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sexta-feira, 6 de março de 2026

Empresas têm poucos meses para se adequar à NR-1 antes do início das multas por riscos psicossociais


A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) passou a valer em 2025 e incluiu, de forma expressa, a obrigatoriedade de identificação e gestão dos riscos psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). Desde então, estresse, assédio moral, sobrecarga de trabalho e outros fatores relacionados à saúde mental devem integrar os programas formais de prevenção das empresas.

Agora, o tema entra em uma nova etapa. A partir de maio de 2026, a fiscalização será intensificada e poderão ser aplicadas multas e demais sanções administrativas pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). O intervalo entre a vigência da norma e o início das penalizações funcionou como período de adaptação. Com a proximidade das autuações, o cenário muda e impõe senso de urgência às organizações.

Dados recentes reforçam a importância dessa mudança. Segundo o Ministério da Previdência Social, em 2025 foram concedidos mais de 546 mil benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais no Brasil, o maior número já registrado na série histórica. Ansiedade, depressão e esgotamento profissional estão entre as principais causas de afastamento do trabalho.

Para Viviane Alvarenga, diretora de Gente & Gestão da Febrafar e da Farmarcas, a atualização da norma representa uma evolução natural na forma como as empresas devem lidar com a saúde ocupacional.

“A atualização da NR-1 amplia a responsabilidade das empresas na gestão de riscos ocupacionais ao incluir de forma mais clara os riscos psicossociais. Isso significa olhar com mais atenção para fatores como pressão por metas, sobrecarga de trabalho, conflitos organizacionais e equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Não se trata de gerar preocupação, mas de estruturar melhor aquilo que muitas empresas já fazem intuitivamente: cuidar das pessoas”, afirma.

Segundo ela, a norma reforça que o gerenciamento de riscos deve ser contínuo, estruturado e integrado à gestão do negócio. “A NR-1 incentiva as empresas a evoluírem de uma visão focada apenas em riscos físicos e operacionais para uma gestão mais completa da saúde ocupacional, que também considera fatores emocionais e organizacionais”, acrescenta.


Da teoria à prática: hora de estruturar o gerenciamento

Embora muitas empresas já tenham iniciado discussões internas sobre saúde mental, especialistas alertam que apenas boas intenções não serão suficientes diante de uma fiscalização mais técnica e criteriosa. Para Tatiana Gonçalves, CEO da Moema Medicina do Trabalho e especialista em saúde ocupacional, o momento é de consolidação das ações.

“A exigência não começa em 2026, ela já está valendo desde 2025. O que muda agora é o nível de cobrança. As empresas precisam demonstrar que mapearam riscos, implementaram medidas preventivas e acompanham resultados”, explica.

Segundo ela, a adequação exige planejamento estruturado e envolvimento da liderança. “É preciso capacitar gestores, criar protocolos de Primeiros Socorros Psicológicos, estabelecer canais de escuta e inserir a saúde mental na rotina da gestão. Não é apenas documentação, é mudança de cultura.”


Complexidade e preparo técnico ainda desafiam empresas

A gestão de riscos psicossociais envolve fatores subjetivos e organizacionais, o que torna o processo mais complexo do que o controle de riscos físicos ou químicos tradicionais. Isso explica por que muitas empresas, especialmente pequenas e médias, ainda estão em fase inicial de adaptação.

Parte delas não concluiu o mapeamento dos riscos internos; outras enfrentam limitações orçamentárias ou falta de conhecimento técnico para estruturar programas consistentes. O Ministério do Trabalho anunciou a elaboração de um guia prático para orientar empregadores e a criação de uma comissão temática nacional com representantes do governo, trabalhadores e setor produtivo. Ainda assim, a responsabilidade pela implementação é das empresas.

Na avaliação de Viviane Alvarenga, o processo não exige necessariamente soluções complexas, mas sim organização e método. “O primeiro passo é atualizar o Programa de Gerenciamento de Riscos, mapear os riscos psicossociais e envolver as lideranças nesse processo. A NR-1 não pede estruturas sofisticadas, mas sim que as empresas documentem suas ações preventivas e demonstrem que estão gerenciando esses fatores de forma consistente”, explica.


Riscos jurídicos e financeiros aumentam com fiscalização

Com o início das penalizações em maio de 2026, os impactos deixam de ser apenas preventivos e passam a ter reflexos diretos no caixa e na segurança jurídica. O advogado trabalhista Mourival Boaventura Ribeiro alerta para as consequências do descumprimento.

“Empresas que não implementarem corretamente as medidas podem ser multadas, além de terem aumento no Fator Acidentário de Prevenção, o que eleva os custos com seguros e encargos. Também há risco de processos trabalhistas em casos de adoecimento psicológico”, alerta o especialista.

Além das multas administrativas, a ausência de medidas efetivas pode fragilizar a empresa em disputas judiciais envolvendo alegações de burnout, assédio ou adoecimento emocional relacionado ao trabalho.


PMEs precisam agir com estratégia e realismo

Para pequenas e médias empresas, o desafio é maior, mas não intransponível. A adequação pode ser construída de forma progressiva, com medidas compatíveis com a realidade financeira do negócio.

“Há soluções viáveis e acessíveis. Treinamentos internos simples, flexibilização de rotinas, ferramentas básicas de escuta e parcerias com consultorias especializadas já representam avanços importantes”, afirma Tatiana Gonçalves.

Entre as iniciativas recomendadas estão:

  • • Mapeamento inicial dos riscos psicossociais com apoio técnico
  • • Treinamentos internos sobre saúde mental e prevenção
  • • Criação de canais formais de escuta
  • • Ajustes organizacionais para reduzir sobrecarga e conflitos


Ações simples que fortalecem a cultura preventiva

Tatiana Gonçalves também orienta as empresas para que a ação não seja pensada apenas em termos de custos. Experiências práticas mostram que medidas de baixo investimento podem gerar impacto significativo:

  • Espaços adequados para pausas e descanso
  • Rodas de conversa com psicólogos ou especialistas
  • Comunicação não punitiva, incentivando relatos sem medo de retaliação
  • Campanhas de uso consciente da tecnologia
  • Incentivos ao desenvolvimento profissional

Para Viviane Alvarenga, a norma pode ser interpretada como uma oportunidade de amadurecimento da gestão empresarial. “Empresas que estruturam melhor seus processos de liderança, organização do trabalho e cuidado com as pessoas tendem a reduzir afastamentos, aumentar o engajamento das equipes e melhorar seus resultados. Cuidar da saúde emocional deixou de ser apenas uma pauta de bem-estar e passou a ser também uma estratégia de sustentabilidade do negócio”, conclui.

Com maio de 2026 se aproximando, o tempo de planejamento está se esgotando. A adequação à NR-1 deixou de ser uma pauta futura e passou a ser uma prioridade estratégica imediata para organizações de todos os portes.

 

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