Recuperação acelerada é possível, mas o retorno precipitado pode aumentar a gravidade das lesões, alerta ortopedista da Casa de Saúde São José
Na última segunda-feira, a seleção brasileira embarcou para os Estados Unidos, rumo à Copa do Mundo de 2026, que começa na próxima quinta-feira, dia 11, com a partida entre México e África do Sul. Às vésperas da competição mundial, foi perceptível o alto índice de lesões entre jogadores do mundo inteiro e o Brasil ficou entre as seleções com mais jogadores lesionados. De acordo com o Dr. Thiago Lima, ortopedista e coordenador do Centro Cirúrgico da Casa de Saúde São José, a junção entre jogos decisivos, viagens, pressão por desempenho, treinos de forte intensidade, pressão emocional da convocação e pouco tempo de recuperação cria um ambiente de alto risco para lesões musculares e articulares.
No geral, isso acontece porque o corpo do atleta não responde apenas a um jogo em si, mas à soma de estímulos. Em um cenário de muitos jogos em sequência, com pouco intervalo de recuperação, o organismo entra em estado de cansaço acumulado, que envolve fadiga muscular, redução da capacidade de contração, piora da coordenação neuromuscular, alteração do tempo de reação e queda da qualidade dos movimentos.
“Na prática, um atleta fatigado pode continuar
correndo, saltando e mudando de direção, mas a biomecânica dele já não é a
mesma. O quadril pode perder controle, o joelho pode entrar em posições de maior
risco, o tornozelo pode responder com atraso e a musculatura posterior da coxa
pode não conseguir frear adequadamente a perna durante uma arrancada. É nesse
pequeno descompasso, muitas vezes de frações de segundo, que a lesão acontece”,
explica o especialista.
A pressão da convocação
Além disso, o período anterior a uma Copa do Mundo apresenta outro
fator adicional: o atleta tenta performar no limite para garantir convocação,
posição no elenco ou titularidade. Ou seja, ele acaba exigindo ainda mais do
organismo justamente no momento em que tem menos margem fisiológica para se
recuperar. Segundo o ortopedista, as lesões mais comuns envolvem a musculatura
posterior da coxa — especialmente os isquiotibiais, que são responsáveis pela
flexão do joelho e extensão do quadril, e são essenciais para movimentos de
caminhada e corrida. Outras lesões frequentes incluem as de quadríceps,
adutores, panturrilha, entorses de tornozelo e lesões ligamentares do joelho,
como lesões do ligamento cruzado anterior e do ligamento colateral medial.
Nesse cenário, as lesões musculares predominam porque o futebol moderno é um esporte cada vez mais explosivo. “O jogo exige acelerações repetidas, sprints em alta velocidade, frenagens, mudanças de direção e contrações excêntricas, que são aquelas em que o músculo precisa controlar o movimento enquanto está sendo alongado. Se o músculo está fatigado, encurtado, com déficit de força ou com histórico prévio de lesão, o risco aumenta muito”, explica o Dr. Thiago.
No caso das articulações, o joelho é o mais impactado, como uma
articulação de transição entre o quadril e o tornozelo. Quando há perda de
controle do tronco, do quadril ou do apoio do pé, o joelho pode receber forças
e estímulos de diferentes pontos. Em alta velocidade, uma mudança de direção
mal controlada, uma aterrissagem desequilibrada ou uma disputa com contato
podem gerar uma sobrecarga ligamentar.
O processo de recuperação
Para que o atleta consiga competir, com a tecnologia e o tratamento oferecido no mercado hoje, é possível otimizar o processo de recuperação, reduzir perdas funcionais, controlar melhor a carga e tomar decisões mais precisas sobre o momento seguro do jogador para a disputa. Entretanto, é preciso separar a recuperação acelerada do retorno precipitado, considerando que, apesar da evolução da medicina esportiva, não existe tecnologia capaz de enganar a biologia. O tecido lesionado precisa realmente cicatrizar antes de novos esforços. Por isso, o risco de forçar o retorno é muito alto: quando o atleta volta antes de recuperar força, controle e tolerância à carga, ele pode transformar uma lesão pequena em uma lesão maior, aumentar o risco de recidiva e até comprometer sua participação no torneio.
No período da recuperação são usados diversos métodos: ressonância
magnética para avaliar extensão e localização da lesão, acompanhamento por
ultrassonografia dinâmica, avaliação funcional, plataformas de força, análise
biomecânica, GPS, controle de carga, monitoramento de acelerações,
desacelerações e corrida em alta velocidade, além de protocolos de reabilitação
progressiva com fortalecimento excêntrico, treino neuromuscular e exposição
gradual aos gestos específicos do futebol. Além de melhorar a dor, por meio da
fisioterapia, o jogador reconquista a sua força, amplitude, confiança, coordenação,
tolerância à velocidade e capacidade de repetir movimentos intensos sem
compensações.
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