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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

3 motivos para as empresas não enxergarem retorno com IA

A maioria dos relatórios de resultado sobre inteligência artificial que chega às mesas de diretoria deveria vir acompanhada de um aviso: os números apresentados talvez não estejam medindo aquilo que parecem medir.. Essa convicção não nasceu de uma pesquisa acadêmica, mas de dezenas de reuniões de acompanhamento de iniciativas de IA em grandes empresas. Em muitas delas, métricas de adoção, volume de uso e satisfação dos usuários são tratadas como evidência de sucesso, embora não comprovem impacto financeiro, operacional ou estratégico. 

Os dados recentes ajudam a explicar essa distância entre discurso e resultado. Um levantamento da KPMG divulgado em 2026 constatou que, embora 95% das organizações já tenham uma estratégia formal de inteligência artificial, apenas 8% conseguem comprovar retorno efetivo sobre o investimento. A McKinsey, por sua vez revela que cerca de 88% das empresas afirmam usar IA, mas só uma em cada cinco extrai valor real, sendo que apenas 39% relatam algum impacto no EBIT em nível corporativo. 

A adoção avançou de forma evidente. O retorno mensurável, porém, não acompanhou o mesmo ritmo. E os motivos são mais simples, e estruturais, do que parecem.
 

1. A liderança mede atividade, não impacto 

É mais fácil, e mais confortável, reportar “número de colaboradores treinados em IA”, “quantidade de licenças distribuídas” ou “casos de uso mapeados” do que demonstrar receita incremental, custo evitado, ganho de produtividade comprovado ou redução de risco.

A primeira categoria de indicadores quase sempre cresce. A segunda, quando medida com rigor, frequentemente decepciona, e, por isso, tende a ser evitada.

Treinar mil pessoas não significa que mil pessoas passaram a tomar decisões melhores. Implementar um assistente generativo não significa que um processo ficou mais eficiente. Mapear cinquenta oportunidades não quer dizer que alguma delas gerou valor.

A questão não é abandonar as métricas de adoção. Elas são úteis. O problema é tratá-las como resultado final, quando deveriam ser apenas indicadores intermediários de uma jornada que precisa terminar em impacto de negócio.


2. A verdade técnica se perde antes de chegar ao board 

Existe uma assimetria de linguagem entre quem aprova o orçamento e quem executa o projeto.

Os times técnicos geralmente sabem onde a IA está funcionando, onde ainda apresenta limitações e em quais condições seus resultados são confiáveis. Mas esse vocabulário raramente sobrevive à tradução para a linguagem do comitê executivo.

No caminho entre o time de dados e o board, “o modelo tem desempenho instável fora do ambiente de teste” pode se transformar em “estamos evoluindo nossas capacidades de IA generativa”. “Ainda não conseguimos integrar a solução ao fluxo de trabalho” vira “o piloto foi bem recebido pelos usuários”.

Não se trata, necessariamente, de má-fé. Muitas vezes, é apenas o efeito de uma organização que prefere narrativas de progresso a conversas difíceis sobre limitações, riscos e retorno.

Mas uma empresa só consegue tomar boas decisões quando a liderança recebe informações que preservam a realidade, e não apenas a versão mais apresentável dela.
 

3. Muitas iniciativas começam pela pressão, não pelo problema 

Uma parcela relevante dos programas corporativos de IA não nasce de uma pergunta de negócio clara. Nasce da pressão externa. O conselho pergunta o que a empresa está fazendo com IA. Um concorrente anuncia uma parceria com uma grande empresa de tecnologia. Um analista de mercado inclui o tema em seu relatório. A resposta, quase sempre, é criar um programa antes de definir com precisão qual problema ele precisa resolver. 

Um programa sem uma pergunta de negócio clara produz atividade. E atividade é fácil de mostrar: workshops, pilotos, dashboards, comitês, treinamentos e apresentações. Resultados, por outro lado, exigem foco, escolhas e disposição para interromper aquilo que não funciona. 

Há ainda um incentivo de carreira que raramente é discutido. Quem lidera uma transformação em IA sabe que os resultados financeiros mais consistentes podem levar anos para aparecer. Antes disso, é possível que a pessoa já tenha assumido outro cargo, mudado de área ou deixado a empresa. Quem herda o programa nem sempre participou de sua concepção e dificilmente terá incentivo para expor que sua base era frágil. 

Sem responsabilidade clara pelo resultado ao longo do tempo, a iniciativa corre o risco de se tornar uma sucessão de demonstrações bem produzidas, mas desconectadas do negócio. Estamos entrando em uma fase em que investidores, conselhos de administração e reguladores começam a exigir mais do que narrativas sobre inteligência artificial. A expectativa passa a ser por evidências auditáveis: indicadores financeiros verificáveis, metas explícitas e uma conexão clara entre o investimento realizado e o resultado reportado. 

Esse movimento também amplia o risco reputacional. O chamado AI washing, a amplificação de capacidades de IA sem lastro operacional compatível já atrai atenção regulatória em mercados como os Estados Unidos. O que hoje parece apenas um desconforto interno pode se transformar em uma exposição legal, financeira e de mercado. 

As empresas que irão se diferenciar nos próximos anos não serão, necessariamente, as que “usam mais IA”. Em pouco tempo, essa expressão deixará de significar algo relevante: a tecnologia estará embutida em praticamente todos os softwares corporativos. A verdadeira diferenciação estará em quem consegue responder, com números concretos e defensáveis, onde a IA mudou um resultado e por quê. 

Vale, então, uma pergunta simples para qualquer liderança: se sua empresa parasse hoje de falar sobre inteligência artificial, quantos processos internos, decisões de negócio ou resultados financeiros seriam efetivamente diferentes amanhã? 

Se a resposta for “quase nenhum”, talvez o problema nunca tenha sido a tecnologia. Talvez, em algum momento, a organização tenha trocado a pergunta “isso resolve um problema real do nosso negócio?” por “isso nos faz parecer atualizados?”. E ninguém percebeu a troca.

 

Andrey Abreu - Conselheiro, mentor de líderes e organizações, palestrante e especialista em estratégia, inovação e transformação empresarial. Há 25 anos atua em empresas de base tecnológica, apoiando executivos e times de liderança na tomada de decisões em contextos de mudança, crescimento e alta complexidade. Atualmente, é COO da Softplan, uma das principais empresas de tecnologia para transformação digital de governo no Brasil. Também é autor do best-seller Além do Agora: A reinvenção do futuro, obra que estimula consciência e protagonismo em tempos acelerados, transformando complexidade em clareza e ação.Seu trabalho é dedicado a ajudar líderes e organizações a navegar pelas incertezas do futuro de forma simples, eficaz e humana, conectando governança, inovação e propósito.
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