A inteligência
artificial começa, porém, a mudar essa lógica. E essa transformação vai muito
além da substituição de algumas tarefas por sistemas automatizados: ela altera
a própria maneira como as empresas precisam olhar para seus profissionais.
Hoje, ferramentas
de inteligência artificial já conseguem produzir textos, analisar informações,
programar, resumir documentos, organizar grandes volumes de dados e realizar
atividades que, até pouco tempo atrás, dependiam exclusivamente do trabalho
humano. Isso não significa que conhecimento técnico ou formação tenham perdido
importância.
Significa que o
acesso ao conhecimento está se tornando mais rápido e democrático. Como
consequência, aquilo que diferencia um profissional também começa a mudar.
Minha pesquisa de
doutorado, desenvolvida na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR),
buscou compreender esse cenário. O trabalho partiu de um portfólio de 1.004
artigos científicos internacionais e, após os critérios de seleção, analisou
101 estudos de maior impacto para a construção do modelo.
Ao longo desse
processo, uma questão ganhou força: à medida que a IA assume uma parcela maior
das atividades técnicas e cognitivas, quais características humanas passam a
ter mais valor?
Minha hipótese é que
a criatividade terá um papel cada vez mais importante. Não apenas no sentido
tradicional de ter ideias originais, mas na capacidade de olhar para um
problema e enxergar possibilidades, estabelecer conexões entre conhecimentos
diferentes, questionar soluções aparentemente óbvias e encontrar caminhos para
situações que não possuem uma resposta pronta.
E esse problema é
cada vez mais evidente. Faço palestras nas maiores empresas do Brasil e vejo
diretores se queixando da falta de criatividade na execução dos processos do
dia a dia. Há uma certa ironia nisso: muitas organizações dizem buscar pessoas
capazes de pensar diferente, mas continuam criando ambientes em que pensar
diferente parece quase uma infração administrativa.
Durante décadas,
muitas empresas valorizaram principalmente o profissional que dominava
determinado procedimento. Isso fazia sentido quando o conhecimento
especializado era mais difícil de acessar. Agora, uma ferramenta de IA pode
ajudar uma pessoa a encontrar informações, comparar alternativas e propor
soluções em poucos segundos.
Por isso, acredito
que a pergunta feita pelas empresas precisará mudar. Em vez de olhar apenas
para aquilo que o candidato já sabe fazer, será cada vez mais importante
entender como ele pensa quando se depara com algo que ainda não sabe resolver.
Esse é um desafio
concreto para os departamentos de Recursos Humanos. Os processos seletivos
tradicionais foram construídos para identificar competências relativamente fáceis
de comprovar. Um diploma pode ser verificado, assim como uma experiência
profissional ou o domínio de uma ferramenta. A criatividade, entretanto, não
aparece necessariamente em um currículo.
É possível ter
excelente formação e muitos anos de experiência e, ainda assim, apresentar
pouca disposição para questionar processos ou buscar soluções diferentes. Da
mesma forma, alguém com uma trajetória menos convencional pode demonstrar
grande capacidade de aprender, fazer conexões e encontrar alternativas diante
de um problema.
As empresas
precisarão, portanto, desenvolver novas formas de avaliar talentos, observando
características como curiosidade, pensamento crítico, capacidade de adaptação e
resolução de problemas complexos.
Mas há uma questão
anterior: criatividade não é algo que simplesmente “mora” dentro de uma pessoa.
Ela é relacional. Nasce da interação do ser humano com o meio, com outras
pessoas, com as técnicas, com a cultura, com experiências e conhecimentos
acumulados. Uma ideia não surge no vazio. Ela carrega memória, repertório,
sentimentos, referências e até contradições.
Por isso, não
adianta contratar pessoas criativas se a própria organização não permite que
elas sejam criativas. Muitas empresas dizem buscar inovação, mas mantêm
ambientes excessivamente hierárquicos, burocráticos e pouco tolerantes ao erro.
É quase como contratar um pianista e, depois, pedir que ele não toque.
A criatividade não
depende apenas do indivíduo; ela também é influenciada pelo ambiente. Uma
pessoa pode ter boas ideias, mas dificilmente conseguirá transformá-las em
resultados se não tiver autonomia para experimentar ou se qualquer erro for
tratado como fracasso.
Também precisamos
evitar uma falsa oposição entre seres humanos e inteligência artificial. A
humanidade sempre utilizou tecnologias para ampliar sua capacidade de criar. A
escrita expandiu nossa memória, a imprensa multiplicou o alcance das ideias e o
computador ampliou nossa capacidade de calcular e processar informações. A IA
faz parte dessa mesma história.
O ponto, portanto,
não é escolher entre humanos ou máquinas. É entender a relação entre eles. A
tecnologia pode ampliar nossa criatividade, mas também pode nos acomodar. Pode
nos ajudar a explorar possibilidades ou nos fazer aceitar como suficiente a primeira
resposta plausível que aparece na tela.
É preciso, ainda,
tomar cuidado para não confundir automação com inovação. Uma empresa pode
utilizar inteligência artificial para tornar um processo antigo mais rápido sem
necessariamente criar algo novo. Por outro lado, organizações abertas à
experimentação podem usar a tecnologia para testar ideias, analisar cenários,
desenvolver protótipos e acelerar o aprendizado.
Foi a partir dessa
preocupação que desenvolvi o protótipo do Sistema Web MACI, voltado ao diagnóstico
de fatores relacionados à criatividade nas organizações. A ferramenta busca
identificar possíveis fragilidades e, com base na literatura científica
analisada na pesquisa, indicar intervenções para profissionais de RH e
lideranças.
A grande transformação
provocada pela inteligência artificial, portanto, não estará apenas nas
profissões que serão modificadas ou nas tarefas que serão automatizadas. Ela
também estará nos critérios utilizados para definir o valor de um profissional.
Se as máquinas conseguem executar cada vez mais tarefas, o diferencial humano
tende a estar menos na repetição de conhecimentos existentes e mais na
capacidade de utilizar esses conhecimentos para construir algo novo.
Isso não significa
que o conhecimento técnico deixará de ser importante. Pelo contrário: quanto
maior o repertório de uma pessoa, maior pode ser sua capacidade de utilizar a
IA de maneira sofisticada. A diferença estará naquilo que ela consegue fazer
com esse conhecimento.
Talvez o
verdadeiro desafio da IA no trabalho não seja decidir se devemos utilizá-la.
Essa discussão já parece pequena diante da realidade. O desafio é encontrar o
bom tom dessa relação: saber onde a tecnologia deve acelerar, onde deve
provocar e, principalmente, onde não podemos permitir que ela pense por nós.
Porque
criatividade não é apenas gerar ideias. É relacionar experiências,
conhecimentos, pessoas, culturas e sentimentos para produzir algo que antes não
existia. É justamente essa riqueza, memória, experiência, contexto e subjetividade,
que escapa a uma lógica baseada em probabilidade e previsibilidade.
Em um mundo cada
vez mais capaz de produzir respostas automaticamente, talvez a criatividade
seja mais do que uma competência profissional ou uma vantagem estratégica. Ela
é vital. É uma das formas pelas quais nos reconhecemos como humanos. E talvez
nossa maior responsabilidade diante da inteligência artificial seja justamente
não deixar de fazer as perguntas que nenhuma máquina estava esperando.

Nenhum comentário:
Postar um comentário