação, citado por
82,96% das empresas. Logo depois vem a necessidade de adequação de escalas e
turnos, apontada por 77,63%.
Os números mostram
que não estamos diante apenas de uma questão de folha de pagamento. Estamos
diante de uma possível mudança na arquitetura das operações.
É relativamente
simples calcular o custo adicional de algumas horas. Muito mais difícil é
responder como uma fábrica, um centro de distribuição, uma operação de
atendimento ou uma empresa que funciona 24 horas por dia manterá a mesma
cobertura com uma jornada menor.
Em alguns casos,
será necessário contratar mais pessoas. Em outros, será possível reorganizar
turnos, rever processos, utilizar tecnologia ou aumentar a produtividade. A
resposta dependerá do modelo de cada negócio.
Por isso, uma empresa não deveria começar esse processo perguntando quantas pessoas terá de contratar. Deveria perguntar quanto trabalho precisa ser realizado, quantas pessoas são necessárias em cada horário e quanto da capacidade atual é efetivamente produtiva.
Existem operações
com processos desenhados há anos, jornadas sobrepostas, horas extras
recorrentes e estruturas de turnos que foram sendo adaptadas sem uma revisão
completa. Uma eventual redução da jornada pode tornar visíveis ineficiências
que hoje ficam diluídas no funcionamento cotidiano.
O problema é que
muitas companhias ainda estão esperando a definição legislativa para começar a
olhar para essas questões. É compreensível não implementar mudanças antes de
conhecer a regra definitiva. Mas existe uma diferença importante entre
implementar e se preparar.
Uma empresa pode
não alterar sua jornada hoje e, ainda assim, começar a construir cenários. Pode
simular diferentes escalas, calcular impactos na folha, identificar funções
críticas, avaliar a necessidade de novas posições e medir o potencial de
produtividade de processos que poderiam ser automatizados ou redesenhados.
Os dados da
pesquisa mostram por que essa preparação é necessária. Apenas 3,42% das
empresas se consideram totalmente preparadas para uma eventual mudança. Metade
está no nível intermediário de preparação e 25,11% se colocam nos dois níveis
mais baixos. Além disso, 43,84% ainda não definiram quando começariam a
implementar mudanças.
O desafio pode ser
ainda maior para pequenas e médias empresas. Muitas não possuem estruturas de
recursos humanos, planejamento ou inteligência de dados capazes de analisar
rapidamente jornada, custos, legislação, produtividade e dimensionamento de
equipes. Temos recebido contatos de empresas de diferentes regiões do país
justamente porque elas precisam acelerar esse diagnóstico.
Nesse cenário,
contratar mais pessoas pode ser parte da solução, mas não necessariamente deve
ser o primeiro movimento. Antes disso, será preciso entender onde estão os
gargalos e onde existe espaço para ganho de eficiência.
A discussão sobre produtividade
ganhará importância se a jornada efetivamente diminuir. Empresas que hoje
conseguem compensar processos ineficientes com mais horas de trabalho poderão
precisar encontrar outras formas de produzir o mesmo resultado. Automação,
tecnologia, redesenho de processos e melhor distribuição das equipes tendem a
ganhar espaço nessa equação.
Ainda há, contudo,
uma distância entre reconhecer essa necessidade e agir. Quase 48% das empresas
pesquisadas não planejam nenhuma ação estrutural para compensar uma eventual
redução das horas trabalhadas. Entre as que estudam mudanças, cerca de um terço
considera redesenhar processos e percentual semelhante avalia automação e
aumento de produtividade.
O RH terá papel
central nesse processo, mas não poderá conduzi-lo isoladamente. Em 56,62% das
empresas pesquisadas, a área lidera as discussões sobre a adequação à possível
nova jornada. A partir daí, será necessário integrar RH, operações, finanças,
tecnologia e liderança empresarial. Também será importante antecipar o diálogo
com sindicatos, já que mais da metade das empresas ainda não iniciou
negociações, embora esteja avaliando o tema.
Começar a se
preparar não significa assumir que a PEC será aprovada exatamente como está. O
processo legislativo ainda pode alterar o texto e o cronograma. Significa
reconhecer que mudanças de grande alcance não deveriam pegar as empresas no
improviso.
O debate sobre o
fim da escala 6x1 não deveria ser reduzido, portanto, a uma disputa entre custo
empresarial e redução da jornada. Existe uma terceira variável nessa equação:
produtividade.
Se a jornada
mudar, será preciso repensar a forma como o trabalho é organizado. Algumas
empresas precisarão contratar. Outras poderão reorganizar turnos. Algumas terão
espaço para automatizar processos. Outras precisarão rever contratos,
estruturas e formas de gestão. Não haverá uma solução única. Haverá, sim, uma
necessidade comum de planejamento.
A eventual mudança
da jornada não será apenas uma alteração no calendário de trabalho. Para muitas
empresas, poderá significar uma revisão do próprio modelo de operação. E quanto
antes esse diagnóstico começar, maior será o tempo disponível para encontrar
uma equação que preserve a capacidade de entregar resultados em uma nova
realidade de trabalho.
Marco Schanoski - CEO da Carreira Muller
Nenhum comentário:
Postar um comentário