Dez anos de dados hospitalares, levantados pelo Grupo IAG Saúde, revelam 1,6 milhão de internações, 78 mil óbitos e um impacto econômico estimado em R$ 11,4 bilhões — números que apontam para falhas estruturais na atenção preventiva ao diabético no Brasil
Toda vez que um paciente diabético perde uma perna no Brasil, o sistema de saúde gasta, em média, quase R$ 30 mil para tentar salvá-lo — e nem sempre consegue. Entre 2015 e 2025, mais de dez mil brasileiros com diabetes foram submetidos a amputações durante internações hospitalares. Quase 900 morreram. São números que deveriam provocar urgência, mas que ainda convivem com filas de espera, consultas adiadas e receitas não retiradas. No mês marcado pelo Dia Nacional do Diabetes (26 de junho), os dados de um estudo inédito revelam a dimensão real de uma epidemia silenciosa que corrói, literalmente, o corpo do país.
R$ 11,4 bi Custo estimado das internações por diabetes no Brasil Entre 2021 e 2025, o impacto econômico do diabetes e de suas complicações nos hospitais brasileiros ultrapassou R$ 11,4 bilhões, segundo estimativa baseada no DATASUS e na Plataforma DRG Brasil.
O
estudo do Grupo IAG Saúde cruzou duas grandes bases de dados nacionais: os
microdados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS – DATASUS) e
a Plataforma DRG Brasil, ferramenta de análise assistencial e econômica
utilizada por hospitais públicos e privados de todo o país. Juntos, os dados
cobrem mais de 1,6 milhão de internações relacionadas ao diabetes entre 2015 e
2025 — um retrato abrangente e inédito da crise crônica que o diabetes
representa para o sistema de saúde brasileiro.
Uma doença que não escolhe alvo — mas tem preferências
O diabetes mellitus não mata de uma vez. Ele corrói. Age sorrateiramente sobre vasos sanguíneos, nervos, rins e coração — e quando chega ao hospital, já chegou tarde. Dos 262.683 pacientes avaliados pela Plataforma DRG Brasil entre 2021 e 2025, o perfil é revelador:
homens
(55% dos casos), com idade média de 63 anos e diagnósticos que vão muito além
da glicose elevada.
O estudo analisou internações por complicações com associação conhecida ao diabetes — como doenças cardiovasculares, vasculares periféricas, renais e neurológicas — em que o diabetes estava registrado no prontuário. Dentro desse conjunto, as condições cardiovasculares tiveram peso importante: o grupo mais frequente foi o de pacientes que precisaram de cirurgia cardiovascular percutânea com stent farmacológico (18,9% dos casos), seguido pelas internações classificadas diretamente como diabetes (14%), infarto cerebral ou hemorragia intracraniana (11,5%), infarto agudo do miocárdio (6,8%) e doenças vasculares periféricas (5,7%). Não por acaso: são exatamente essas as complicações que o diabetes, mal controlado ao longo dos anos, mais frequentemente desencadeia.
A
complexidade dessas internações é expressiva. O índice casemix médio — uma
medida que quantifica a complexidade clínica dos pacientes, onde 1,0 representa
a média geral hospitalar — foi de 1,81 para o conjunto das internações
relacionadas ao diabetes. Isso significa que esses pacientes demandam quase o
dobro de recursos assistenciais em comparação com um paciente hospitalizado por
causas comuns. A permanência média foi de 8,7 dias, e o custo médio por internação
atingiu R$ 14.869.
Complexidade máxima: o perfil das amputações relacionadas ao diabetes
Dentro desse universo já grave, existe um grupo ainda mais crítico: os pacientes que chegam ao hospital e saem — quando saem — sem um membro. As amputações relacionadas ao diabetes representam apenas 0,7% do total de internações avaliadas na Plataforma DRG Brasil, mas concentram um impacto desproporcional em todos os indicadores assistenciais.
Esses pacientes ficam, em média, 20,7 dias internados — mais do que o dobro da média geral. Seu índice de complexidade clínica (casemix) chega a 3,44, valor quase o dobro do observado no conjunto das internações por diabetes e mais de três vezes a média hospitalar. O custo médio por internação com amputação é de R$ 29.261 — quase o dobro da média geral do grupo. E a mortalidade hospitalar entre eles chega a 10,8%, enquanto a média do grupo como um todo é de 6,2%.
10,8% Mortalidade hospitalar entre diabéticos amputados Pacientes com diabetes submetidos à amputação têm taxa de óbito hospitalar quase o dobro da média dos demais internados por diabetes (6,2%), segundo a Plataforma DRG Brasil (2021–2025).
Os dados do DATASUS confirmam o padrão em escala nacional. Entre 2015 e 2025, as 10.387 internações envolvendo amputações em diabéticos resultaram em 892 mortes — taxa de mortalidade de 8,6%, frente a 4,8% do conjunto geral. No Estado de São Paulo, a situação é igualmente preocupante: foram 7.921 internações com amputação entre 2021 e 2025, com 567 óbitos e mortalidade de 7,2%.
O
perfil de quem passa por uma amputação também é revelador. Homens representam
70,6% dos casos na Plataforma DRG Brasil e 66,9% no DATASUS — uma diferença
significativa em relação à distribuição geral das internações por diabetes. A
idade média dos amputados é de 66,8 anos, e quase 44% têm 70 anos ou mais. Mas
é importante compreender: essas pessoas não são vítimas de uma inevitabilidade
biológica. São, em grande parte, resultado de décadas de acesso precário ao
cuidado preventivo.
O peso invisível sobre o SUS: R$ 1,7 bilhão em dez anos
Entre 2015 e 2025, o sistema público de saúde pagou R$ 1,72 bilhão em remuneração hospitalar relacionada ao diabetes — e isso representa apenas a fração que o SUS efetivamente repassa aos hospitais, frequentemente aquém do custo real das internações. Quando se estima o custo assistencial total dessas internações usando como referência os valores médios observados na Plataforma DRG Brasil, o impacto ultrapassa R$ 11,4 bilhões entre 2021 e 2025.
As
internações com amputação responderam por cerca de R$ 15,9 milhões em
remuneração pelo SUS ao longo da série histórica — mas a estimativa de custo
assistencial real dessas internações, no mesmo período, ultrapassa R$ 153
milhões. A diferença entre o que o SUS paga e o que o cuidado efetivamente
custa é, por si só, um diagnóstico do subfinanciamento crônico do sistema.
A prevenção que não chegou
Os dados revelam não apenas a magnitude do problema, mas o seu caráter evitável. Amputações relacionadas ao diabetes são, em sua esmagadora maioria, complicações de um processo que leva anos para se instalar e que pode ser detido com acompanhamento adequado, controle glicêmico, cuidado com os pés e acesso oportuno à atenção especializada.
O problema começa antes da amputação. Começa na falta de diagnóstico precoce — estima-se que milhões de brasileiros convivam com diabetes sem saber. Continua no acompanhamento fragmentado, nas consultas esporádicas, na dificuldade de acesso a medicamentos e insumos. E se complica quando uma ferida pequena no pé, ignorada ou mal tratada, evolui para necrose em semanas.
A taxa
de mortalidade hospitalar no Brasil entre pacientes com diabetes — seja 4,8% no
SUS ou 6,2% na Plataforma DRG Brasil — não é apenas um número. É um indicador
de onde o sistema falhou antes do hospital. Cada internação grave por
complicação diabética carrega, embutida, uma oportunidade perdida de cuidado
preventivo.
O que os números não dizem — mas a clínica sabe
Por trás de cada linha de dado há uma pessoa. Um homem de 67 anos que trabalhou a vida inteira, teve o diagnóstico de diabetes aos 55, esqueceu de checar os pés por meses, sentiu pouco porque a neuropatia tinha anestesiado os nervos — e chegou ao pronto-socorro com uma ferida já comprometida. Dois meses de internação. Custo: R$ 29 mil. Desfecho: amputação. Esse é o rosto mais comum da epidemia.
Os
dados são consistentes em dois bancos independentes, cobrem uma década, e
apontam na mesma direção: o diabetes no Brasil é uma crise de saúde pública que
se manifesta dentro dos hospitais, mas que precisa ser resolvida fora deles —
na atenção básica, nos programas de rastreamento, no acesso a medicamentos, na
educação em saúde e na valorização do acompanhamento longitudinal.
OS
NÚMEROS DA EPIDEMIA
1,6
milhão
Internações
relacionadas ao diabetes no SUS entre 2015 e 2025
78.157
Óbitos
hospitalares em dez anos de dados do DATASUS
20,7
dias
Tempo
médio de internação de diabéticos amputados — mais do dobro da média do grupo
R$ 29 mil
Custo
médio por internação com amputação (Plataforma DRG Brasil, 2021–2025)
70,6%
Proporção
de homens entre os pacientes diabéticos submetidos à amputação
O
QUE VOCÊ PODE FAZER PREVENÇÃO & CUIDADO ATIVO
1. Faça o
exame de glicemia em jejum
Adultos
acima de 45 anos — ou mais jovens com fatores de risco como obesidade,
hipertensão ou
histórico
familiar — devem realizar o exame anualmente. O diagnóstico precoce muda
completamente
o prognóstico.
2. Examine
seus pés todo dia
Diabéticos
devem inspecionar os pés diariamente, incluindo entre os dedos. Qualquer
ferida,
calosidade
ou mudança de cor deve ser avaliada por um profissional de saúde imediatamente
— não
espere
piorar.
3. Não
abandone o tratamento
Tomar
a medicação de forma irregular ou parar sem orientação médica é uma das principais
causas
de
complicações graves. Em caso de dificuldade para obter os medicamentos, procure
a UBS —
muitos
estão disponíveis gratuitamente pelo SUS.
4. Cuide da
alimentação sem radicalismo
Reduzir
açúcar refinado, ultraprocessados e bebidas adoçadas já produz impacto no
controle
glicêmico.
Não é preciso eliminar grupos alimentares inteiros — mudanças graduais e
sustentáveis
são
mais eficazes.
5. Movimente-se
regularmente
30
minutos de caminhada na maioria dos dias da semana reduz a resistência à
insulina, controla o
peso e
diminui o risco cardiovascular. Não precisa ser academia: qualquer atividade
física conta.

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