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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Setembro Dourado: Mês de Conscientização sobre o Câncer Infantojuvenil

Dor de crescimento ou tumor ósseo?  

Especialista reforça a importância de reconhecer os sinais dos tumores ósseos para um diagnóstico precoce e rápido início do tratamento 

 

Setembro Dourado é a campanha nacional e internacional dedicada à conscientização sobre o câncer infantojuvenil. A cor dourada foi escolhida como referência ao padrão ouro, símbolo do que há de mais valioso: a vida das crianças e adolescentes afetados por essa doença.

 

No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima que cerca de 8 mil novos casos de câncer infantojuvenil são diagnosticados por ano no país, entre eles, os tumores ósseos, que figuram entre os tipos mais comuns nessa faixa etária.

 

O osteossarcoma e o sarcoma de Ewing são os dois tipos mais frequentes de câncer ósseo primário em crianças e adolescentes. Agressivos e de progressão rápida, esses tumores exigem diagnóstico e tratamento precoces para que as chances de cura sejam maximizadas. E é justamente aqui que reside o maior desafio: os sintomas iniciais são facilmente confundidos com queixas comuns da infância e da adolescência, como as dores do crescimento ou lesões esportivas.

 

O Dr. Fábio Elói, oncologista ortopedista pela Associação Brasileira de Oncologia Ortopédica (ABOO), cirurgião de quadril pela Sociedade Brasileira de Quadril (SBQ) e especialista em ortopedia e traumatologia pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), alerta para a importância de conhecer esses sinais e não normalizá-los.

 

"O Setembro Dourado existe para lembrar que o câncer infantojuvenil tem cura, e o tratamento muitas vezes depende de quanto tempo se passou até o paciente chegar ao diagnóstico correto. No caso dos tumores ósseos, cada semana conta. Um tumor identificado antes de se disseminar tem prognóstico completamente diferente daquele diagnosticado tardiamente", explica o Dr. Fábio.


 

Por que tumores ósseos afetam principalmente jovens?

 

Ao contrário do que muitos imaginam, o câncer ósseo primário não é uma doença de adultos. O osteossarcoma, por exemplo, tem dois picos de incidência: um na adolescência, durante o estirão de crescimento, e outro em adultos acima dos 60 anos. O sarcoma de Ewing é ainda mais prevalente em crianças e adolescentes, sendo raro após os 30 anos.

 

A explicação para essa concentração em jovens está ligada ao crescimento ósseo acelerado. Durante a adolescência, ossos longos, como o fêmur, a tíbia ou o úmero, crescem rapidamente, e as células responsáveis por esse crescimento podem, em alguns casos, sofrer alterações que levam ao desenvolvimento tumoral. Não há, até o momento, fatores de risco comportamentais ou ambientais bem estabelecidos que expliquem por que isso ocorre em determinados pacientes.

 

"É muito comum a família demorar para buscar ajuda porque associa a dor do filho ao crescimento ou a algum esporte que ele pratica. Essa confusão é compreensível, mas pode custar um tempo precioso. Conhecer os sinais que diferenciam uma dor benigna de uma dor que merece investigação é fundamental", alerta o Dr. Fábio.


 

Sinais de alerta: quando a dor não é só do crescimento

 

A chamada "dor do crescimento" é real, benigna e muito frequente em crianças. Ela costuma aparecer no final do dia ou à noite, afeta os dois membros de forma alternada e melhora com massagem ou analgésico simples. A dor associada a um tumor ósseo tem características distintas e reconhecê-las pode fazer toda a diferença. Fique atento a:

 

•        Dor localizada e persistente: diferente da dor do crescimento, que é difusa e migratória, a dor tumoral tende a se fixar em um ponto específico, geralmente próximo a uma articulação, como o joelho ou o ombro.


•        Piora progressiva: a dor não melhora com o tempo nem com repouso ou medicação habitual. Pelo contrário, intensifica-se ao longo das semanas.


•        Dor noturna intensa: acordar durante a noite por causa da dor óssea é um sinal clássico que não deve ser ignorado.


•        Inchaço ou massa palpável: o aparecimento de um nódulo, inchaço ou endurecimento na região dolorida, especialmente próximo a articulações, exige avaliação imediata.


•        Limitação funcional progressiva: a criança começa a evitar atividades físicas, para de correr, de brincar ou de praticar esporte por causa do desconforto.


•        Fratura desproporcional ao trauma: quando um osso fratura após um impacto leve, pode ser sinal de que sua estrutura está comprometida por uma lesão subjacente.

 

"Nenhum desses sinais significa necessariamente câncer, a maioria das dores ósseas em crianças tem causas benignas. Mas todos justificam uma avaliação especializada sem demora. O que não podemos é normalizar uma dor que não tem explicação clara e que não melhora com o tempo", reforça o especialista.


 

Preservação e qualidade de vida

 

O diagnóstico de um tumor ósseo ainda carrega muito estigma, em parte, por razões históricas. Décadas atrás, o tratamento frequentemente envolvia amputação e tinha prognósticos sombrios. Esse cenário mudou radicalmente nas últimas décadas.

 

Hoje, a cirurgia de preservação de membro é realizada em mais de 90% dos casos de osteossarcoma, graças aos avanços em quimioterapia neoadjuvante, que é aplicada antes da cirurgia para reduzir o tumor. Só então vem as técnicas cirúrgicas de ressecção e reconstrução óssea e, quando necessário, podem ser indicadas próteses e enxertos, que restauram a função do membro operado. Quando a doença está localizada, sem metástases, as taxas de sobrevida em cinco anos giram em torno de 60% a 70% com o tratamento combinado.

"A oncologia ortopédica evoluiu enormemente. Salvar o membro é a regra, não a exceção. Temos recursos cirúrgicos e técnicas de reconstrução que permitem retirar o tumor com segurança e devolver ao paciente uma vida funcional. O diagnóstico precoce é o que torna isso possível na maioria dos casos", destaca o Dr. Fábio.

 


A família e os profissionais de saúde

 

O caminho até o diagnóstico correto de um tumor ósseo passa, necessariamente, pela atenção de pais, responsáveis e profissionais de saúde de atenção primária. Muitos casos chegam ao oncologista ortopédico após meses de sintomas que foram tratados como lesões musculares ou dores do crescimento.

 

Médicos pediatras, ortopedistas gerais e profissionais de educação física têm papel fundamental nessa triagem. Uma radiografia simples da região dolorida pode levantar a suspeita de lesão óssea e indicar a necessidade de encaminhamento para um especialista. O diagnóstico definitivo, no entanto, exige exames de imagem mais detalhados, como ressonância magnética e tomografia. Em muitos casos, uma biópsia com análise histopatológica confirmará o diagnóstico.

 

"A mensagem do Setembro Dourado para as famílias é simples: não ignore a dor persistente do seu filho. Se a dor não melhora, se aparece inchaço, se a criança começa a limitar suas atividades sem motivo claro, procure um médico. E se houver suspeita de lesão óssea, peça encaminhamento para um oncologista ortopédico. O tempo é o fator mais importante nesse diagnóstico", orienta o Dr. Fábio.

 

Dr. Fábio Elói - cirurgião de quadril pela Sociedade Brasileira de Quadril (SBQ), especialista em ortopedia e traumatologia pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e oncologista ortopedista pela Associação Brasileira de Oncologia Ortopédica (ABOO).


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