O setor de viagens corporativas voltou a crescer no
Brasil. Segundo o Levantamento de Viagens Corporativas realizado pela
Fecomercio em parceria com a Alagev, o segmento movimentou R$ 135,4 bilhões até
novembro de 2025, um recorde que confirma a retomada do turismo de negócios e a
reativação da economia.
O que chama menos atenção, no entanto, é a forma
como grande parte desse volume ainda é administrada dentro das empresas.
Há um descompasso evidente entre crescimento
financeiro e maturidade de gestão. Enquanto o setor avança em faturamento,
muitas organizações continuam operando com processos fragmentados, controles
posteriores ao gasto e baixa integração entre sistemas. A despesa nasce
digital, mas o controle segue analógico, dependente de planilhas paralelas, conferência
manual de recibos e cruzamentos feitos depois que o dinheiro já saiu do caixa.
Em um cenário de custos pressionados, como mostra a
alta de até 12,7% nas passagens aéreas nos últimos meses de 2025, segundo o
IBGE, essa lógica deixa de ser apenas ineficiente e passa a ser arriscada. A
falta de visibilidade em tempo real compromete a previsibilidade orçamentária,
reduz o poder de negociação e transforma a gestão em um exercício de correção,
não de antecipação.
Além disso, existe ainda um custo menos mensurável,
mas igualmente relevante, que é o tempo das equipes. Profissionais qualificados
seguem dedicando horas a tarefas operacionais porque os sistemas não conversam
entre si. Conferem recibos, ajustam inconsistências, revisam aprovações
sequenciais, quando poderiam estar analisando dados, negociando contratos ou
revisando políticas com base em evidências concretas.
É nesse ponto que a inteligência artificial (IA)
deixa de ser tendência e se torna infraestrutura. Chatbots e copilotos de IA
conseguem orientar colaboradores sobre políticas de viagem, sugerir rotas mais
econômicas, comparar fornecedores e até automatizar processos de aprovação em
tempo real. Ferramentas como o Joule, assistente de IA da SAP, começam a
mostrar como a interação conversacional pode simplificar tarefas que antes
exigiam múltiplos sistemas e etapas manuais.
Quando integrada à gestão de viagens, a IA altera a
lógica do processo ao capturar o dado na origem, validar automaticamente
políticas internas, identificar padrões de consumo e sinalizar desvios antes
que se transformem em problema. O controle deixa de ser retrospectivo e passa a
ser preventivo, o que muda completamente a dinâmica da área financeira.
Com informações consolidadas e analisadas em tempo
real, a empresa ganha capacidade de simular cenários, ajustar parâmetros de
gastos, entender comportamento por área ou projeto e renegociar fornecedores
com base em dados estruturados. A tecnologia não substitui o julgamento humano,
mas amplia sua capacidade analítica e libera energia para decisões
estratégicas.
O impacto também aparece na experiência de quem
viaja. Sistemas inteligentes reconhecem padrões, preenchem automaticamente
informações recorrentes, reduzem fricção no processo de prestação de contas e
encurtam fluxos de aprovação. O colaborador ganha tempo e clareza, enquanto a
organização ganha governança e transparência.
Observo diariamente que as empresas que já adotaram
modelos integrados conseguem uma redução relevante nas despesas relacionadas a
viagens, mas o benefício mais consistente é a previsibilidade. Saber onde se
gasta, por que se gasta e como ajustar antes que o custo comprometa margens
cria uma nova camada de maturidade operacional.
O desafio maior não está na tecnologia disponível,
mas na mudança de mentalidade. Durante anos, viagens corporativas foram
tratadas como item administrativo, com foco na autorização do deslocamento e na
conferência posterior dos gastos. A inteligência entrava no fechamento do mês,
quando as decisões já não podiam mais ser alteradas.
Em um ambiente de maior rigor orçamentário e
pressão por eficiência, essa abordagem se mostra insuficiente. A inteligência
artificial permite que a gestão deixe de ser um processo burocrático e se torne
uma ferramenta estratégica, conectando dados, comportamento e decisão em um
fluxo contínuo.
O crescimento do setor é um sinal positivo da
economia, mas crescimento sem inteligência integrada amplia complexidade e
exposição a riscos. A questão central não é apenas quanto a empresa investe em
viagens, mas como ela transforma esse investimento em informação qualificada,
capacidade preditiva e vantagem competitiva.
No fim, maturidade na gestão de viagens
corporativas não será medida pelo volume de deslocamentos, mas pela qualidade
da inteligência aplicada a cada decisão. E cada vez mais essa inteligência será
artificial, ampliando o potencial humano dentro das organizações em vez de
substituí-lo.
Silvio Abade Jr. - CEO da KSE Brasil
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