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sexta-feira, 27 de março de 2026

Dor crônica e saúde mental: estudo aponta que até 40% dos pacientes também enfrentam depressão e ansiedade

Especialista explica como ansiedade e depressão podem intensificar percepção da dor e destaca a importância de abordagem multidisciplinar no tratamento 

 

A relação entre dor crônica e saúde mental tem ganhado cada vez mais atenção da comunidade científica. Um estudo global publicado em 2025 na revista científica JAMA Network Open, conduzido por pesquisadores da Johns Hopkins Medicine, revelou que cerca de 40% dos adultos que convivem com dor crônica também apresentam sintomas clinicamente significativos de depressão ou ansiedade. 

De acordo com a pesquisa, 37% dos pacientes apresentam transtorno depressivo maior, enquanto 17% sofrem com transtorno de ansiedade generalizada, além de outros quadros como transtorno do pânico (8%) e ansiedade social (2%). A dor crônica é definida como a dor que persiste por mais de três meses ou continua mesmo após a recuperação da lesão que a causou. Ela afeta aproximadamente 37% da população brasileira com 50 anos ou mais, segundo pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde. 

Dr. Lúcio Gusmão, médico especialista em dor e fundador da Rede CADE, primeira rede de franquias clínicas médicas especializada em dor crônica, aponta que as questões físicas e mentais se retroalimentam. Na prática, isso significa que a dor persistente pode gerar frustração, isolamento social e sentimentos de desesperança, fatores que aumentam o risco de transtornos psicológicos. Ao mesmo tempo, fatores como ansiedade e estresse podem amplificar a percepção da dor, criando um ciclo que exige esforço para se romper. 

“Muitas vezes o paciente chega ao consultório focado exclusivamente na dor física, buscando um alívio imediato a qualquer custo. Mas a dimensão psíquica também precisa ser tratada em conjunto, pois a ansiedade, o estresse e a depressão também geram quadros inflamatórios dentro do organismo”, aponta. 

Na Rede CADE, os fatores emocionais são considerados no protocolo, de modo que os pacientes possuem acompanhamento psiquiátrico em conjunto com as sessões de fisioterapia e de eletrochoque para alívio da dor. Para Dr. Lúcio, para além da melhora das condições psíquicas, esse acompanhamento combinado é fundamental para que o paciente tenha maior adesão ao tratamento e se sinta motivado a melhorar. 

“Sabemos a dor crônica pode comprometer diversos aspectos da vida, ela pode afetar o desempenho no trabalho e nas relações sociais, o que gera baixa autoestima. Considerando isso, quando conseguimos gerar impactos positivos nos outros núcleos da vida do paciente, através do tratamento psicoterapêutico, o comprometimento com o protocolo da Rede CADE também melhora”, detalha Dr. Lúcio. 

Um estudo publicado em 2024 no Journal of Clinical Psychology mostrou que a TCC pode reduzir sintomas de depressão em cerca de 25% e diminuir a intensidade da dor em até 15% em pacientes com dor crônica.

A técnica ajuda os pacientes a identificarem padrões de pensamento negativos, fenômeno conhecido como catastrofização da dor, que ocorre quando a pessoa passa a acreditar que o sofrimento nunca irá melhorar. Mas terapias nessa linha de abordagem ajuda a substituir pensamentos negativos por estratégias mais saudáveis de enfrentamento.
 

Escuta ativa reduz dependência medicamentosa  

O especialista aponta que a relação médico-paciente deve ser mantida fortalecida no consultório. Pois é através da escuta ativa que o profissional poderá desenvolver uma abordagem multidisciplinar com outras áreas do conhecimento para um tratamento bem-sucedido, com o encaminhamento adequado. 

Como a dor crônica muitas vezes é difícil de diagnosticar, não é incomum que pacientes passem por vários especialistas até encontrar um modelo eficaz. Por isso, uma avaliação completa, com anamnese detalhada, análise do histórico familiar e integração entre diferentes profissionais de saúde, é essencial para um cuidado mais eficaz e centrado nas especificidades do paciente. 

Outro ponto de atenção é o risco aumentado de dependência medicamentosa, segundo revisão publicada no Clinical Journal of Pain. Pacientes com dor crônica apresentam mais probabilidade de evoluir para o uso prolongado de opioides, o que pode ser intensificado caso o paciente também sofra com a saúde mental. 

“Quando a saúde mental não é acompanhada, o paciente pode acabar aumentando o uso de medicação na tentativa de lidar com o sofrimento, recorrendo com mais frequência a opioides e analgésicos potentes como morfina, oxicodona e tramadol”, conta.
 

Poucas horas de sono é outro agravante  

Pacientes com dor persistente costumam ter dificuldade para dormir, o que mantém o cérebro em estado constante de alerta. A ausência de sono profundo, essencial para a regeneração do organismo, intensifica ainda a sensibilidade física e neurológica à dor. Segundo Dr. Lúcio, o tratamento psicológico e psiquiátrico deve incluir estratégias para melhorar o sono, reduzindo gatilhos emocionais e ajudando a quebrar o ciclo entre dor e sofrimento mental. 

“Um sono ruim, além de piorar os quadros de ansiedade e depressão, pode desencadear patologias como a insônia crônica, quando o paciente sofre por antecipação ao associar noites de sono à dor. Boa parte dos nossos pacientes nos procura em momentos de total esgotamento. Depois de um mês, após trabalharmos a regulação da rotina deles, já retornam com outro semblante e com maior disposição para continuar o tratamento”, conclui Dr. Lúcio.


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