Cardiologista do Hospital Alemão
Oswaldo Cruz explica como estresse intenso durante os jogos pode afetar pressão
arterial e frequência cardíaca, principalmente em pacientes com história de
doença cardiovascular
Jogos decisivos da Copa do Mundo de futebol costumam mobilizar emoções intensas entre os torcedores. Gritos, ansiedade, tensão nos pênaltis, comemorações e frustrações fazem parte da experiência de acompanhar uma partida importante. Para a maioria das pessoas saudáveis, esse estresse pontual não representa grande risco à saúde. Mas, em torcedores com hipertensão, diabetes, arritmias, colesterol alto, histórico de infarto, acidente vascular cerebral (derrame) ou outras doenças cardiovasculares, a sobrecarga emocional pode funcionar como um gatilho para descompensações.
Uma pesquisa publicada em 2021 na revista Scientific Reports, da Nature, avaliou internações por infarto na Alemanha durante a Copa do Mundo de 2014 e comparou os dados com períodos equivalentes de 2013 e 2015. O estudo identificou maior número de internações por infarto durante o Mundial de 2014: 18.479 casos, contra 18.089 em 2013 e 17.794 em 2015. Apesar disso, os autores não observaram aumento geral da mortalidade hospitalar por infarto durante o torneio.
Já uma revisão publicada em 2025 no International Journal of Innovative Technologies in Social Science reforça que partidas emocionalmente intensas podem funcionar como gatilho cardiovascular em pessoas vulneráveis. O artigo cita, por exemplo, um estudo realizado durante a Copa de 2006 na Alemanha, que observou incidência 2,7 vezes maior de eventos cardiovasculares em dias de jogos da seleção alemã, e outro sobre a Eurocopa de 1996, que associou a eliminação da Holanda nos pênaltis a um aumento de cerca de 50% na mortalidade cardiovascular e por AVC entre homens do país no dia da partida.
Apesar dos achados, os pesquisadores da publicação ressaltam que essa relação não é uniforme em todos os estudos e pode ser influenciada por fatores como consumo de álcool, tabagismo, alimentação inadequada, privação de sono e condições prévias de saúde.
Segundo o Prof. Dr. Álvaro Avezum, Head do Centro Especializado em Cardiologia e Diretor de Pesquisa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, esse tipo de informação deve ser interpretado com sensatez. O alerta não significa que assistir a uma partida vá causar infarto em qualquer pessoa, mas reforça que situações de estresse agudo podem impactar o sistema cardiovascular, principalmente quando encontram um organismo já vulnerável.
“A emoção de um jogo importante ativa respostas do organismo relacionadas ao estresse. Há liberação de adrenalina, aumento da frequência cardíaca e elevação da pressão arterial. Em uma pessoa saudável, isso tende a ser bem tolerado. Mas, em quem já tem doença coronariana, hipertensão mal controlada ou predisposição a arritmias, esse esforço adicional pode contribuir para uma intercorrência cardiovascular”, explica.
Durante uma partida tensa, o coração pode trabalhar mais. A elevação da pressão arterial e dos batimentos cardíacos aumenta a demanda de oxigênio pelo músculo cardíaco. Em pessoas com obstruções nas artérias coronárias, por exemplo, esse desequilíbrio pode favorecer dor no peito, falta de ar, arritmias ou outros sintomas. O risco pode ser maior quando a emoção do jogo se soma a consumo excessivo de álcool, alimentação muito pesada, privação de sono ou longos períodos sem descanso e estresse crônico (famliar, financeiro, no trabalho ou na sociedade).
Para torcedores hipertensos ou com outros fatores de risco, a principal recomendação é não tratar o dia de jogo como uma pausa nos cuidados. Medicamentos de uso contínuo devem ser mantidos nos horários habituais, inclusive em dias de partida. Também é importante evitar excesso de consumo de sal, moderar significativamente a ingestão de bebidas alcoólicas, não fumar nunca, manter hidratação e, quando houver orientação médica, acompanhar a pressão arterial.
“Quem tem fatores de risco cardiovascular associados a infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral: tabagismo, hipertensão, diabetes, colesterol alterado, obesidade abdominal, sedentarismo, alimentação não saudável, estresse e depressão ou histórico cardíaco não precisa deixar de torcer, mas deve evitar que a Copa vire um período de desorganização completa da rotina de saúde e estresse elevado. O jogo passa, mas o controle dessas condições precisa continuar todos os dias”. Vida longa com qualidade para continuar torcendo, afirma o cardiologista.
O especialista reforça ainda que alguns sintomas não devem ser atribuídos apenas ao nervosismo da partida. Dor ou pressão no peito, falta de ar, desmaio, palpitações persistentes, suor frio, tontura intensa ou mal-estar fora do habitual exigem avaliação médica. Nesses casos, a orientação é procurar atendimento imediatamente. “Atendimento precoce salva vidas e reduz incapacitação”, enfatiza Dr. Avezum.
“O Pronto Atendimento tem papel importante nesses casos porque permite avaliar rapidamente se o sintoma está relacionado apenas a uma resposta emocional ou se há uma emergência cardiovascular em curso. Na dúvida, especialmente em pacientes com fatores de risco, o mais seguro é não esperar o jogo acabar, pois o resultado melhor não é o do jogo e sim de sua saúde”, orienta.
A mensagem, segundo o médico, não é transformar a Copa em motivo de medo, mas lembrar que a torcida também pode ser vivida com cuidado. Para quem já tem risco cardiovascular, pequenas escolhas durante esse período ajudam a reduzir a chance de descompensações.
“A Copa é um momento de lazer, encontro e celebração. O cuidado é
para que a emoção dos jogos não se some a outros fatores que sobrecarregam o
coração. Para quem já tem risco cardiovascular, respeitar os próprios limites
faz diferença. Seja o maior torcedor de sua saúde, sempre”, conclui.
Hospital Alemão Oswaldo Cruz
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