O avanço dos análogos de
GLP-1 ou, popularmente conhecida como canetas emagrecedoras abriu uma nova
frente no tratamento da obesidade, mas também expôs um desafio conhecido dos
profissionais de saúde: pacientes com o mesmo diagnóstico podem ter respostas
diferentes ao mesmo tratamento.
É nesse cenário que a
medicina de precisão e os exames nutrigenéticos ganham espaço, ao oferecer
informações que ajudam a personalizar condutas e a antecipar riscos. Segundo o
Conselho Federal de Farmácia, o uso desses medicamentos cresceu 88% em
relação a 2024. O setor já movimenta cerca de R$ 9 bilhões em importações
no país. Entre os princípios ativos utilizados estão a semaglutida e
a tirzepatida, substâncias que atuam em hormônios
relacionados à saciedade e ao controle do apetite. A semaglutida pode
levar a uma média de até 15% de perda de peso, enquanto
a tirzepatida pode alcançar entre 22% e 25%, dependendo da dose, do
acompanhamento profissional e da mudança no estilo de
vida do paciente.
Personalização e segurança no centro da discussão
Ao mesmo tempo em que os resultados
chamam atenção, aumentam os alertas sobre segurança e uso adequado.
Recentemente, a Anvisa reforçou os riscos do uso indevido desses medicamentos e
citou o alerta da agência reguladora do Reino Unido sobre a possibilidade,
ainda que rara, de pancreatite aguda grave em pacientes em tratamento. Entre
2020 e dezembro de 2025, foram registradas 145 notificações de suspeitas de
eventos adversos relacionados aos análogos de GLP-1 no Brasil, incluindo seis
casos com desfecho de óbito. Nos últimos anos, a agência também publicou
alertas sobre riscos de aspiração durante procedimentos anestésicos e casos
raros de perda de visão associados à semaglutida.
O que os testes genéticos podem revelar
Na obesidade, a medicina de
precisão busca transformar dados genéticos em apoio clínico para decisões mais
assertivas. A proposta é compreender com mais profundidade fatores biológicos
ligados à fome, à saciedade, ao metabolismo energético e à resposta ao tratamento
medicamentoso. Segundo a Dra. Annete Marum, nutricionista e diretora científica
da Ciera Genomics, a obesidade precisa ser tratada para além de uma lógica de
culpa individual.
“Hoje sabemos que há
componentes genéticos envolvidos no comportamento alimentar, no metabolismo
energético, no armazenamento de gordura e também na forma como cada paciente
responde ao tratamento. Quando esses dados entram na avaliação clínica, fica
mais fácil construir uma estratégia mais individualizada e realista”, afirma a
Dra. Annete. Entre os genes que podem ser analisados pelos testes genéticos
estão marcadores associados ao comportamento alimentar, compulsão, saciedade e
metabolismo energético, como FTO, LEP, LEPR e MC4R. O exame da Ciera Genomics,
em especial, inclui análises relacionadas ao comportamento alimentar e
metabolismo, fatores que podem impactar diretamente os resultados do
emagrecimento.
Além do risco
para fatores associados à obesidade, a genética pode impactar a resposta
individual aos medicamentos análogos de GLP-1, usados hoje como tratamento da
obesidade. Pessoas que apresentam uma herança genética de risco no gene GLP1R,
que codifica o receptor do GLP1, podem apresentar menor eficiência na perda de peso com o uso do fármaco. Por
isso, tem sido comum ouvir relatos de pessoas satisfeitas com o tratamento, mas
outras frustradas porque perderam bem menos peso do que esperado com o
tratamento prescrito pelo médico.
Além da genética, o impacto do sono
Na prática, esse tipo de
análise ajuda a explicar por que alguns pacientes relatam mais fome ao longo do
dia, dificuldade em atingir saciedade ou episódios recorrentes de compulsão
alimentar. “Muitas vezes, o paciente se culpa por não conseguir emagrecer,
quando existem fatores biológicos importantes envolvidos nesse processo”, diz a
Dra. Annete. Ela cita o caso de uma paciente pós-bariátrica que apresentava
reganho de peso. Apesar do exame indicar predisposição genética favorável ao
emagrecimento, o principal fator identificado foi a privação crônica de sono associada
à apneia. Após o tratamento adequado, houve melhora no controle da compulsão
alimentar, aumento da disposição para atividades físicas e evolução do processo
de emagrecimento.
Para os especialistas, o
avanço da medicina de precisão representa uma mudança importante na forma de
tratar a obesidade: com abordagens mais individualizadas, baseadas em ciência e
menos centradas na culpa do paciente.
Ciera Genomics

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