Na próxima semana entra em vigor no Brasil a Lei 15.211/2025,
conhecida como ECA Digital ou Lei Felca, batizada por conta do influenciador
Felipe Bressanim, que expôs, em agosto do ano passado, casos de produção de conteúdo
sexual envolvendo menores de idade em ambientes digitais.
Para muita gente, pode parecer apenas mais uma lei sobre internet. Eu vejo de
outra forma: trata-se do reconhecimento de algo que já está diante de nós há
anos. A infância brasileira também passou a viver no ambiente digital.
Essa mudança não aconteceu de repente. Ela
foi acontecendo aos poucos, até se tornar impossível de ignorar. Hoje crianças
e adolescentes conversam, jogam, aprendem, se informam e constroem relações
dentro de plataformas digitais que organizam boa parte da vida social
contemporânea. Nos últimos dias, duas notícias aparentemente diferentes mostram
a ampliação e urgência desse debate.
A primeira envolve o WhatsApp. A empresa Meta
anunciou que pretende lançar contas gerenciadas por pais
para menores de 13 anos, permitindo que responsáveis
decidam quem pode entrar em contato com os filhos e de quais grupos eles podem
participar na plataforma. O recurso surge justamente às vésperas da entrada em
vigor da nova legislação brasileira. Já a segunda envolve o TikTok. O
Ministério da Justiça do Brasil pediu explicações à plataforma após a circulação de vídeos que simulavam
agressões contra mulheres e viralizaram nas redes
sociais.
Os dados espantam. Segundo a pesquisa TIC Kids Online 2025, 19% das
crianças entre 9 a 10 anos acessam a rede social várias vezes ao dia. Essa
porcentagem só cresce se comparado a idade: 33% para as crianças de 11 a 12
anos; e 55% para adolescentes entre 13 a 14 anos. E o Whatsapp não fica longe:
25% das crianças entre 9 e 10 anos acessam várias vezes ao dia; 47% das
crianças entre 10 a 12 anos; 51% dos adolescentes entre 13 a 14 anos.
Sobre os dois episódios, vejo algo em comum.
As plataformas digitais não são apenas meios de comunicação. Elas são sistemas
complexos que organizam interações sociais, distribuem conteúdo por meio de
algoritmos e capturam a atenção de milhões de pessoas todos os dias. Quando
esse sistema passa a fazer parte da vida cotidiana de crianças e adolescentes,
o debate deixa de ser privado. Ele passa a ser público.
É justamente nesse ponto que o ECA Digital ganha
importância. A lei afirma algo que deveria ser óbvio, mas que demorou para ser
reconhecido: se plataformas digitais estruturam a experiência social de milhões
de jovens, elas também precisam assumir responsabilidades proporcionais. Isso
significa exigir mecanismos de proteção mais robustos, sistemas de verificação
etária mais confiáveis e maior responsabilidade diante de conteúdos que possam
expor crianças a riscos. Mas também significa ir além da ideia de que a
proteção digital depende apenas da vigilância familiar.
O anúncio do WhatsApp ilustra bem esse
dilema. Ferramentas de controle parental podem ajudar, e muitos pais realmente
pedem esse tipo de recurso. Mas confiar apenas nisso é transferir para as
famílias um problema estrutural. Quando um ambiente digital é frequentado por
milhões de crianças, ele precisa ser desenhado levando isso em conta desde o
início.
O caso recente envolvendo o TikTok reforça
ainda mais essa necessidade. Não estamos falando apenas de um conteúdo
inadequado que escapou da moderação. Estamos falando de dinâmicas de
viralização que podem amplificar discursos violentos antes mesmo que qualquer
sistema de controle consiga reagir. Esse é o tipo de situação que revela a
dimensão real do desafio.
Durante anos ouvimos que regular plataformas
digitais poderiam prejudicar a inovação. Mas o mundo está começando a perceber
que essa oposição é falsa. Sociedades que conseguem organizar seus ecossistemas
digitais não fazem isso abandonando a inovação. Elas fazem criando regras
claras sobre responsabilidade, transparência e proteção de usuários.
Do outro lado do mundo, no oceano Pacífico, a
Austrália também entrou na conversa e estabeleceu limites claros para todo
mundo em novembro de 2025. Menores de 16 anos estão proibidos
de ter acesso a redes sociais e plataformas digitais, entre
elas: Facebook, Instagram, Snapchat, Threads, TikTok, X, YouTube, Reddit e as
plataformas de streaming Kick e Twitch. Além da terra dos cangurus, a Indonésia também anunciou, em março
de 2026, que irá proibir redes sociais para menores de 16 anos. A
partir do dia 28 de março, crianças e adolescentes indonésios irão ser
proibidos de usar plataformas classificadas de alto risco, como o YouTube,
TikTok, Facebook, Instagram, Threads, X, Bigo Live e Roblox, por conta de
riscos relacionados à pornografia, cyberbullying, fraudes e dependência da
internet, de acordo com o governo do país.
Aqui no Brasil, a entrada em vigor do ECA
Digital é um passo importante nessa direção. Ela não resolve todos os problemas
da infância conectada. Nenhuma lei resolveria. O ambiente digital muda rápido
demais para soluções simples. Mas ela estabelece um princípio fundamental: a
proteção da infância não termina quando a criança pega um celular.
Nos últimos anos, o próprio setor de jogos
passou a discutir de forma mais profunda os impactos de seus modelos de negócio
e formas de proteção mais assertivas sobre crianças e adolescentes. Como parte
desse esforço, contribuímos para a produção de um estudo enviado ao senador
Flávio Arns com propostas para restringir sistemas de recompensas aleatórias,
as chamadas “loot boxes”, em jogos acessados por menores. No Marco Legal dos
Jogos, que ajudamos a construir coletivamente, também foram incluídos
dispositivos de proteção à infância em ambientes de jogos. E nos editais
públicos que apoiamos para financiamento de novos títulos, defendemos critérios
que evitem o desenvolvimento de experiências digitais que coloquem crianças em
situação de risco.
E para que tudo isso funcione, todos têm que
cumprir seus papéis. Famílias continuarão tendo um papel central. As escolas
precisam trabalhar educação digital de forma mais consistente. O poder público
precisa acompanhar de perto a implementação dessas novas regras. E as
plataformas também precisam assumir que fazem parte desse sistema de
responsabilidade.
A infância brasileira já está na internet.
Isso não está mais em debate. O que está em debate agora é quem vai definir as
regras desse ambiente. E eu acredito que essa resposta não pode ficar apenas
nas mãos das plataformas. Ela precisa ser construída pela sociedade.
Porque proteger crianças nunca foi apenas uma
escolha tecnológica.
Sempre foi uma decisão coletiva.
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