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quarta-feira, 10 de junho de 2026

Até 45% dos profissionais da saúde relatam barreiras para denunciar falhas em hospitais


Falhas na troca de informações entre equipes de saúde, dimensionamento de equipes, sobrecarga dos profissionais e dificuldades na comunicação ainda estão entre os principais desafios enfrentados pelos hospitais brasileiros. É o que mostra o levantamento nacional sobre cultura de segurança do paciente realizado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) em parceria com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

 

Os dados fazem parte do Painel Analítico de Cultura de Segurança do Paciente, considerado atualmente uma das maiores bases nacionais sobre segurança hospitalar. Lançado em 27 de abril de 2026, o sistema reúne quase 200 mil respostas de profissionais da saúde coletadas em mais de 1,1 mil avaliações realizadas em hospitais de todo o país.

 

A pesquisa reflete a situação da Cultura de Segurança no Brasil, com um escore global de cultura de segurança em 63.8%. Entre os indicadores mais críticos do levantamento está o item “problemas em mudanças de turno e transições entre unidades e serviços”, que registrou apenas 52,6% de respostas positivas. Na prática, o dado mostra que quase a metade dos profissionais percebe falhas na transferência de informações e cuidados entre equipes e setores hospitalares - um dos momentos considerados mais sensíveis para ocorrência de falhas assistenciais.

 

O Instituto Brasileiro de Direito do Paciente (IBDPAC) enfatiza que falhas de comunicação, especialmente durante trocas de plantão, admissões de pacientes e transferências entre setores ou instituições podem comprometer a segurança assistencial. Essas falhas dificultam a educação para a alta, a definição de processos clínicos, a tomada de decisão, o diagnóstico e a adoção de condutas em tempo oportuno, aumentando os riscos e danos evitáveis.

 

A pesquisa também identificou fragilidades na forma como os hospitais lidam com falhas assistenciais. O indicador de "resposta institucional aos erros" registrou apenas 5,4% de respostas positivas, o que sugere uma clara dificuldade das instituições em transformar falhas em aprendizado organizacional. Esse cenário se reflete diretamente no comportamento das equipes: estima-se que entre 50% e 70% dos erros deixem de ser notificados por receio de processos judiciais ou represálias.

 

"A maioria dos profissionais não tem segurança suficiente para comunicar falhas por receio de sofrer retaliação e principalmente por falta de políticas institucionais claras ou mesmo falta de segurança psicológica, com ambientes seguros para que possam relatar erros, pedir ajuda, falar de dúvidas, criticar um processo frágil”, ressalta a diretora do IBDPAC, Claudia Matias. A cultura punitiva é outro dado da pesquisa que chama a atenção, com 33.5% de resultado para a percepção de resposta não punitiva quando erros ocorrem.

 

“Esse contexto não auxilia, ao contrário, pode contribuir para que problemas e falhas sejam ocultados e agravados. Quando não há uma forte diretriz institucional e apoio das lideranças, o medo e o silêncio tendem a predominar, com aumento de omissões, o que certamente pode comprometer a segurança do paciente”, reafirma a diretora.

 

A especialista destaca que o gerenciamento de riscos em saúde não depende exclusivamente dos profissionais, mas de estruturas organizacionais estruturadas, processos bem definidos, riscos mapeados, sistemas de barreiras efetivas e uma cultura voltada à prevenção e ao aprendizado contínuo.

 

Como alternativa para reduzir as mais de 480 mil falhas assistenciais registradas anualmente no Brasil, especialistas defendem a adoção de modelo não punitivo e baseado na chamada Cultura Justa, que busca equilibrar responsabilidade individual e aprendizado organizacional. “Instituições que promovem transparência, canais de escuta e ambientes seguros para discussão de erros e problemas tendem a aumentar as notificações de incidentes. Isso fortalece a capacidade de aprendizado, previne recorrências e aumenta a resiliência dos sistemas de saúde, contribuindo para a redução de eventos adversos - danos evitáveis aos pacientes”, ressalta Claudia.

 

Outro ponto considerado estratégico foi o de abertura para comunicação, que apresentou índices entre 55% e 58%. O indicador indica o quanto os profissionais têm liberdade e confiança para relatar riscos, questionar decisões e apontar problemas dentro das organizações.

 

“É fundamental criar ambientes em que as pessoas possam falar sobre falhas, riscos e oportunidades de melhoria, sem medo de represálias. Isso exige líderes preparados para promover confiança, aprendizado e fortalecimento da cultura de segurança, em todos os níveis da organização.”

 

Nova cultura necessária - Os dados também demonstram que os hospitais brasileiros vêm ampliando esforços relacionados à qualidade assistencial, segurança do paciente e melhoria contínua dos processos.

 

Com mais de três décadas de atuação na gestão hospitalar, a diretora destaca importantes marcos históricos da segurança do paciente, como a criação da Aliança Mundial para a Segurança do Paciente, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2004, e a instituição do Programa Nacional de Segurança do Paciente (PNSP), por meio da Portaria nº 529 do Ministério da Saúde, em 2013.

 

Recentemente, o tema ganhou ainda mais relevância com a promulgação da Lei nº 15.378/2026 - Estatuto dos Direitos do Paciente, que reforça os direitos relacionados à informação clara, comunicação adequada, transparência, segurança assistencial e participação do paciente nas decisões sobre seu próprio tratamento.  Para a diretora, a nova legislação chega em momento mais que especial e vem impulsionar mudanças importantes na cultura das organizações de saúde.

 

“Esta pesquisa dialoga diretamente com os desafios contemplados pela nova legislação. Falhas de comunicação, problemas nas transições de cuidado e dificuldades na gestão de erros estão entre os fatores mais relevantes para a segurança do paciente e para a efetivação do direito relacionado ao acesso a cuidados em saúde de qualidade, em tempo oportuno, em instalações adequadas e ser atendido por profissionais capacitados”, afirma Claudia.

 

“O Estatuto dos Direitos do Paciente representa uma oportunidade para acelerar investimentos em governança clínica, capacitação profissional, protocolos de segurança e melhoria da comunicação entre equipes e pacientes. A governança das instituições públicas e privadas será determinante para fortalecer estruturas, desenvolver competências e consolidar uma cultura de segurança capaz de gerar benefícios para pacientes, profissionais e organizações”, conclui.

 

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