Experimento realizado entre
Niterói e o Rio de Janeiro abre caminho para comprovar a preservação do
emaranhamento quântico ao ar livre e estruturar futuras redes de comunicação
ultrasseguras
Pesquisadores da Universidade
Federal Fluminense (UFF) deram um passo importante rumo à comunicação quântica
e à criação de uma internet ultrassegura no futuro. Eles conseguiram gerar
pares de "fótons gêmeos" (partículas de luz) e provaram que eles
mantêm uma forte correlação entre si mesmo após um deles viajar cerca de 7
quilômetros pelo ar, atravessando a Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro.
Enquanto um fóton ficou no laboratório em Niterói, no campus da UFF, seu
“irmão” cruzou a baía até a Urca.
“A comparação entre as duas
detecções mostrou um número de correlações temporais muito superior ao que
poderia ocorrer por acaso”, conta o físico Antonio Zelaquett Khoury,
professor do Instituto de Física (IF) da UFF e coordenador do projeto “Rede Rio Quântica”,
financiado pela FAPESP.
O experimento sugere,
fortemente, que os fótons possam ter sido emaranhados quanticamente e
preservado sua condição de emaranhamento mesmo depois de um membro de cada par
enfrentar a turbulência atmosférica. Se essa hipótese for confirmada, terá sido
dado um importante passo rumo à implantação de um canal de comunicação quântica
em espaço livre.
Vale lembrar que, quando duas
partículas estão emaranhadas, determinadas propriedades de uma e da outra ficam
correlacionadas de tal maneira que o par deve ser descrito como um único
sistema quântico, mesmo que seus componentes sejam separados por grandes
distâncias. Isso pode ser explorado na comunicação quântica para codificar
informações. Por exemplo, distribuindo chaves criptográficas com um nível de
segurança impossível de obter na comunicação clássica: qualquer tentativa de
interceptar e medir os fótons altera as correlações quânticas e pode, em
princípio, denunciar a presença de um intruso.
“A demonstração de que o
emaranhamento sobrevive a quilômetros de propagação pela atmosfera poderá abrir
caminho para a construção de redes quânticas em espaço livre, inclusive aquelas
capazes de conectar estações terrestres a satélites”, afirma Khoury.
A fonte de fótons gêmeos foi
desenvolvida pelo doutorando do IF-UFF André Luiz da Silva Santos Junior,
sob orientação de Khoury. O trabalho conta com financiamento da
FAPESP.
“O resultado decisivo aparece
quando os registros dos dois detectores são comparados. Como um dos fótons é
detectado praticamente junto à fonte e o outro precisa atravessar a baía, há um
pequeno intervalo de cerca de 20 microssegundos entre as duas detecções,
correspondente essencialmente ao tempo de viagem do segundo fóton. É
imediatamente após esse intervalo que aparece um pico pronunciado de
coincidências [provando que os dois equipamentos capturaram o par de gêmeos e
não luzes aleatórias do ambiente]”, conta Santos Junior.
O experimento registrou 7 mil coincidências acumuladas em um intervalo de cinco segundos – um resultado extremamente significativo, considerando-se que a transmissão foi feita na direção horizontal. As perdas de informação em uma transmissão vertical são muito menores, porque, quanto mais distante da superfície, mais rarefeita se torna a atmosfera (ou seja, há menos moléculas de gás, poeira e vapor d'água atuando como “obstáculos” para refletir, desviar ou absorver a luz). Na transmissão horizontal, porém, os fótons precisaram atravessar uma extensa camada de ar, com turbulências e outras fontes de perda.
Nascidos juntos
Fótons são as unidades
elementares de radiação eletromagnética (em termos mais simples: são as
“partículas” fundamentais que compõem a luz visível e outros tipos de
radiação). Recebem o nome de “gêmeos” caso sejam produzidos aos pares,
simultaneamente, no mesmo processo físico. No experimento da UFF, a geração
ocorre quando um laser de comprimento de onda de 405 nanômetros, na faixa
azul-violeta do espectro, incide sobre um cristal óptico não linear.
A não linearidade do cristal é
um dado fundamental do experimento e isso pede uma explicação mais detalhada.
Em materiais comuns, no regime da chamada “óptica linear”, a polarização
elétrica induzida no objeto – isto é, o deslocamento das cargas elétricas
provocado pela luz – varia proporcionalmente ao campo elétrico da própria luz.
Nessas condições, a luz pode mudar de direção, velocidade ou polarização ao
atravessar o material, mas não são geradas, em princípio, novas frequências (ou
seja, se a luz entra azul, ela sai azul, com o mesmo comprimento de onda). Em
certos materiais, porém, essa resposta contém também componentes que dependem
de maneira matematicamente mais complexa do campo elétrico incidente. Quando
esses componentes se tornam relevantes, entra-se no domínio da “óptica não
linear”. Uma de suas consequências é justamente a possibilidade de converter
luz de uma frequência em luz de outras frequências.
É essa propriedade que permite
gerar os fótons gêmeos. No processo utilizado no experimento – chamado de
“conversão paramétrica descendente espontânea” (spontaneous parametric
down-conversion, SPDC) –, um fóton do laser, denominado “fóton de
bombeamento”, é convertido no cristal em dois fótons de menor energia,
convencionalmente chamados de “sinal” e “complementar”. A conservação da
energia exige que a soma das energias dos dois fótons produzidos seja igual à
energia do fóton original (como se eles dividissem entre si a energia do fóton
que os gerou). Ao mesmo tempo, as condições em que a conversão ocorre – em
particular as denominadas “condições de casamento de fase” – estabelecem
relações entre suas frequências, direções de propagação e polarizações. Por
isso, os dois fótons podem nascer com propriedades fortemente correlacionadas.
Dependendo da configuração experimental, o estado quântico produzido pode ser
também emaranhado, de modo que certas propriedades dos dois fótons já não
possam ser descritas independentemente (como se eles compartilhassem uma única
identidade quântica, mesmo se afastando um do outro).
“O cristal utilizado foi
escolhido justamente para aumentar a produção desses pares. A geração é um
processo cumulativo: quanto maior o percurso da luz no material, maior a
probabilidade de ocorrer a conversão. E mais brilhante torna-se a fonte, no
sentido de que mais pares ela gera. A arquitetura com um cristal longo foi
escolhida pelo André [Santos Junior] justamente para maximizar a geração de
pares”, informa Khoury.
Tudo isso foi cuidadosamente
planejado. Porque o diferencial do experimento era sair para o ar livre, fora
das condições protegidas do laboratório. “Para vencer a perda que
inevitavelmente teríamos, precisávamos gerar muitos pares. Assim, pesquisamos
diferentes configurações até chegar à arquitetura utilizada na fonte”, pontua
Santos Junior.
Emaranhamento:
sim ou não?
Há, porém, uma distinção
importante. O fato de dois fótons serem gêmeos não significa automaticamente
que permaneçam emaranhados. O emaranhamento é uma correlação especificamente
quântica, muito mais profunda, na qual determinadas propriedades não podem ser
atribuídas independentemente a cada partícula: elas pertencem ao estado formado
pelo par.
A fonte construída por Santos
Junior foi projetada para produzir fótons emaranhados em sua polarização. A
polarização relaciona-se à orientação espacial da oscilação do campo elétrico
da luz, que pode ser, por exemplo, horizontal ou vertical (imagine uma corda
esticada sendo balançada para cima e para baixo, criando ondas verticais, ou de
um lado para o outro, criando ondas horizontais). Como no emaranhamento os dois
fótons formam um único estado quântico, o par emaranhado pode estar em uma
superposição das possibilidades “horizontal e horizontal” e “vertical e
vertical”, sem que se possa atribuir previamente a cada fóton uma polarização
independente.
“O emaranhamento em polarização
já foi demonstrado quando os dois fótons são medidos localmente, na UFF. O desafio
agora é demonstrar que esse emaranhamento se mantém quando um dos fótons
sobrevoa a Baía de Guanabara”, resume Khoury.
O pesquisador acrescenta que
verificar a correlação, isto é, a condição gemelar dos dois fótons, era o
gargalo maior. E esse gargalo foi ultrapassado, com a detecção dos sinais
coincidentes. “Sem os sinais, não teríamos como testar nada. A partir do
momento em que temos a comprovação de que estamos realmente observando um par
de fótons gêmeos, um detectado na UFF, o outro a 7 quilômetros de distância,
podemos começar a trabalhar na melhoria da qualidade do sinal e buscar a
evidência do emaranhamento.”
Essa ressalva é essencial. O
experimento ainda não demonstrou que os dois fótons permanecem emaranhados
depois da separação por 7 quilômetros. Até agora, demonstrou a produção local
de pares com alto grau de emaranhamento e, separadamente, a detecção remota das
coincidências entre os gêmeos. A próxima etapa será realizar, com os detectores
distantes, as medições de polarização necessárias para verificar se o
emaranhamento se mantém depois de um dos fótons viajar sobre a baía.
Um canal
através da atmosfera
Fazer um único fóton atravessar
quilômetros de atmosfera e chegar ao lugar desejado não é trivial. Muito antes
do experimento com os pares, o grupo estudou o comportamento do canal óptico
entre Niterói e a Urca utilizando luz laser convencional. A turbulência
atmosférica pode alterar fortemente a distribuição espacial do feixe,
deslocá-lo e dificultar sua coleta pelo telescópio receptor. Mas os testes
revelaram também uma característica favorável: a polarização da luz mostrou-se
extremamente resistente à travessia.
“Nos testes realizados por
nosso grupo, diferentes estados de polarização foram transmitidos através da
baía e recuperados com fidelidade superior a 99%. Isso sinalizou para nós que a
polarização era a melhor propriedade para codificar informação nos fótons”,
sublinha Khoury. O resultado é particularmente importante porque é justamente
na polarização que o grupo pretende estabelecer o emaranhamento entre os fótons
separados e, posteriormente, implementar protocolos de comunicação quântica.
O fato de o emaranhamento ainda
não ter sido cabalmente demonstrado pode dar a falsa impressão de que o estudo
esteja em uma fase inicial. Não é assim. Muita estrada já foi percorrida pelo
grupo. O próprio apontamento dos telescópios exigiu o desenvolvimento de um
sistema de estabilização ativa. Pequenas variações mecânicas e térmicas fazem
com que o equipamento se desalinhe lentamente, o que, a uma distância de 7
quilômetros, pode ser suficiente para fazer o feixe deixar de atingir o
receptor. Uma fonte luminosa instalada na extremidade oposta serve como
referência. Uma câmera acompanha sua posição e, quando detecta algum
deslocamento, um programa comanda motores que corrigem automaticamente o
apontamento do telescópio.
Segundo Khoury, a
caracterização da polarização da luz transmitida pelo canal aéreo, assim como o
sistema de estabilização ativa, foram desenvolvidos no IF-UFF pela
pós-doutoranda Amanda Kronhardt Fritsch, bolsista da FAPESP,
e pelo doutorando Marcos Gil de Oliveira, bolsista do Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Além disso, os trabalhos
contaram com as contribuições dos estudantes Altilano Cristino Barbosa,
bolsista de doutorado da
FAPESP, e Iury Prego Grego Correa, bolsista de
iniciação científica.
Também foi necessário sincronizar
com grande precisão os dois lados do experimento. Cada detector produz um sinal
eletrônico quando registra a chegada de um fóton, e o instante dessa detecção
precisa ser marcado com grande precisão. É dessa comparação temporal que emerge
o sinal procurado. Para identificar quais registros feitos em Niterói e na Urca
poderiam corresponder aos integrantes de um mesmo par, era necessário comparar
essas marcações de tempo. Para tal, cada estação contava com um relógio
próprio, sincronizado via GPS. Além disso, a comparação entre os instantes de
detecção requereu o envio de dados de uma estação à outra.
“A taxa de transmissão das
informações pela internet convencional era insuficiente para o registro
adequado das coincidências em tempo real. O problema foi resolvido com a
instalação de um enlace de rádio dedicado entre as duas estações pela empresa
MLS Wireless, cujo CEO, doutor Rogério Passy, foi meu colega de pós-graduação
na PUC-Rio [Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro] nos anos 1990 e
possui longa experiência em comunicação óptica”, conta Khoury. E acrescenta:
“Além da equipe trabalhando na UFF, o professor Rafael Ferreira Pinto do Rego
Barros, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo [IF-USP], tem
colaborado conosco em vários aspectos do enlace aéreo, com discussões e
sugestões para a montagem da fonte de fótons emaranhados, do sistema de
sincronismo dos detectores e do arranjo ótico do enlace”.
Existem fótons provenientes de outras fontes e coincidências que podem acontecer acidentalmente. Mas, quando a fonte de pares é ligada, aparece, no intervalo de tempo esperado, um forte excesso de coincidências. “A figura com o pico é o resultado em si. Era o sinal que estávamos buscando. Por uma feliz coincidência, obtivemos as primeiras detecções no dia 20 de agosto de 2026, exatamente no dia em que a Sociedade Brasileira de Física estava comemorando seu 60º aniversário”, celebra Khoury.
José Tadeu Arantes
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/fotons-gemeos-mantem-correlacao-mesmo-apos-viagem-de-7-km-sobre-a-baia-de-guanabara/59162


Nenhum comentário:
Postar um comentário