A mostra temporária Ouro Negro e o Dragão, da artista plástica Camila Arruda, traz 15 obras inéditas que utilizam pigmentos naturais, materiais não convencionais e folhas de ouro para narrar a ascensão do grão brasileiro no país oriental
A partir de 24 de abril, o Museu do Café (MC) —
instituição da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado
de São Paulo — recebe a mostra temporária Ouro Negro e o Dragão, da
artista plástica Camila Arruda. Com 15 obras inéditas, a exposição resulta da
investigação da autora sobre o crescimento da China como um dos principais
importadores do café brasileiro. A partir desse contexto, propõe um olhar
sensível sobre as mudanças recentes em uma cultura historicamente associada ao
consumo de chá, articulando questões sociais, simbólicas e contemporâneas. A
inauguração será às 11h, com entrada gratuita.
A pesquisa que fundamenta o projeto começou a se delinear em 2019,
após uma viagem à China, e se conecta à trajetória de Camila Arruda, que, em
2018, realizou uma exposição no Museu da Imigração, em São Paulo. Inserida
nesse percurso e integrada à celebração do Ano da Cultura e do Turismo entre
Brasil e China em 2026, a iniciativa amplia o olhar do público sobre a presença
do café no país asiático e as transformações recentes do país. “A China não
quer mais apenas fabricar o que o mundo cria; ela quer criar o que o mundo
consome”, observa a artista.
Entre pinturas, escultura, instalação e vídeos, o olhar da artista
se desdobra na linha curatorial da mostra, organizada em três momentos: o
primeiro aborda a cosmologia chinesa como base do pensamento e da vida
cotidiana, com referências a tradições filosóficas, como Confúcio e Mêncio,
além de conceitos como Dao (o caminho) e Yin-Yang, ligados à noção de harmonia
que orienta relações e práticas sociais. Em seguida, o café surge como símbolo
contemporâneo de status e cosmopolitismo, assim, Camila utiliza sobreposições
visuais para conectar passado e presente, apresentando o café sobre referências
à porcelana da Dinastia Ming. O gesto sugere um movimento inverso ao histórico:
se antes a China exportava seus símbolos, hoje absorve e ressignifica
influências globais. Por fim, a artista aborda as transformações recentes do
país, destacando seu papel na inovação tecnológica e apresentando o grão brasileiro
como elemento inserido nessas dinâmicas, associado a novas formas de consumo,
logística e vida urbana.
Essa perspectiva ganha forma em obras de forte impacto visual,
como o dragão de quatro metros de comprimento que ocupará o espaço expositivo.
Símbolo de ascensão e prosperidade na cultura chinesa, a peça se inspira nas
pipas tridimensionais de Weifang e se destaca pelo uso de materiais
inusitados, como mexedores de bambu e copos de papel, estruturados a partir de
técnicas construtivas tradicionais.
A dimensão sensorial da mostra se destaca na escultura Sopro, que utiliza cerca de 65 quilos de grãos de café torrado em uma estrutura circular de latão dourado. A peça associa o café à ideia de riqueza e envolve o visitante por meio do aroma, reforçando a conexão entre o porto de Santos e o mercado chinês. No ateliê, Camila desenvolveu tintas a partir de café e chá verde, utilizando pigmentos naturais. Aplicadas sobre algodão cru, as obras exploram o conceito de Yin-Yang e evidenciam a convivência entre o chá, milenar, e o café, contemporâneo. Outro destaque são os suportes de madeira revestidos com caulim, mineral base da porcelana, trabalhados até remeter às cerâmicas da Dinastia Ming, aproximando referências brasileiras e chinesas. O uso do ouro reforça o café como símbolo de riqueza e status. Em diferentes obras, o material aparece tanto na valorização do grão quanto em instalações que remetem às dinâmicas urbanas e tecnológicas das metrópoles chinesas. “O café na China hoje é um símbolo de transformação e prestígio. Quis utilizar esse material precioso para evidenciar como a bebida é percebida por lá”, pontua a artista.
Museu do Café
Rua XV de Novembro, 95 – Centro
Histórico – Santos/SP
contato@museudocafe.org.br
Funcionamento: De segunda a sábado, das
9h às 18h, e domingo, das 10h às 18h (fechamento da bilheteria às 17h).
R$ 16 e meia-entrada para estudantes e
pessoas acima de 60 anos
Grátis aos sábados e, todos os dias,
para as crianças até 7 anos

Nenhum comentário:
Postar um comentário