Dor de
crescimento ou tumor ósseo?
Especialista reforça a importância de reconhecer os sinais dos tumores ósseos para um diagnóstico precoce e rápido início do tratamento
Setembro Dourado é a campanha nacional e internacional dedicada à
conscientização sobre o câncer infantojuvenil. A cor dourada foi escolhida como
referência ao padrão ouro, símbolo do que há de mais valioso: a vida das
crianças e adolescentes afetados por essa doença.
No
Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima que cerca de 8 mil novos
casos de câncer infantojuvenil são diagnosticados por ano no país, entre eles,
os tumores ósseos, que figuram entre os tipos mais comuns nessa faixa etária.
O
osteossarcoma e o sarcoma
de Ewing são os dois tipos mais frequentes de câncer ósseo
primário em crianças e adolescentes. Agressivos e de progressão rápida, esses
tumores exigem diagnóstico e tratamento precoces para que as chances de cura
sejam maximizadas. E é justamente aqui que reside o maior desafio: os sintomas
iniciais são facilmente confundidos com queixas comuns da infância e da
adolescência, como as dores do crescimento ou lesões esportivas.
O
Dr. Fábio Elói, oncologista ortopedista pela Associação Brasileira de Oncologia
Ortopédica (ABOO), cirurgião de quadril pela Sociedade Brasileira de Quadril
(SBQ) e especialista em ortopedia e traumatologia pela Sociedade Brasileira de
Ortopedia e Traumatologia (SBOT), alerta para a importância de conhecer esses
sinais e não normalizá-los.
"O
Setembro Dourado existe para lembrar que o câncer infantojuvenil tem cura, e o
tratamento muitas vezes depende de quanto tempo se passou até o paciente chegar
ao diagnóstico correto. No caso dos tumores ósseos, cada semana conta. Um tumor
identificado antes de se disseminar tem prognóstico completamente diferente
daquele diagnosticado tardiamente", explica o Dr. Fábio.
Por que tumores ósseos afetam principalmente jovens?
Ao
contrário do que muitos imaginam, o câncer ósseo primário não é uma doença de
adultos. O osteossarcoma, por exemplo, tem dois
picos de incidência: um na adolescência, durante o estirão de crescimento, e outro
em adultos acima dos 60 anos. O sarcoma de Ewing é
ainda mais prevalente em crianças e adolescentes, sendo raro após os 30 anos.
A
explicação para essa concentração em jovens está ligada ao crescimento ósseo
acelerado. Durante a adolescência, ossos longos, como o fêmur, a tíbia ou o
úmero, crescem rapidamente, e as células responsáveis por esse crescimento podem,
em alguns casos, sofrer alterações que levam ao desenvolvimento tumoral. Não
há, até o momento, fatores de risco comportamentais ou ambientais bem
estabelecidos que expliquem por que isso ocorre em determinados pacientes.
"É
muito comum a família demorar para buscar ajuda porque associa a dor do filho
ao crescimento ou a algum esporte que ele pratica. Essa confusão é
compreensível, mas pode custar um tempo precioso. Conhecer os sinais que
diferenciam uma dor benigna de uma dor que merece investigação é fundamental",
alerta o Dr. Fábio.
Sinais de alerta: quando a dor não é só do crescimento
A
chamada "dor do crescimento" é real, benigna e muito frequente em
crianças. Ela costuma aparecer no final do dia ou à noite, afeta os dois
membros de forma alternada e melhora com massagem ou analgésico simples. A dor
associada a um tumor ósseo tem características distintas e reconhecê-las pode
fazer toda a diferença. Fique atento a:
• Dor
localizada e persistente: diferente da dor do crescimento, que
é difusa e migratória, a dor tumoral tende a se fixar em um ponto específico,
geralmente próximo a uma articulação, como o joelho ou o ombro.
• Piora progressiva: a dor não melhora com o tempo nem com repouso ou medicação habitual. Pelo contrário, intensifica-se ao longo das semanas.
• Dor noturna intensa: acordar durante a noite por causa da dor óssea é um sinal clássico que não deve ser ignorado.
• Inchaço ou massa palpável: o aparecimento de um nódulo, inchaço ou endurecimento na região dolorida, especialmente próximo a articulações, exige avaliação imediata.
• Limitação funcional progressiva: a criança começa a evitar atividades físicas, para de correr, de brincar ou de praticar esporte por causa do desconforto.
• Fratura desproporcional ao trauma: quando um osso fratura após um impacto leve, pode ser sinal de que sua estrutura está comprometida por uma lesão subjacente.
"Nenhum
desses sinais significa necessariamente câncer, a maioria das dores ósseas em
crianças tem causas benignas. Mas todos justificam uma avaliação especializada
sem demora. O que não podemos é normalizar uma dor que não tem explicação clara
e que não melhora com o tempo", reforça o especialista.
Preservação e qualidade de vida
O diagnóstico de um tumor ósseo ainda carrega muito estigma, em parte, por razões históricas. Décadas atrás, o tratamento frequentemente envolvia amputação e tinha prognósticos sombrios. Esse cenário mudou radicalmente nas últimas décadas.
Hoje,
a cirurgia de preservação de membro é realizada em mais de 90% dos casos de osteossarcoma,
graças aos avanços em quimioterapia neoadjuvante, que é aplicada antes da
cirurgia para reduzir o tumor. Só então vem as técnicas cirúrgicas de ressecção
e reconstrução óssea e, quando necessário, podem ser indicadas próteses e
enxertos, que restauram a função do membro operado. Quando a doença está
localizada, sem metástases, as taxas de sobrevida em cinco anos giram em torno
de 60% a 70% com o tratamento combinado.
"A
oncologia ortopédica evoluiu enormemente. Salvar o membro é a regra, não a
exceção. Temos recursos cirúrgicos e técnicas de reconstrução que permitem
retirar o tumor com segurança e devolver ao paciente uma vida funcional. O
diagnóstico precoce é o que torna isso possível na maioria dos casos",
destaca o Dr. Fábio.
A família e os profissionais de saúde
O
caminho até o diagnóstico correto de um tumor ósseo passa, necessariamente,
pela atenção de pais, responsáveis e profissionais de saúde de atenção
primária. Muitos casos chegam ao oncologista ortopédico após meses de sintomas
que foram tratados como lesões musculares ou dores do crescimento.
Médicos
pediatras, ortopedistas gerais e profissionais de educação física têm papel
fundamental nessa triagem. Uma radiografia simples da região dolorida pode
levantar a suspeita de lesão óssea e indicar a necessidade de encaminhamento
para um especialista. O diagnóstico definitivo, no entanto, exige exames de
imagem mais detalhados, como ressonância magnética e tomografia. Em muitos
casos, uma biópsia com análise histopatológica confirmará o diagnóstico.
"A
mensagem do Setembro Dourado para as famílias é simples: não ignore a dor
persistente do seu filho. Se a dor não melhora, se aparece inchaço, se a
criança começa a limitar suas atividades sem motivo claro, procure um médico. E
se houver suspeita de lesão óssea, peça encaminhamento para um oncologista
ortopédico. O tempo é o fator mais importante nesse diagnóstico", orienta
o Dr. Fábio.
Nenhum comentário:
Postar um comentário