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quarta-feira, 10 de junho de 2026

Após anos de evidência, CFM libera HIFU como terapia para câncer de próstata

Decisão do Conselho Federal de Medicina (CFM) reconhece o ultrassom focalizado de alta intensidade (HIFU) como procedimento não experimental no país e se apoia no amadurecimento da literatura científica, incluindo estudos com participação do urologista e cirurgião oncológico Gustavo Cardoso Guimarães, que apontam resultados consistentes em controle oncológico e preservação funcional em pacientes selecionados 

 

O Conselho Federal de Medicina (CFM), regulamenta a indicação e execução do ultrassom  focado de alta intensidade (HIFU) como alternativa  de tratamento do câncer de próstata localizado. A publicação da norma, ocorrida em 27 de maio de 2026, ocorre após anos de acúmulo de evidências clínicas, entre elas estudos com participação do urologista e cirurgião oncológico Gustavo Cardoso Guimarães, diretor do Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia Robótica (IUCR) e coordenador dos Departamentos Cirúrgicos Oncológicos da BP, que ajudaram a sustentar a segurança e a eficácia da tecnologia. A decisão alinha o Brasil ao cenário internacional e consolida o método como parte dos protocolos terapêuticos disponíveis para casos selecionados da doença.

A medida marca uma mudança relevante no entendimento regulatório sobre a tecnologia no país e acompanha a evolução da evidência científica internacional ao longo das últimas duas décadas. O HIFU utiliza ondas de ultrassom de alta intensidade para promover necrose térmica do tecido tumoral, atingindo temperaturas elevadas e permitindo a destruição precisa das células cancerígenas, com possibilidade de preservação das áreas saudáveis da próstata. “A decisão do CFM reflete um amadurecimento da evidência científica e da experiência clínica acumulada ao longo dos últimos anos. Hoje, temos dados mais consistentes que mostram que o HIFU pode oferecer controle oncológico adequado em pacientes bem selecionados, com menor impacto funcional”, afirma Guimarães. 

A tecnologia é uma modalidade minimamente invasiva e pode ser aplicada tanto em toda a próstata, quanto de forma focal, dependendo da extensão e localização do tumor. O procedimento é realizado com auxílio de imagem em tempo real, permitindo planejamento tridimensional e direcionamento preciso da energia para a área a ser tratada. “A grande vantagem do HIFU está na possibilidade de tratar de forma focal, preservando estruturas importantes relacionadas à continência urinária e à função sexual. Isso pode reduzir significativamente os efeitos colaterais quando comparado a abordagens mais radicais”, explica o especialista.

Evidência clínica e participação brasileira

A consolidação do HIFU como opção terapêutica está diretamente associada ao crescimento da produção científica nos últimos anos, incluindo estudos conduzidos no Brasil e com participação ativa de Guimarães. Um dos trabalhos mais recentes foi publicado em março de 2026 na revista Prostate International, no qual se avaliou 208 pacientes submetidos ao HIFU em um centro brasileiro. O estudo demonstrou que o escore CAPRA é um preditor independente de recorrência bioquímica e falha terapêutica, com capacidade de estratificar risco de forma consistente ao longo do seguimento . Os resultados mostraram sobrevida livre de recorrência em cinco anos de 81,5% para pacientes de baixo risco, 50,7% para risco intermediário e 16,4% para alto risco, reforçando a importância da seleção adequada dos casos.

Outro estudo relevante, publicado em 2025 em periódico internacional especializado em endourologia (Journal of Endourology), analisou 227 pacientes tratados com HIFU de glândula inteira entre 2011 e 2019. Com seguimento mediano de 47 meses, os autores observaram taxas de sobrevida livre de falha de 97% em um ano, 82% em três anos e 75% em cinco anos. A sobrevida livre de metástases em cinco anos foi de 93% e a sobrevida específica por câncer, de 97%. Do ponto de vista funcional, 83% dos pacientes permaneceram continentes, e cerca de 62% mantiveram função erétil suficiente para relação sexual.

Já em 2023, uma revisão de melhores práticas publicada na revista European Urology, com participação de Guimarães, reuniu evidências de 29 estudos internacionais sobre terapias ablativas, incluindo HIFU, com seguimento mediano de até seis anos. A análise indicou que o método apresenta resultados oncológicos intermediários a longo prazo comparáveis a outras modalidades de tratamento, além de altas taxas de preservação da continência urinária, próximas de 96% e manutenção da função erétil em parcela relevante dos pacientes.

Da cautela à incorporação

A decisão atual do CFM representa uma revisão do posicionamento adotado anteriormente. Em 2020, por meio de parecer técnico, o órgão recomendou que o HIFU fosse utilizado apenas em contexto de pesquisa clínica, citando limitações da evidência disponível à época, como a ausência de ensaios clínicos randomizados comparativos e o curto tempo de seguimento. O documento também destacava a heterogeneidade dos estudos, a dificuldade de padronização dos critérios de falha terapêutica e a necessidade de acompanhamento mais prolongado para avaliação da eficácia oncológica. Desde então, o avanço tecnológico, a ampliação das casuísticas e a publicação de estudos mais robustos contribuíram para a reavaliação do método.

Indicação criteriosa e decisão compartilhada

Apesar do reconhecimento como procedimento não experimental, especialistas reforçam que o HIFU não substitui abordagens tradicionais, como cirurgia ou radioterapia e deve ser indicado de forma individualizada. “Não é uma tecnologia para todos os pacientes. O sucesso do tratamento depende de uma seleção adequada, considerando características do tumor, perfil clínico e expectativa do paciente”, afirma Guimarães. Segundo ele, a decisão terapêutica deve ser compartilhada e baseada em discussão detalhada das opções disponíveis. “O HIFU amplia o leque de possibilidades, mas precisa ser utilizado com responsabilidade, dentro de critérios bem definidos”, completa.

Perspectivas

A incorporação do HIFU no Brasil abre caminho para maior disseminação da tecnologia e potencial ampliação do acesso, especialmente em centros especializados. Ao mesmo tempo, há espaço para avanços, incluindo estudos comparativos de longo prazo, padronização de protocolos e definição mais efetiva de critérios de indicação. Com o reconhecimento do CFM, afirma Guimarães, o país passa a acompanhar uma tendência internacional de valorização de terapias menos invasivas, com foco não apenas no controle da doença, mas também na qualidade de vida dos pacientes.

 

 

 

Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia Robótica Dr. Gustavo Guimarães – IUCR

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