Para Marcelo Cabral, gestor de
investimentos e sócio-fundador da Stratton Capital Nova York, alta dos juros
longos reflete inflação, petróleo, déficit e competição por capital, enquanto
nova comunicação do Fed adiciona incerteza ao mercado
A alta
dos juros dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos voltou a alimentar
preocupações sobre a sustentabilidade da dívida americana. Com a Treasury de 30
anos rompendo a marca de 5,3%, o debate sobre uma possível mudança estrutural
na percepção de risco ganhou força entre investidores. Para Marcelo Cabral,
gestor de investimentos e sócio-fundador da Stratton Capital, porém, o movimento
não deve ser interpretado dessa forma.
“Em
nossa opinião, não existe mudança estrutural na percepção de risco”, afirma. Segundo ele, a alta dos yields
é resultado da combinação entre fatores como o aumento do preço do petróleo em
meio ao conflito no Oriente Médio, o elevado volume de emissão de dívida
corporativa para financiar investimentos em inteligência artificial e as
preocupações com o déficit fiscal americano, que aumentam o prêmio de prazo
exigido pelos investidores.
Cabral
ressalta ainda que a alta das taxas não é exclusividade dos Estados Unidos. “É
importante ressaltar que a mesma dinâmica de aumento nas taxas soberanas de
longo prazo também está se manifestando fora dos Estados Unidos: as taxas dos
títulos do Japão, França, Alemanha e Inglaterra recentemente atingiram máximas
de múltiplas décadas, sinalizando uma reprecificação global”, diz. Na
avaliação do gestor, o movimento deve ser observado dentro de um cenário mais
amplo de reprecificação dos juros globais.
Outro
ponto destacado por Cabral é que a Treasury de 30 anos não deve ser analisada
isoladamente. Para ele, a alta dos juros longos está relacionada principalmente
à combinação entre inflação, petróleo e à disputa por financiamento provocada
pelos investimentos em inteligência artificial.
A
elevação dos yields também pode ocorrer mesmo sem uma expectativa de alta da
taxa básica do Federal Reserve. Isso acontece porque o Fed Funds e os títulos
longos são instrumentos distintos. “Trata-se de duas taxas completamente
diferentes. Enquanto o Fed Funds é uma taxa de curtíssimo prazo definida pelo
FOMC, o yield de uma Treasury de 30 anos é determinado pelo mercado e incorpora
expectativas de inflação, crescimento, risco fiscal, oferta e demanda e prêmio
de prazo”, diz.
Novo
presidente do FED e recompras
Na
avaliação do gestor, a condução do Federal Reserve por Kevin Warsh adiciona uma
camada de incerteza ao cenário. Segundo Cabral, o novo presidente do Fed tem
adotado uma comunicação mais enxuta e menos previsível, evitando oferecer o nível
de forward guidance ao qual os investidores estavam acostumados. “Esse
vácuo de sinalização tem custo”, afirma. Para ele, a alta do prêmio de
prazo e o bear steepening da curva após as primeiras reuniões de Warsh “não
são pura coincidência”.
As recompras
de Treasuries anunciadas pelo secretário do Tesouro, Scott Bessent, também têm
efeito limitado na avaliação de Cabral. “O volume das recompras (cerca de
US$ 4 bilhões por operação) foi bastante pequeno, quase irrisório, tanto em
termos absolutos quanto em relação ao volume líquido de emissão de Treasuries”,
comenta. Segundo ele, as operações parecem mais voltadas à inclinação da curva
do que à redução efetiva do nível dos juros.
O
gestor vê, porém, um risco institucional na medida: “O ponto mais relevante,
e negativo, das recompras, na nossa leitura, é que ‘yield curve control’ é um
instrumento de política monetária tradicionalmente pilotado pelo Banco Central,
não pelo Tesouro”. Na avaliação de Cabral, uma aproximação entre as
políticas fiscal e monetária pode gerar dúvidas sobre a independência e a
credibilidade do Fed.
Para o
gestor, também não existe um nível específico de yield que determine quando a
dívida americana passa a representar um risco de sustentabilidade fiscal. “Esse
limiar não é definido por um número mágico de yield, mas pela dinâmica de
sustentabilidade da dívida mediante a capacidade de crescimento da economia”,
afirma. Nesse sentido, a relação entre a taxa de juros paga pela dívida e o
crescimento nominal do PIB seria mais relevante.
Apesar
dos déficits elevados nos EUA, Cabral destaca a posição do dólar como moeda de
reserva global: “Um diferencial estrutural e não replicável é o dólar, que
segue sendo a única alternativa de moeda de reserva global, o que permite ao
Tesouro americano emitir dívida na própria moeda que controla, eliminando o
risco cambial que historicamente compromete a sustentabilidade fiscal dos
outros países”.
Impactos
dos juros altos
A alta
persistente dos juros, entretanto, tende a produzir efeitos diferentes entre os
mercados. Para a Bolsa americana, o impacto é negativo, com compressão de
múltiplos e mudanças na atratividade relativa dos setores. Para o dólar, yields
maiores podem favorecer a moeda ao atrair fluxos financeiros. Já para
emergentes como o Brasil, o cenário é mais desafiador, com menor liquidez
internacional, aumento do custo de capital e maior volatilidade cambial.
“Já
para mercados emergentes e Brasil, juros mais altos no hemisfério norte reduzem
a liquidez internacional e pioram as condições financeiras globais, provocando
aumento do custo de capital, maior volatilidade cambial e queda nos mercados”, afirma Cabral. Para ele, esse
ambiente reforça a necessidade de internacionalização patrimonial, mas não
representa, até o momento, uma ruptura estrutural na percepção de risco sobre a
dívida americana.
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