O terceiro setor brasileiro é grande, estratégico e
ainda subestimado. Segundo a Conta Satélite das Instituições Sem Fins
Lucrativos do IBGE, o setor representa cerca de 4,27% do PIB nacional,
movimentando aproximadamente R$ 423 bilhões por ano. De acordo com dados do
Ipea, com base na RAIS e no Mapa das Organizações da Sociedade Civil, são cerca
de 4,7 milhões de trabalhadores atuando em milhares de organizações espalhadas
pelo país.
É uma força econômica real e é também
um setor majoritariamente feminino. Estudos do Ipea e levantamentos baseados na
RAIS indicam que cerca de 65% da força de trabalho das organizações da
sociedade civil é composta por mulheres.
Além de potência, esses números nos
revelam responsabilidade.
Liderar no terceiro setor é mais que
ocupar um cargo de gestão, é também assumir o dever de transformar
vulnerabilidade em política estruturada, dor em estratégia e urgência em ação
contínua. É administrar impacto social com o mesmo rigor com que se administra
resultado financeiro.
Há mais 20 anos no Instituto Ronald
McDonald, aprendi que propósito, sozinho, não sustenta uma organização. O que
sustenta é governança, transparência, planejamento estratégico, disciplina
financeira e capacidade de articulação com empresas, poder público e sociedade
civil. O que sustenta é transformar cada recurso captado em impacto mensurável
na vida de quem precisa.
Ao longo dessas duas décadas, vi
famílias chegarem despedaçadas pelo diagnóstico de câncer de um filho. Vi mães
perderem o chão. Vi pais tentando manter uma força que nem sempre tinham.
Também vi remissões. Vi crianças retomando a escola. Vi adolescentes voltando a
fazer planos.
Sou mãe, por isso, reconheço que
nenhuma mãe passa ilesa por histórias como essas.
Contudo, liderar exige equilíbrio. Eu
não posso ser movida apenas pela emoção. Preciso negociar com grandes empresas,
defender orçamento, dialogar com gestores públicos, comprovar indicadores,
fortalecer governança e garantir sustentabilidade institucional. Preciso
mostrar, todos os dias, que investir em oncologia pediátrica é uma decisão
estratégica para o país.
Quando assumi a posição de CEO do
Instituto Ronald McDonald, o cenário estava longe de ser confortável. Recebi o
convite em um momento crítico, logo após a pandemia, com fluxo de caixa
limitado, equipe reduzida e uma projeção que indicava poucos meses de fôlego
financeiro para a instituição. O primeiro passo foi olhar com profundidade para
dentro da organização, renegociar compromissos, revisar processos e pedir ao
conselho um prazo para reconstruir as bases de sustentabilidade. Seis meses
depois, conseguimos retomar a estabilidade e abrir espaço para voltar a pensar
estrategicamente. Hoje temos sede própria, uma equipe maior e voltamos a
discutir expansão e ampliação de impacto.
O terceiro setor deixou de ser
assistencialismo há muito tempo. Hoje falamos de métricas, compliance, ESG,
indicadores de desempenho e impacto estruturado. Falamos de eficiência,
transparência e resultados mensuráveis.
Ainda assim, enfrentamos desafios constantes.
Captação de recursos em um ambiente econômico instável. Mudanças regulatórias.
Exigências crescentes por transparência. Competição por atenção e investimento
social. E, acima de tudo, a urgência de famílias que não podem esperar.
Costumo dizer que, muitas vezes,
precisamos vencer vários leões por dia. O leão da sustentabilidade financeira.
O leão da credibilidade. O leão da gestão de pessoas. O leão da
responsabilidade institucional que não admite falhas.
E sendo mulher, há uma camada
adicional.
Embora 65% da força de trabalho do
setor seja feminina, isso não significa que as mulheres ocupem esses espaços de
liderança com a mesma facilidade. Muitas mulheres chegam ao topo em momentos de
maior risco institucional, quando organizações enfrentam crises ou processos de
reorganização. São chamadas para reconstruir, reorganizar e estabilizar
estruturas que já passaram por outras lideranças. Isso exige não apenas
competência técnica, mas resiliência e coragem para tomar decisões difíceis sob
alta pressão.
Existe também um dado que não pode ser
ignorado. Segundo o Ministério da Previdência Social e dados do SUS, mulheres
representam cerca de 60% a 70% dos afastamentos por transtornos mentais no
Brasil nos últimos anos. Em um setor movido por propósito, onde a carga
emocional é intensa, isso se torna um alerta. Cuidar de quem cuida é uma agenda
urgente.
Mas é justamente nessa combinação que
reside nossa força.
A liderança feminina no terceiro setor
carrega uma capacidade singular de articulação e construção coletiva. Sabemos
conectar. Sabemos ouvir. Sabemos transformar escuta em política institucional.
Empatia não é fragilidade. É ferramenta de gestão. É ela que nos permite
desenhar programas que realmente respondem às necessidades das famílias.
Ao mesmo tempo, liderar exige firmeza.
É dizer não quando necessário. É priorizar investimentos. É tomar decisões
impopulares para garantir sustentabilidade no longo prazo. É proteger a
instituição para que ela continue existindo quando o ciclo de crise passar.
Dentro do Instituto Ronald McDonald,
acreditamos que igualdade de gênero precisa ser mais do que discurso. Ao longo
dos últimos anos, fortalecemos políticas internas de valorização da liderança
feminina, ampliamos oportunidades de desenvolvimento profissional e estruturamos
um ambiente em que mulheres possam crescer, liderar e tomar decisões
estratégicas. O terceiro setor só será verdadeiramente transformador se também
for coerente dentro de suas próprias estruturas.
Eu escolhi estar onde estou. E luto
todos os dias para permanecer nesse espaço não por vaidade, mas por
responsabilidade. Porque cada decisão impacta diretamente a jornada de crianças
e adolescentes em tratamento oncológico e de suas famílias.
A liderança no terceiro setor precisa
ser reconhecida como liderança estratégica. Estamos falando de um setor que
movimenta centenas de bilhões de reais, gera milhões de empregos e influencia
políticas públicas. Não é um apêndice da economia. É parte estruturante dela.
Se um setor que representa mais de 4%
do PIB brasileiro e emprega milhões de pessoas é majoritariamente conduzido por
mulheres, isso não é apenas uma estatística de gênero. É um dado econômico,
social e político relevante. Significa que grande parte da transformação social
do país passa, diariamente, pela liderança feminina.
Se há algo que aprendi nesses 20 anos é
que transformar realidades exige mais do que boa intenção. Exige estrutura.
Exige governança. Exige coragem para ocupar espaços de decisão. E exige
mulheres que não desistam de liderar com competência, visão e humanidade.
Liderar, para mim, é sustentar
esperança com estrutura.
É sentir cada história, mas decidir com
estratégia.
É transformar o propósito em impacto
real.
E é provar, todos os dias, que quando
mulheres lideram no terceiro setor, a transformação ganha escala, consistência
e futuro.
Bianca Provedel - jornalista, psicóloga, mãe, e há mais de 20 anos atua no terceiro setor. É CEO do Instituto Ronald McDonald, organização que já impactou mais de 15 milhões de vidas em todo o Brasil
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