O estresse percebido, e não a renda, é o principal fator que afeta a qualidade de vida dos médicos brasileiros, segundo o primeiro levantamento nacional sobre bem-estar desses profissionais (Índice Afya MedQoL) publicado no BMJ (British Medical Journal) Open. Aplicado a mais de 2 mil profissionais em todo o país, o estudo identificou que jornadas superiores a 60 horas semanais elevam de forma significativa os níveis de estresse, enquanto ganhos acima de R$ 25 mil mensais têm impacto limitado na percepção de bem-estar.
Desde 2023, a Afya realiza pesquisa sobre a qualidade de vida do médico, com dados isolados sobre ansiedade, síndrome de Burnout, estresse e outros aspectos. Agora, uma métrica única permite medir e comparar o progresso ao longo do tempo sob uma perspectiva multidimensional, que integra aspectos mentais, físicos, sociais e ocupacionais. “O Índice Afya MedQoL é um marco, porque traduz a complexidade do bem-estar médico em uma ferramenta prática e cientificamente rigorosa”, afirma Marcelo Gobbo, médico da família e um dos autores do estudo.
Para garantir o rigor científico do estudo, a metodologia do Afya MedQoL utilizou um índice exclusivo composto por 13 itens estratégicos, selecionados a partir de uma filtragem rigorosa de 40 indicadores e estruturados em uma escala de 5 pontos para mensurar a percepção dos profissionais. Com base nos dados encontrados, o indicador mostra um número global de 0 a 100, que indica a percepção sobre a situação de saúde e da qualidade de vida dos médicos no período avaliado. Quanto mais próximo de 100, mais positiva é essa percepção.
A análise segmenta o bem-estar médico em três dimensões fundamentais: a Qualidade de Vida Pessoal, que avalia a base de sustentação do indivíduo (como lazer, recursos financeiros e saúde própria); o Suporte Institucional, que mede o clima organizacional e a segurança psicológica frente ao erro; e o Estresse Percebido, que identifica o ponto de transbordamento negativo da carga de trabalho sobre o desempenho clínico e os relacionamentos pessoais.
O
primeiro resultado indicou uma pontuação geral de 67,2 entre os médicos. A
dimensão bem-estar apresentou um resultado acima do índice geral, com 69,5,
enquanto as dimensões apoio institucional e estresse percebido apresentaram
pontuação de 64,1 e 62,5, respectivamente.
Dinheiro compra bem-estar, mas só até certo ponto
Estresse percebido foi o fator mais crítico
apontado nos primeiros resultados. Médicos que trabalham 60 horas ou mais por
semana tiveram pontuações de estresse 8,8 pontos maiores que os que trabalham
até 44 horas.
Essa dimensão diminui significativamente com
o aumento do tempo de exercício profissional desde a graduação, ou seja, médicos
com mais tempo de formação, com maior estabilidade e, possivelmente, maior
controle da agenda relatam ter um estresse percebido menor.
“O estresse percebido é considerado o
termômetro mais sensível em nosso estudo, porque ele responde ao gênero, à fase
da carreira e à cultura organizacional”, afirma o Dr. Gobbo.
A renda mensal também influencia a percepção
de bem-estar, que é maior à medida que a suficiência financeira aumenta, mas se
estabiliza ao atingir o patamar de R$ 25 mil mensais. Acima desse valor, ganhar
mais mil reais quase não altera o nível de felicidade do médico. Os
pesquisadores chamam isso de "saciação de renda". Na prática,
após garantir o conforto material, o que passa a valer para o médico é o
controle sobre seu tempo e a autonomia no trabalho. O estudo sugere que, para
quem já ganha bem, reduzir a jornada pode ser mais eficaz para a saúde mental
do que receber um aumento.
Sobre
o Índice Afya MedQoL
A Afya acompanha de perto os desafios
vivenciados por médicos e estudantes de medicina ao longo da formação e da prática
profissional. Por isso, a promoção da saúde mental e da qualidade de vida
desses profissionais é um compromisso permanente da companhia. Iniciativas como
o Índice Afya MedQoL fazem parte desse esforço de compreender, com base em
evidências, as transformações da carreira médica.
O Índice Afya MedQoL é um instrumento
desenvolvido e validado para mensurar, de forma concisa e específica, a
qualidade de vida de médicos no Brasil. A pesquisa foi conduzida por meio de um
levantamento nacional, transversal e online, realizado entre 2 de julho e 6 de
agosto de 2024, com a participação de médicos atuantes nas cinco macrorregiões
do país e vinculados aos 27 Conselhos Regionais de Medicina.
O estudo contou com 2.005 médicos respondentes,
com idade média de aproximadamente 39 anos e predominância feminina (cerca de
51% a 56%, conforme a base analisada). Pouco mais da metade dos participantes
concluiu a graduação até 2014 e possuía 10 anos ou mais de prática
profissional. A renda líquida média mensal declarada foi de R$ 18.300.
A validação psicométrica do índice incluiu
análise fatorial exploratória e confirmatória (CFA), calibração por teoria de
resposta ao item multidimensional e ponderação pós-estratificação com base no
Censo Demográfico Médico Brasileiro de 2025. Além de validar a escala, o estudo
também investigou associações entre bem-estar médico e variáveis
sociodemográficas e ocupacionais.
Afya
www.afya.com.br
ir.afya.com.br



Nenhum comentário:
Postar um comentário