Especialista explica como situações do cotidiano, brincadeiras e leitura compartilhada podem estimular o ensino de forma leve e significativa
Fazer
compras, preparar uma receita, brincar de caça ao tesouro ou simplesmente
observar uma placa na rua. Situações comuns da rotina podem ajudar a criança a
desenvolver habilidades importantes para a alfabetização, sem a necessidade de
transformar esses momentos em atividades escolares.
De
acordo com Luciana Teixeira, diretora pedagógica de conteúdo do Sistema
Positivo, a participação da família no desenvolvimento da alfabetização é
importante, mas o papel dos adultos pode ir além de acompanhar atividades
escolares. “A família não precisa reproduzir a escola dentro de casa. Pode
fazer algo diferente e igualmente importante: criar um ambiente em que a
linguagem circule, desperte curiosidade e faça parte da vida.”
No
Dia Mundial da Alfabetização, celebrado em 8 de setembro, a especialista reúne
seis estratégias para as famílias estimularem a leitura e a escrita de forma
leve e significativa.
1. Faça da linguagem escrita parte da rotina: “A alfabetização não acontece apenas quando a
criança está diante de um livro ou realizando uma atividade escolar. A
linguagem escrita está presente no mundo e, quanto mais a criança convive com
ela de forma natural, mais oportunidades tem de construir sentidos sobre sua
função. Colocar o nome da criança na porta do quarto, identificar alguns
objetos com seus nomes, deixar livros ao alcance das mãos e incorporados aos
brinquedos são pequenos gestos que aproximam a criança desse universo. Mas a
alfabetização também começa muito antes da escrita propriamente dita.
Conversar, contar histórias, cantar, brincar com palavras, fazer perguntas e
ouvir verdadeiramente o que a criança tem a dizer são experiências fundamentais
para ampliar seu repertório e seu vocabulário.”
2. Aproveite situações do cotidiano: “Ao fazer compras, a criança pode ajudar a
construir e acompanhar a lista, procurar um produto ou reconhecer palavras nas
embalagens. Ao cozinhar, pode acompanhar uma receita, identificar ingredientes
e observar medidas e quantidades. Em um passeio pela rua, podemos chamar sua atenção
para placas, nomes de lojas, cartazes e outras tantas mensagens que fazem parte
da paisagem.
São
pequenas situações que ajudam a criança a fazer uma descoberta muito
importante: a escrita existe porque precisamos e queremos comunicar alguma
coisa. Lemos e escrevemos para lembrar, escolher, descobrir, organizar,
imaginar, brincar e nos relacionar com outras pessoas.”
3. Brinque com sons, rimas e palavras: “A língua é um território maravilhoso para brincar.
Rimas, cantigas, parlendas, trava línguas e adivinhas fazem isso há gerações:
convidam a criança a experimentar sons, ritmos e palavras sem que ela precise
pensar que está realizando uma atividade escolar. Podemos brincar de descobrir
palavras que rimam, procurar palavras que começam com determinado som, separar
oralmente as partes de uma palavra, inventar palavras engraçadas ou trocar sons
e perceber o que acontece. Jogos como adedonha, forca e brincadeiras de
inventar histórias também ajudam a ampliar o vocabulário e a estabelecer
relações entre os sons e as palavras. Todas essas experiências favorecem o
desenvolvimento da consciência fonológica, uma habilidade importante no
processo de alfabetização.”
4. Quando houver resistência, mude a porta de entrada: “Quando uma criança diz que não gosta de ler, vale
tentar entender o que ela está dizendo por trás dessa frase. Ela não gosta de
histórias? Não encontrou ainda algo que desperte seu interesse? Está associando
a leitura à dificuldade? Ou talvez esteja associando o livro à cobrança? Nem
sempre o caminho é insistir mais. Às vezes é preciso mudar a porta de entrada.
Quadrinhos,
livros de humor, poemas, curiosidades, revistas, histórias de aventura ou
textos ligados a personagens e assuntos pelos quais a criança já se interessa
também formam leitores. O encontro com a leitura pode começar por muitos
lugares.”
5. Combine leitura autônoma e compartilhada: “Uma criança em processo de alfabetização precisa
das duas experiências. Ela precisa de textos que consiga ler com crescente
autonomia, porque é importante experimentar a conquista de ler sozinha,
desenvolver fluência e perceber o próprio avanço.
Mas
precisa também continuar tendo acesso a livros que ainda não consegue ler de
forma autônoma. Quando um adulto lê para a criança, oferece a ela acesso a um vocabulário
mais amplo, a estruturas linguísticas mais elaboradas, a diferentes gêneros e a
mundos que sua capacidade de decodificação ainda não permitiria alcançar. Por
isso, gosto de pensar em um repertório que tenha diferentes possibilidades:
livros que a criança lê sozinha, livros que lê com ajuda e livros que alguém lê
para ela.”
6. Evite cobrança e comparações: “Talvez um dos erros mais comuns seja a ansiedade do adulto diante da
aprendizagem da criança. Queremos ajudar e, sem perceber, começamos a transformar
cada situação em uma oportunidade de testar: ‘Que letra é essa?’, ‘O que está
escrito aqui?’, ‘Leia para mim’, ‘Você não lembra?’.
Quando
toda experiência com a escrita vem acompanhada de uma expectativa de resposta
correta, aquilo que poderia ser descoberta pode se transformar em tensão.
Também precisamos tomar cuidado com as comparações. Cada criança percorre esse
processo construindo hipóteses, fazendo relações, experimentando e avançando.
Isso não significa que não devamos acompanhar sua aprendizagem, mas que
precisamos respeitar o processo e manter um diálogo próximo com a escola. A
alfabetização vai acontecer, confie no processo e respeite o tempo da criança.”
Para
Luciana, o papel da família é oferecer um ambiente que favoreça o contato
espontâneo com a linguagem, enquanto a escola é responsável pela sistematização
do processo de alfabetização. “Em casa, podemos oferecer algo que também é
essencial: repertório, conversa, histórias, curiosidade, afeto e situações
reais de comunicação. Porque alfabetizar não é apenas ensinar uma criança a
dominar um código. É ajudá-la a perceber que, quando aprende a ler e a
escrever, ganha novas formas de compreender o mundo, de se expressar e de
participar dele.”
Sistema Positivo de Ensino
https://www.sistemapositivo.com.br/
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