Com o aumento de diagnósticos em pacientes abaixo dos 50 anos, o diagnóstico precoce e o suporte da cirurgia de alta tecnologia podem ajudar a mudar o desfecho da doença
O câncer colorretal consolidou-se como um dos temas mais
críticos da oncologia moderna. Globalmente, a doença ocupa a posição de segundo
tumor mais frequente entre mulheres, depois do câncer de mama, e terceiro entre
homens, atrás dos cânceres de pulmão e próstata. No Brasil, o cenário não é
diferente: o Ministério da Saúde estima que cerca de 40 mil novos casos sejam
diagnosticados anualmente. Diante deste panorama, a campanha Março Azul-Marinho
ganha relevância ao destacar que a prevenção ativa e o diagnóstico precoce são
os principais pilares para transformar o prognóstico da enfermidade.
Diferente de outros tumores que podem surgir de forma súbita e agressiva, a
maioria dos cânceres de intestino tem uma origem bem definida: o pólipo adenomatoso.
De acordo com o Dr. Dannilo B. Silveira, coloproctologista do Hospital Santa
Lúcia Sul, o pólipo funciona como uma "verruga" inicialmente benigna
que leva entre 7 a 10 anos para se transformar em um câncer.
Essa característica biológica oferece uma janela de oportunidade para a
medicina preventiva. "Durante uma colonoscopia, se o médico encontra um
pólipo, ele o remove na hora, através da polipectomia. Ao retirar o pólipo,
você interrompe a história natural da doença e impede que o câncer sequer venha
a existir", explica o especialista. Por esse motivo, o exame de
colonoscopia, além de diagnosticar, é capaz de realizar tratamento profilático
imediato.
Marco dos 45 anos e novo perfil epidemiológico
Uma das mensagens centrais da campanha Março Azul-Marinho é a atualização da
idade recomendada para o início do rastreio. Se antes a orientação era iniciar
os exames aos 50 anos, as diretrizes atuais anteciparam esse marco para os 45
anos. A mudança foi impulsionada por dados epidemiológicos que mostram um aumento
preocupante na incidência de câncer colorretal em adultos jovens, abaixo da
quinta década de vida.
O Dr. Dannilo B. Silveira aponta que fatores de estilo de vida modernos, como o
aumento da obesidade, o sedentarismo e o consumo excessivo de alimentos
ultraprocessados, anteciparam o risco nas gerações mais novas. "Pesquisas
indicaram que iniciar o rastreamento aos 45 anos salva significativamente mais
vidas e reduz a incidência de casos avançados em uma faixa etária altamente
produtiva", afirma.
Embora o rastreio preventivo seja a meta, ninguém deve esperar a idade
regulamentar caso apresente sinais clínicos atípicos. O corpo costuma emitir
sinais que, se ignorados, podem levar a diagnósticos em estágios avançados.
"Pacientes com histórico familiar de doenças genéticas podem precisar
iniciar o rastreio mais cedo, em alguns casos aos 15 ou 20 anos", observa
Dra. Maria Bianca Corte, coloproctologista do Hospital Santa Lúcia Sul.
"Mesmo sem sintomas, o acompanhamento deve ser antecipado nessas situações.
Já pacientes com sinais de alerta, ainda que jovens, precisam de indicação de
colonoscopia."
Os principais pontos de atenção são:
- Sangue nas
fezes: seja de cor viva ou escurecido.
- Alteração do
hábito intestinal: mudanças que duram mais de um mês, como episódios
alternados de prisão de ventre e diarreia sem causa aparente.
- Fezes afinadas:
quando as fezes mudam de calibre, apresentando formato de "fita"
ou "lápis".
- Desconforto
abdominal: cólicas ou gases persistentes.
- Sintomas
sistêmicos: perda de peso inexplicável e anemia associada a cansaço
extremo.
Genética e hereditariedade
Apesar de 70% a 80% dos casos de câncer colorretal serem esporádicos (sem
histórico familiar), o componente genético não pode ser subestimado. Para quem
tem parentes de primeiro grau (pais ou irmãos) que tiveram a doença ou pólipos
avançados, o protocolo muda.
A sugestão do Dr. Dannilo B. Silveira é iniciar o rastreio 10 anos antes da
idade em que o familiar foi diagnosticado. Se um pai teve o diagnóstico aos 48
anos, por exemplo, o filho deve realizar sua primeira colonoscopia aos 38. Além
disso, portadores de síndromes genéticas específicas, como a Síndrome de Lynch,
exigem uma vigilância muito mais rigorosa e precoce.
A prevenção também passa pelo prato. O intestino é um dos órgãos com maior
contato direto com o que é ingerido, e médico destaca três pilares fundamentais
para a saúde do cólon:
- Fibras:
funcionam como uma "vassoura", acelerando o trânsito intestinal
e reduzindo o tempo de contato de substâncias tóxicas com a parede do
órgão.
- Redução de
processados: o excesso de carnes processadas, nitratos e gorduras
saturadas gera inflamação crônica, favorecendo mutações celulares
indesejadas.
- Atividade
física: o exercício estimula o peristaltismo (movimento natural do intestino)
e reduz a inflamação sistêmica, atuando como um fator protetor.
A Dra. Maria Bianca explica que o tratamento do câncer colorretal é, na maioria
dos casos, cirúrgico. "Após o diagnóstico, realiza-se o estadiamento para
avaliar a extensão do tumor e possíveis metástases. Em tumores de reto, pode
haver quimio e radioterapia antes da cirurgia. Na maior parte dos casos, a
cirurgia é etapa essencial do tratamento", detalha a especialista.

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