Empresas começam a perceber que o maior prejuízo do recrutamento nem sempre está na demora para contratar, mas na pressa para decidir
Toda empresa conhece o custo de contratar alguém. Poucas sabem
calcular o custo de contratar a pessoa errada. E essa diferença começa a chamar
atenção num momento em que produtividade, retenção e eficiência operacional
passaram a ser cobradas com muito mais agressividade dos times de liderança.
“O mercado tratou erro de contratação como um problema pontual
de RH. Uma decisão ruim aqui, outra substituição ali, algum desgaste
operacional no caminho. Mas o cenário mudou. Em estruturas mais enxutas e
equipes pressionadas por performance constante, uma contratação equivocada deixou
de ser apenas um erro de recrutamento. Virou um problema financeiro”, analisa
Patricia Suzuki, Diretora de RH da Redarbor Brasil, detentora do Pandapé.
Os números ajudam a explicar por quê. Segundo a Robert Half,
substituir um colaborador pode custar entre 50% e 200% do salário anual daquela
posição, considerando despesas com recrutamento, treinamento, desligamento e
perda de produtividade. No Brasil, cálculos da BGC Brasil mostram que a
reposição de um profissional com salário anual de R$120 mil pode gerar um custo
superior a R$81,5 mil, sem incluir impactos indiretos sobre clima, engajamento
e ritmo da equipe.
O problema é que os prejuízos mais profundos raramente aparecem
nas planilhas. Uma contratação desalinhada altera a dinâmica de times, aumenta
retrabalho, desacelera entregas e sobrecarrega lideranças que precisam
compensar falhas de adaptação ou performance. Em alguns casos, o efeito se
espalha silenciosamente pela operação antes mesmo que a empresa perceba que
tomou uma decisão errada.
Para a executiva, o mercado ainda avalia a contratação com uma
lógica imediatista. “Muitas empresas continuam olhando apenas para o custo de
deixar uma vaga aberta, quando o verdadeiro prejuízo costuma estar numa
contratação precipitada”, afirma.
Patricia observa que existe uma pressão crescente por velocidade
que nem sempre conversa com qualidade de avaliação. “Muitas lideranças querem
resolver uma vaga rapidamente porque existe urgência operacional. Mas contratar
alguém desalinhado cultural ou comportamentalmente pode gerar um impacto muito
mais caro e duradouro do que esperar um pouco mais pelo perfil correto”, diz
Suzuki.
O cenário se tornou ainda mais delicado porque o mercado de
trabalho ficou menos previsível. Competências técnicas envelhecem mais rápido,
funções mudam constantemente e equipes passaram a exigir habilidades emocionais
e colaborativas que não aparecem com facilidade em currículos ou entrevistas
tradicionais. Isso tornou o processo de contratação mais complexo do que simplesmente
validar experiência prévia.
Existe também um efeito emocional pouco discutido nas empresas:
a perda de confiança do time. Quando profissionais percebem decisões
recorrentes de contratação equivocada, começa a surgir uma sensação de
desorganização interna. Lideranças perdem credibilidade, equipes ficam mais
resistentes a mudanças e o turnover tende a aumentar em cadeia.
“Existe uma romantização da velocidade no mercado atual. Muitas
vezes, o mercado enxerga desligamentos rápidos como demonstração de agilidade,
quando eles também podem ser um sinal de que algo no processo não funcionou
como deveria. Antes de comemorar a correção, vale entender a origem do
problema”, afirma Suzuki.
A discussão talvez revele uma mudança importante no próprio conceito
de eficiência corporativa. Durante muito tempo, empresas acreditaram que
produtividade era preencher vagas rapidamente. Agora começam a perceber que
eficiência real talvez tenha mais relação com permanência, aderência e
construção sustentável de equipes do que simplesmente com velocidade de
contratação.

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