Distúrbio neurológico pode provocar vertigem, desequilíbrio e náuseas mesmo sem cefaleia e costuma ser confundido com “labirintite”
Imagine entrar em um supermercado e, de repente, sentir como se o chão estivesse se movimentando. Ou olhar para uma tela e começar a sentir tontura, náusea e desequilíbrio. Agora imagine que tudo isso acontece sem nenhuma dor de cabeça. Para muita gente, sintomas como esses remetem imediatamente à chamada “labirintite”. Mas existe outra possibilidade menos conhecida: a migrânea vestibular, uma condição neurológica que pode provocar crises de tontura e vertigem mesmo quando a dor típica da enxaqueca não aparece.
A condição tem relação com os mecanismos neurológicos envolvidos na enxaqueca, mas, nesse caso, os sintomas relacionados ao equilíbrio e à percepção do movimento ganham destaque. “Na migrânea vestibular, nem todos os episódios precisam ser acompanhados de dor de cabeça. Alguns pacientes nunca chegam a apresentar dor simultaneamente à tontura, tendo apenas um histórico de enxaqueca clássica no passado”, explica a otorrinolaringologista Dra. Milena Quadros, especialista em otoneurologia e eletrofisiologia do Hospital Paulista.
As crises podem
durar de alguns minutos a dias e não necessariamente apresentam os mesmos
sintomas em todas as pessoas. Além da sensação de movimento ou instabilidade,
alguns pacientes relatam desconforto diante de estímulos visuais, como telas,
trânsito ou ambientes com muitas informações.
Nem toda tontura é “labirintite”
A confusão é compreensível: tontura e vertigem são frequentemente associadas, no senso comum, a problemas no labirinto. No entanto, a migrânea vestibular está relacionada ao funcionamento do sistema nervoso e das redes cerebrais envolvidas no processamento das informações responsáveis pelo equilíbrio. Ou seja, o ouvido interno pode estar normal mesmo diante de sintomas importantes.
“Ter tontura não significa necessariamente ter uma doença do ouvido interno. A migrânea vestibular é uma condição relacionada ao funcionamento do sistema nervoso e das redes cerebrais que participam do processamento dos estímulos vestibulares, visuais e sensoriais”, esclarece a médica.
Outro detalhe
importante é que “labirintite” muitas vezes é utilizada como um termo genérico
para qualquer quadro de tontura. Na medicina, porém, a labirintite corresponde
especificamente a uma inflamação do labirinto e é uma causa relativamente
incomum desses sintomas.
Sono, estresse e até jejum podem favorecer crises
Assim como acontece com outras formas de enxaqueca, alguns fatores podem reduzir o limiar para o aparecimento de uma crise. Entre eles estão alterações no padrão de sono, privação de sono, estresse, jejum prolongado, desidratação e mudanças hormonais. Algumas pessoas também percebem relação com determinados alimentos, bebidas ou excesso de cafeína.
Isso não significa, porém, que exista uma lista de gatilhos que sirva para todos. “Não existe uma lista universal de gatilhos. O que desencadeia uma crise em uma pessoa pode não ter o mesmo efeito em outra. Por isso, mais do que estabelecer uma lista rígida de alimentos proibidos, é importante observar o próprio padrão de sintomas e manter uma rotina regular de sono, alimentação, hidratação e atividade física”, orienta Dra. Milena.
A migrânea
vestibular é mais frequente em mulheres e em pessoas com histórico pessoal ou
familiar de migrânea, embora também possa ocorrer em homens e em quem nunca
apresentou a forma tradicional da doença.
Quando procurar ajuda?
Como tontura e vertigem podem ter diversas causas, não é possível identificar a migrânea vestibular por um único sintoma. Episódios recorrentes, especialmente quando associados a histórico de enxaqueca, náuseas ou sensibilidade a estímulos luminosos e sonoros, merecem investigação médica.
“Não existe um único sintoma que permita ao paciente fazer esse diagnóstico sozinho. Outras doenças vestibulares podem apresentar sintomas semelhantes, e a avaliação médica é fundamental para diferenciar essas condições”, afirma a especialista.
O acompanhamento
adequado permite investigar a origem das crises e diferenciar a migrânea
vestibular de outras alterações que também podem comprometer o equilíbrio. E,
para quem costuma atribuir qualquer tontura à “labirintite”, fica o alerta: o
problema pode estar em um lugar bem diferente do que se imagina.
Hospital Paulista
de Otorrinolaringologia
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