Decisão do Conselho Federal de Medicina (CFM) reconhece o ultrassom focalizado de alta intensidade (HIFU) como procedimento não experimental no país e se apoia no amadurecimento da literatura científica, incluindo estudos com participação do urologista e cirurgião oncológico Gustavo Cardoso Guimarães, que apontam resultados consistentes em controle oncológico e preservação funcional em pacientes selecionados
O Conselho Federal de Medicina (CFM), regulamenta a indicação e execução do ultrassom focado de alta
intensidade (HIFU) como alternativa de tratamento do câncer de próstata
localizado. A publicação da norma, ocorrida em 27 de maio de
2026, ocorre após anos de acúmulo de evidências clínicas, entre elas estudos
com participação do urologista e cirurgião oncológico Gustavo Cardoso
Guimarães, diretor do Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia Robótica
(IUCR) e coordenador dos Departamentos Cirúrgicos Oncológicos da BP, que
ajudaram a sustentar a segurança e a eficácia da tecnologia. A decisão alinha o
Brasil ao cenário internacional e consolida o método como parte dos protocolos
terapêuticos disponíveis para casos selecionados da doença.
A medida marca uma mudança relevante no
entendimento regulatório sobre a tecnologia no país e acompanha a evolução da
evidência científica internacional ao longo das últimas duas décadas. O HIFU
utiliza ondas de ultrassom de alta intensidade para promover necrose térmica do
tecido tumoral, atingindo temperaturas elevadas e permitindo a destruição
precisa das células cancerígenas, com possibilidade de preservação das áreas
saudáveis da próstata. “A decisão do CFM reflete um amadurecimento da evidência
científica e da experiência clínica acumulada ao longo dos últimos anos. Hoje,
temos dados mais consistentes que mostram que o HIFU pode oferecer controle
oncológico adequado em pacientes bem selecionados, com menor impacto
funcional”, afirma Guimarães.
A tecnologia é uma modalidade minimamente invasiva
e pode ser aplicada tanto em toda a próstata, quanto de forma focal, dependendo
da extensão e localização do tumor. O procedimento é realizado com auxílio de
imagem em tempo real, permitindo planejamento tridimensional e direcionamento
preciso da energia para a área a ser tratada. “A grande vantagem do HIFU está
na possibilidade de tratar de forma focal, preservando estruturas importantes
relacionadas à continência urinária e à função sexual. Isso pode reduzir
significativamente os efeitos colaterais quando comparado a abordagens mais
radicais”, explica o especialista.
Evidência clínica e
participação brasileira
A consolidação do HIFU como opção terapêutica está
diretamente associada ao crescimento da produção científica nos últimos anos,
incluindo estudos conduzidos no Brasil e com participação ativa de Guimarães.
Um dos trabalhos mais recentes foi publicado em março de 2026 na revista Prostate International, no qual se
avaliou 208 pacientes submetidos ao HIFU em um centro brasileiro. O estudo
demonstrou que o escore CAPRA é um preditor independente de recorrência
bioquímica e falha terapêutica, com capacidade de estratificar risco de forma
consistente ao longo do seguimento . Os resultados mostraram sobrevida livre de
recorrência em cinco anos de 81,5% para pacientes de baixo risco, 50,7% para
risco intermediário e 16,4% para alto risco, reforçando a importância da
seleção adequada dos casos.
Outro estudo relevante, publicado em 2025 em periódico
internacional especializado em endourologia (Journal of Endourology), analisou 227
pacientes tratados com HIFU de glândula inteira entre 2011 e 2019. Com
seguimento mediano de 47 meses, os autores observaram taxas de sobrevida livre
de falha de 97% em um ano, 82% em três anos e 75% em cinco anos. A sobrevida
livre de metástases em cinco anos foi de 93% e a sobrevida específica por
câncer, de 97%. Do ponto de vista funcional, 83% dos pacientes permaneceram
continentes, e cerca de 62% mantiveram função erétil suficiente para relação
sexual.
Já em 2023, uma revisão de melhores práticas publicada na revista European
Urology, com participação de Guimarães, reuniu evidências de 29
estudos internacionais sobre terapias ablativas, incluindo HIFU, com seguimento
mediano de até seis anos. A análise indicou que o método apresenta resultados
oncológicos intermediários a longo prazo comparáveis a outras modalidades de
tratamento, além de altas taxas de preservação da continência urinária,
próximas de 96% e manutenção da função erétil em parcela relevante dos
pacientes.
Da cautela à incorporação
A decisão atual do CFM representa uma revisão do
posicionamento adotado anteriormente. Em 2020, por meio de parecer técnico, o órgão recomendou que o
HIFU fosse utilizado apenas em contexto de pesquisa clínica, citando limitações
da evidência disponível à época, como a ausência de ensaios clínicos
randomizados comparativos e o curto tempo de seguimento. O documento também
destacava a heterogeneidade dos estudos, a dificuldade de padronização dos
critérios de falha terapêutica e a necessidade de acompanhamento mais
prolongado para avaliação da eficácia oncológica. Desde então, o avanço
tecnológico, a ampliação das casuísticas e a publicação de estudos mais
robustos contribuíram para a reavaliação do método.
Indicação criteriosa e decisão
compartilhada
Apesar do reconhecimento como procedimento não experimental,
especialistas reforçam que o HIFU não substitui abordagens tradicionais, como
cirurgia ou radioterapia e deve ser indicado de forma individualizada. “Não é
uma tecnologia para todos os pacientes. O sucesso do tratamento depende de uma
seleção adequada, considerando características do tumor, perfil clínico e
expectativa do paciente”, afirma Guimarães. Segundo ele, a decisão terapêutica
deve ser compartilhada e baseada em discussão detalhada das opções disponíveis.
“O HIFU amplia o leque de possibilidades, mas precisa ser utilizado com
responsabilidade, dentro de critérios bem definidos”, completa.
Perspectivas
A incorporação do HIFU no Brasil abre caminho para
maior disseminação da tecnologia e potencial ampliação do acesso, especialmente
em centros especializados. Ao mesmo tempo, há espaço para avanços, incluindo
estudos comparativos de longo prazo, padronização de protocolos e definição
mais efetiva de critérios de indicação. Com o reconhecimento do CFM, afirma
Guimarães, o país passa a acompanhar uma tendência internacional de valorização
de terapias menos invasivas, com foco não apenas no controle da doença, mas
também na qualidade de vida dos pacientes.
Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia
Robótica Dr. Gustavo Guimarães – IUCR

Nenhum comentário:
Postar um comentário