Monitores de
pressão e inaladores piratas invadiram o comércio eletrônico brasileiro e
deslocaram o risco sanitário do consultório para dentro de casa. Em um recorte
que concentra cerca de 80% das vendas on-line de dispositivos de saúde no
Brasil, medidores de pressão e nebulizadores de marcas possivelmente não
regulamentadas já respondem por 36% e 46% das vendas dessas categorias, após
alta de mais de 250% em 2025.
A fotografia mais
recente, consolidada até janeiro de 2026, mostra que a fatia de marcas
suspeitas nas principais plataformas saltou de 17,36% para 31,76% em um ano,
enquanto a participação das marcas oficiais recuou de 82,18% para 67,66%, com
captura estimada de mais de R$ 14 milhões em 12 meses por fabricantes que atuam
à margem das regras sanitárias. Esse avanço acontece no momento em que a nova
Diretriz Brasileira de Hipertensão, publicada em 2025, torna a medição
domiciliar peça obrigatória do cuidado ao redefinir metas de controle para
abaixo de 13 por 8 e criar a categoria de pré-hipertensão para pacientes com níveis
entre 12 e 13,9 por 8 a 8,9.
De acordo com a
Pesquisa Nacional de Saúde e estimativas citadas na diretriz, cerca de 30% da
população tem diagnóstico confirmado de hipertensão, o que equivale a
aproximadamente 38 milhões de pessoas. Incluindo os reclassificados como pré-hipertensos,
o total de indivíduos em risco cardiovascular supera 90 milhões de brasileiros
que dependem de medições confiáveis para manter o tratamento em dia. A diretriz
determina que medições feitas em casa, com monitores validados, passem a ser
obrigatórias para confirmar o diagnóstico e acompanhar a resposta às terapias,
o que transforma medidores de pressão e dispositivos respiratórios em peças
centrais da rotina de cuidado em domicílio.
Nesse contexto, a
presença massiva de produtos sem comprovação sanitária abre espaço para uma
crise silenciosa de saúde pública, em que números exibidos em visores digitais
passam a influenciar decisões médicas, internações e desfechos cardiovasculares
sem que o paciente tenha certeza de que pode confiar no equipamento. Na
categoria de medidores de pressão, 36% das vendas no recorte avaliado vêm de
marcas que podem não ter registro sanitário ou certificação de conformidade.
Entre inaladores e nebulizadores, 46% das vendas são de marcas possivelmente
não regulamentadas, o que significa que quase metade dos dispositivos
adquiridos on-line nessas linhas pode estar fora do radar da vigilância
sanitária.
Os gráficos de
evolução das vendas mostram que esse mercado paralelo cresce dentro de um setor
em expansão, e não apenas por substituição de marcas oficiais. Nos medidores de
pressão, o mercado total, somando produtos oficiais e não oficiais, ultrapassa
100 mil unidades mensais em vários meses de 2025, enquanto os dispositivos de
marcas suspeitas mais do que triplicam em volume. Nos nebulizadores, as vendas
totais atingem picos acima de 90 mil unidades mensais, com marcas possivelmente
irregulares saltando de 11,8 mil aparelhos em janeiro para 39,4 mil em junho
antes de recuarem para cerca de 24,3 mil unidades, ainda muito acima do início
do período. Em termos proporcionais, os dados de janeiro de 2026 desenham um
cenário em que mais de um terço dos medidores de pressão e quase metade dos
inaladores e nebulizadores vendidos on-line pertencem a fabricantes sem
evidência de registro na Anvisa, sem validação clínica conhecida e sem
certificação de conformidade.
Na vitrine
digital, quase nada disso é visível para o consumidor. Produtos ilegais
aparecem lado a lado com dispositivos homologados, com preços agressivos, fotos
profissionais e descrições recheadas de termos técnicos. Para quem busca
promoção ou um aparelho mais barato, é praticamente impossível distinguir, no
momento da compra, quais modelos passaram por validação da Anvisa e por ensaios
de qualidade do Inmetro e quais não oferecem qualquer garantia de desempenho.
Relatórios técnicos apontam a venda de medidores de pressão sem regulamentação
como fator capaz de gerar leituras imprecisas, sensação falsa de segurança ou
alarmes injustificados, interferindo diretamente em diagnósticos e condutas
médicas.
Dispositivos não
regulamentados não passam por testes rigorosos de qualidade nem por controles
de produção. Podem ter sensores de baixa precisão, calibração instável e
componentes sujeitos a falhas, o que compromete a confiabilidade do número que
aparece na tela. Na prática, isso significa que um paciente pode acreditar que
a pressão está controlada quando permanece em nível de risco ou ser levado ao
pânico por uma medida falsamente alta, com impacto direto sobre o uso de
serviços de urgência e emergência. Quando médicos se apoiam em registros de
pressão obtidos em casa para decidir se mantêm, intensificam ou reduzem um
tratamento, esses erros silenciosos podem levar a ajustes indevidos de dose,
combinações inadequadas de fármacos e pedidos de exames que não correspondem ao
estado real do paciente, com efeito cascata sobre a eficácia das terapias, o
risco de eventos cardiovasculares e os custos de um sistema já pressionado
pelas doenças crônicas.
O professor
livre-docente da USP Décio Mion alerta que medir a pressão com aparelho
falsificado pode levar a dois cenários perigosos. "O paciente com pressão
alta não recebe tratamento, aumentando risco de infarto, AVC e falência renal;
ou o paciente com pressão normal recebe medicação desnecessária podendo ter
efeitos colaterais como quedas e desmaios", diz. Estudos citados por ele
mostram que até 94% dos aparelhos no mercado não são validados clinicamente.
Os impactos não se
distribuem de forma homogênea. Segundo Mion, os idosos são o grupo mais
vulnerável, porque podem sofrer quedas graves com pressão muito baixa. Outros
grupos expostos são as pessoas de baixa renda, que acabam atraídas por
aparelhos mais baratos vendidos sem regulamentação em plataformas de internet,
e as pessoas com baixa escolaridade, que têm maior dificuldade em identificar
aparelhos confiáveis.
A popularização da
medição domiciliar faz com que esses erros se propaguem para dentro da consulta
e para as situações de emergência. "Atualmente, os médicos costumam
ajustar a medicação com base nas medidas de pressão que o paciente realiza em
casa. Isto porque as medidas realizadas em casa são mais confiáveis do que no
consultório onde a presença do médico sempre tende a elevar a pressão", explica
Mion, referindo-se ao chamado efeito do avental branco. Se o paciente leva para
o médico medidas falsamente altas, vai receber mais medicação com os riscos de
queda excessiva de pressão e, por outro lado, se leva medidas falsamente baixas
pode ter medicação reduzida com os riscos de elevações súbitas de pressão.
Em emergências, um
aparelho que mostre pressão normal quando ela está alta pode fazer o paciente
subestimar sintomas graves como dor no peito e falta de ar e atrasar a ida ao
hospital, perdendo tempo precioso. Por outro lado, leituras falsamente altas
geram pânico e idas desnecessárias à emergência, sobrecarregando o sistema de
saúde.
Na hora de comprar, Mion recomenda procurar aparelhos com selo do Inmetro na embalagem, preferir aparelhos de braço, que são mais precisos e confiáveis do que os de pulso, e verificar se a braçadeira tem o tamanho correto para o braço. "Uma braçadeira pequena para a circunferência do braço fornece leituras falsamente altas e uma braçadeira muito grande fornece leituras falsamente baixas", diz. Ele orienta também a desconfiar de preços muito baixos e de smartwatches que prometem medir pressão sem manguito, pois não possuem validação científica, e levar o aparelho à consulta para o médico comparar com o equipamento do consultório.
Do lado dos dispositivos respiratórios, a lógica de risco é semelhante, mas atinge outro sistema vital. Dispositivos sem certificação podem não garantir a transformação adequada da solução medicamentosa em partículas finas, o que reduz a deposição do fármaco nas vias aéreas e diminui a eficácia do tratamento. Falhas de projeto e fabricação se traduzem em fluxo de ar irregular, doses inconsistentes, interrupções súbitas durante a nebulização e funcionamento intermitente, quadro que agrava sintomas em vez de aliviá-los. Pareceres técnicos citam ainda risco de falhas de segurança elétrica, como superaquecimento, curtos-circuitos e choques, e o uso de materiais de baixa qualidade em câmaras, mangueiras e filtros, mais propícios à colonização por fungos e bactérias, associados a maior risco de infecções respiratórias. Crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias graves, que dependem de dispositivos eficazes para evitar internações, são os mais vulneráveis.
A pediatra Lygia
Börder, vice-presidente do departamento de Pediatria Ambulatorial e Cuidados
Primários da Sociedade de Pediatria de São Paulo, alerta que o uso de
inaladores e nebulizadores falsificados é "muito perigoso". "Os
aparelhos podem não funcionar direito e os medicamentos não chegarem aos pulmões
como deveria, agravando as crises respiratórias", diz. Materiais de baixa
qualidade acumulam bactérias e fungos, aumentando o risco de infecções
respiratórias. Alguns podem liberar substâncias tóxicas, prejudicando a saúde.
Outro problema é que eles não têm garantia ou suporte técnico. "Se
quebrarem, o paciente fica sem assistência", afirma.
No caso das
crianças pequenas, o nebulizador acaba sendo um item de uso frequente e os
danos podem ser imediatos e de longo prazo. "Na criança pequena, isso é mais
preocupante porque ela tem as vias menores e é mais sensível. A curto prazo, o
que a gente vê é que a criança não melhora. Fica cansada, o peito continua
chiando e, às vezes, precisa ir ao pronto-socorro porque a medicação não fez o
efeito desejado", afirma Lygia. A longo prazo, isso pode atrapalhar o
controle da doença, levando a mais crises, mais idas ao hospital e até uma
evolução da piora do quadro respiratório. Como a criança ainda está em
desenvolvimento, um tratamento mal feito pode trazer consequências piores do
que para um adulto.
A médica explica
que o perigo é duplo. "A intoxicação, pois quando o equipamento não passa
por controle sanitário há chance de liberar substâncias tóxicas, como metais
pesados e até solventes, o que pode causar desde sintomas leves, como náuseas e
dores de cabeça, até problemas mais graves como lesões no fígado, rins ou
sistema nervoso", diz. O outro perigo é a falha de tratamento, pois sem
garantia da dose certa o medicamento pode ser administrado em doses insuficientes
ou excessivas e o paciente pode não melhorar, ter agravamento da doença ou até
desenvolver resistência ao tratamento. "Isso sem falar em casos que podem
resultar em óbito", completa.
Ao comprar
inaladores ou nebulizadores para uso doméstico, a família deve observar alguns
pontos fundamentais, segundo Lygia. O primeiro é verificar se o equipamento tem
registro na Anvisa e passou por testes de segurança e eficácia. Também é
importante adquirir os equipamentos em farmácias ou lojas de materiais médicos
confiáveis, nunca em sites ou por vendedores informais. O manual do produto
deve estar em português, com informações claras sobre o uso e manutenção
correta, trazendo selo de garantia e assistência técnica disponível. Além
disso, é essencial confirmar se o modelo é adequado para o uso pediátrico, já
que crianças exigem equipamentos específicos para garantir que o medicamento
chegue corretamente às vias aéreas. "A qualidade do dispositivo inalatório
é determinante para o sucesso terapêutico, já que é parte do tratamento. Para
garantia, ter selo da Anvisa é obrigatório. Se além dele, tiver o selo Inmetro,
melhor ainda, maior a segurança. Caso não tenha nenhum dos dois, há um alto
risco de o equipamento ser falsificado ou inadequado", conclui.
Enquanto pacientes
lidam com as consequências em casa, a trilha do comércio exterior ajuda a
enxergar a engrenagem que alimenta o mercado paralelo. Entre janeiro e outubro
de 2025, as importações ligadas às NCM 9018.90.69, de monitores de pressão, e
9019.20.20, de nebulizadores, somaram aproximadamente US$ 1,35 milhão em valor
FOB apenas em empresas sediadas no estado de Alagoas. Cinco importadoras
concentram esse fluxo, que envolve 742 mil unidades de monitores de pressão e
cerca de 291 mil nebulizadores no período, volumes compatíveis com o salto
observado nas vendas on-line de dispositivos de saúde de marcas não oficiais.
O Porto do Rio de
Janeiro aparece como principal ponto de entrada, com cerca de US$ 1,33 milhão
em mercadorias, enquanto o Porto de Santos tem participação residual, o que
sugere uma rota logístico-fiscal concentrada entre a Ásia e o Sudeste
brasileiro. Do lado de lá do oceano, a origem geográfica das cargas também é
concentrada. Os principais exportadores são empresas localizadas em Yiwu e em
outras cidades chinesas especializadas em produtos de baixo custo, com cinco
fornecedores respondendo por todo o valor e uma única companhia superando US$
900 mil em embarques desses dispositivos. A análise do valor FOB médio por
código de produto, em itens como AK-W06, BPM-002 e XY-129, mostra preços
unitários em torno de US$ 1 a US$ 2 por monitor de pressão e, em alguns casos,
menos de US$ 0,50 por nebulizador, patamares incompatíveis com os custos de
desenvolvimento, testes, certificação e rastreabilidade exigidos de
dispositivos plenamente regulados.
No papel, o
caminho para conter esse tipo de operação passa pela classificação fiscal. As
NCM 9018.90.69 e 9019.20.20 têm o destaque Anvisa 082, que obriga importadores
a solicitar licença de importação e submeter os dispositivos à avaliação
sanitária da agência antes da liberação da carga. Na prática, porém, a
documentação examinada aponta uso recorrente do destaque 999, código criado
para indicar que a mercadoria não se enquadra nas hipóteses sujeitas a
licenciamento sanitário obrigatório. Ao declarar o destaque 999 para monitores
de pressão e nebulizadores, o importador sinaliza ao sistema que o produto não
é um dispositivo de saúde sujeito a controle, afasta a exigência de licença de
importação e permite que cargas inteiras escapem da fila de análise técnica da
Anvisa.
Uma vez liberados na aduana
sob esse enquadramento, os equipamentos são distribuídos por estruturas
societárias que espelham CNPJs entre Alagoas e Rio de Janeiro e, em seguida, pulverizados
em diferentes lojas virtuais e marketplaces, onde se misturam a dispositivos
regularizados e se tornam praticamente indistinguíveis para o consumador comum.
Do ponto de vista da saúde pública, o conjunto desses números revela um modelo
de negócio baseado na importação em massa de dispositivos de baixo custo, na
exploração de brechas na classificação fiscal e no escoamento via comércio
eletrônico em um recorte que responde por 80% das vendas on-line de
dispositivos de saúde do país. Em última instância, quem arca com as
consequências é o paciente que, em casa, confia na leitura do medidor de
pressão para decidir se vai ao pronto-atendimento, se ajusta a dose de um
medicamento ou se considera o quadro estável, e que depende de nebulizadores
para manter tratamentos respiratórios em dia, sem saber se o equipamento que
tem nas mãos foi de fato testado e aprovado por alguma autoridade sanitária.
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