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| Segundo os pesquisadores, traumas nessa fase da vida desregulam o equilíbrio entre sinais de excitação e inibição no cérebro, comprometendo a estabilidade funcional do órgão (imagem: Nikolett Emmert/Freepik) |
Pesquisa realizada na USP mostra que mudanças no córtex pré-frontal causadas por estresse severo ou trauma na adolescência podem estar ligadas ao surgimento de transtornos como esquizofrenia e depressão
Situações
estressantes vividas na adolescência tendem a provocar alterações mais
profundas e duradouras no cérebro do que quando ocorrem na vida adulta. Um
estudo feito em ratos na Universidade de São Paulo (USP) identificou um dos
mecanismos neurológicos por trás dessa diferença, oferecendo novas pistas sobre
a origem de transtornos psiquiátricos como depressão e esquizofrenia.
Os pesquisadores comprovaram
que a exposição ao estresse na adolescência pode interferir no equilíbrio dos
neurônios, comprometendo a maturação de redes neurais e aumentando a
vulnerabilidade a disfunções cerebrais que podem persistir até a vida adulta.
Os resultados foram publicados na revista Cerebral Cortex.
A pesquisa, apoiada pela FAPESP, demonstrou que o estresse na
adolescência provoca mudanças permanentes nos circuitos do córtex pré-frontal,
região cerebral responsável pelo controle emocional e função cognitiva.
De acordo com os pesquisadores,
traumas nessa fase da vida desregulam o equilíbrio entre sinais de excitação e
inibição no cérebro, comprometendo a estabilidade funcional do órgão. Já em
roedores adultos, o cérebro mostrou maior resiliência, com mecanismos de
recuperação que tornaram os efeitos do estresse mais passageiros.
“Estudos epidemiológicos já
haviam demonstrado que o impacto do estresse severo é mais profundo na
adolescência. Em nosso trabalho, comprovamos que ele causa desequilíbrio na
comunicação entre células cerebrais nas duas fases da vida. No entanto, como o
cérebro adolescente ainda está em formação, não há proteção suficiente contra
esse impacto”, explica Felipe Gomes, professor da Faculdade de Medicina de
Ribeirão Preto (FMRP) da USP e coordenador do estudo.
Na pesquisa, ratos machos foram
submetidos a um protocolo de estresse ao longo de dez dias consecutivos, com
choques nas patas e restrição de movimento. Os experimentos foram realizados em
dois grupos distintos: animais entre 31 e 40 dias de vida (fase da
adolescência) e na fase adulta (de 65 a 74 dias).
Em seguida, os cientistas
analisaram, nos dois grupos, alterações de curto e longo prazo na atividade de
neurônios excitatórios (piramidais glutamatérgicos) e inibitórios
(interneurônios GABAérgicos), ambos presentes no córtex pré-frontal medial.
Nos ratos adolescentes, o
estresse provocou um aumento persistente na atividade dos neurônios
excitatórios e alterou de forma duradoura o funcionamento dos inibitórios. O
resultado foi um desequilíbrio prolongado, como se o cérebro estivesse
acelerado, sem “um freio funcionando”. Foi observado também que, embora a força
dos sinais inibitórios tenha retornado ao estado normal, o padrão de disparo
permaneceu irregular, o que compromete o controle neural.
Nos adultos, contudo, o
estresse causou apenas uma redução temporária na atividade dos interneurônios
inibitórios, sem gerar a hiperexcitabilidade observada nos adolescentes. Isso
permitiu que o sistema se reequilibrasse após o período de estresse.
“O estudo também mostrou que o
mau funcionamento dos interneurônios afetou os ritmos elétricos cerebrais. Nos
adolescentes, houve uma redução duradoura nas oscilações gama, fundamentais
para processos cognitivos superiores, como atenção e memória de trabalho, e que
estão prejudicadas na esquizofrenia. Já nos adultos, o estresse reduziu
temporariamente as oscilações teta, que regulam a comunicação entre o córtex e
outras regiões, como o hipocampo. A recuperação desse ritmo sugere que a
conectividade cerebral foi restabelecida”, conta Gomes.
Mecanismos
neurais
Estudos anteriores do mesmo
grupo já haviam mostrado que o estresse na adolescência pode induzir
comportamentos semelhantes aos da esquizofrenia, enquanto o estresse na vida
adulta tende a provocar alterações mais associadas à depressão.
“Nosso trabalho avança ao
revelar os mecanismos neurais por trás dessas diferenças, mostrando que o
momento da vida em que o estresse ocorre é determinante para o tipo e a duração
das alterações nos circuitos do córtex pré-frontal”, afirma Flávia Alves Verza, que investiga o tema em seu
pós-doutorado, apoiado pela FAPESP.
“Conseguimos aprofundar esse
entendimento ao caracterizar o impacto do estresse em diferentes períodos da
vida sobre tipos de células distintas no córtex pré-frontal, região
frequentemente afetada em transtornos psiquiátricos”, completa Gomes.
Além de compartilharem a
exposição ao estresse como um fator de risco comum, cerca de 40% dos genes de
risco para esquizofrenia também estão associados à depressão. “Dessa forma, o
novo estudo contribuiu para a hipótese de que um indivíduo geneticamente
vulnerável pode desenvolver esquizofrenia se exposto a traumas na adolescência,
enquanto o mesmo trauma na vida adulta pode desencadear depressão. Os
resultados reforçam a importância de estratégias preventivas voltadas aos
jovens, especialmente aqueles em situação de vulnerabilidade emocional”, afirma
o pesquisador.
O artigo Adolescent and
adult stress alter excitatory-inhibitory network dynamics in the medial
prefrontal cortex pode ser lido em: academic.oup.com/cercor/article-abstract/36/1/bhaf342/8422749.
Maria Fernanda Ziegler
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/estresse-na-adolescencia-provoca-alteracoes-cerebrais-duradouras-aponta-estudo-com-ratos/57342

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