Pesquisar no Blog

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Preservação da fertilidade em pacientes com câncer ainda esbarra na falta de informação

Tema deve ser discutido de forma individualizada, com integração entre oncologia, reprodução assistida e redes de apoio ao paciente

 

Receber o diagnóstico de câncer costuma impor ao paciente uma sequência rápida de consultas, exames e decisões sobre o tratamento. Nesse percurso, temas ligados ao futuro, como a possibilidade de ter filhos depois da terapia oncológica, nem sempre chegam à conversa no momento adequado. Embora a preservação da fertilidade já faça parte das recomendações de cuidado para pessoas em idade reprodutiva, o assunto ainda é pouco conhecido por muitos pacientes e pode acabar sendo deixado de lado diante da urgência do tratamento. 

A preservação da fertilidade, também conhecida como oncofertilidade, envolve a avaliação dos riscos que determinados tratamentos podem trazer à capacidade reprodutiva e a discussão de alternativas possíveis antes do início da terapia, quando houver indicação e tempo clínico. Entre as opções, podem ser considerados o congelamento de óvulos, embriões ou sêmen, além de outras estratégias definidas caso a caso, de acordo com o tipo de tumor, idade, sexo, plano terapêutico, condição clínica e desejo reprodutivo do paciente. 

Para o Dr. Ricardo Caponero, oncologista do Centro Especializado em Oncologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, a principal questão é garantir que o paciente receba informação qualificada em um momento em que, muitas vezes, não sabe nem quais perguntas fazer. “O diagnóstico de câncer muda completamente a prioridade da vida da pessoa. É natural que o foco imediato seja tratar a doença, mas isso não significa que outras dimensões do cuidado devam desaparecer. Quando existe risco de impacto na fertilidade, o paciente precisa ser orientado de forma clara e acolhedora, para entender se há alguma possibilidade de preservação e se ela faz sentido no seu caso”, afirma. 

O especialista destaca que a discussão não deve ser tratada como promessa de maternidade ou paternidade no futuro, mas como uma oportunidade de ampliar a autonomia do paciente diante de uma decisão sensível. “Nem todos terão indicação ou tempo clínico para realizar algum procedimento, e isso precisa ser colocado com responsabilidade. Mas não falar sobre o tema pode tirar do paciente a chance de considerar uma possibilidade importante para seus projetos de vida”, complementa Dr. Caponero. 

A falta de informação é um dos pontos que tornam o tema ainda mais desafiador. Muitos pacientes só descobrem que o tratamento poderia afetar a fertilidade depois de iniciada ou concluída a terapia oncológica. Outros associam a preservação apenas a mulheres jovens, quando a discussão também pode ser relevante para homens em idade reprodutiva, especialmente em tumores e tratamentos que podem comprometer a produção de espermatozoides. 

Nesse contexto, o diálogo entre oncologistas, especialistas em reprodução assistida e redes de apoio ao paciente é fundamental. Para o Dr. Maurício Barbour Chehin, médico especialista em reprodução assistida, Diretor Científico e Coordenador do serviço de Oncofertilidade do Grupo Huntington, o encaminhamento precoce permite avaliar possibilidades de forma mais segura e alinhada ao tratamento oncológico. 

“Quando a equipe oncológica identifica precocemente o risco de comprometimento da fertilidade, conseguimos avaliar as alternativas disponíveis com mais agilidade e segurança. A decisão precisa ser individualizada, porque depende do tipo de câncer, do tratamento indicado, da idade, do tempo disponível e das condições clínicas do paciente. O mais importante é que essa avaliação aconteça de maneira integrada, sem perder de vista que o tratamento oncológico é sempre a prioridade”, explica Dr. Chehin. 

Além da dimensão médica, o tema também envolve acolhimento emocional e acesso à informação confiável. Organizações de apoio a pacientes oncológicos têm papel relevante ao ajudar a traduzir temas complexos, estimular perguntas durante a consulta e orientar pessoas recém-diagnosticadas sobre aspectos que podem ser discutidos com a equipe de saúde. 

“ONGs e grupos de pacientes ajudam a dar visibilidade a questões que, muitas vezes, ficam fora da conversa inicial. A fertilidade é uma delas. Quando o paciente está mais informado, ele chega à consulta com mais repertório para participar das decisões, entender limites e possibilidades e organizar melhor sua jornada”, afirma o oncologista. 

Os especialistas reforçam que a preservação da fertilidade não é indicada para todos os casos e não deve atrasar tratamentos urgentes. Ainda assim, quando há possibilidade de avaliação, a orientação deve ocorrer o quanto antes. Mais do que oferecer uma alternativa técnica, falar sobre oncofertilidade é reconhecer que o cuidado oncológico também precisa considerar a vida que o paciente deseja construir após o tratamento. 

 

Hospital Alemão Oswaldo Cruz

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Posts mais acessados